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terça-feira, 9 de junho de 2020

COMO CRIAR UMA JUVENTUDE FASCISTA

Semaninha puxada e decisiva para as minhas pretensões de doutorado. A pandemia e a implementação do novo currículo nas escolas do RS estão pondo meu projeto em cheque. Então é hora de requentar um artigo que publiquei para o PTP (Por trás da Palavra - revista do CEBI). O texto é de antes das eleições de 2018. Será que mudou alguma coisa, desde então?

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COMO CRIAR UMA JUVENTUDE FASCISTA

A mesma geração que, não faz muito tempo, reclamava “dessa juventude que não quer nada com nada”, teme agora ser decisiva, netas eleições, a adesão de tantas pessoas jovens ao projeto político de um líder autoritário que flerta abertamente com o fascismo. Ora, o mais curioso é que não se espantem com sua própria contradição: como podem temer a influência de uma parcela do povo tão desinteressada nos rumos da nação?

Pode-se objetar: é justamente por serem apáticos que foram facilmente cooptados. A verdade, porém, é que são inúmeros os grupos juvenis organizados, do Levante Popular ao MBL, passando pelas mais diferentes expressões sociais (político-partidárias, religiosas, estudantis, esportivas, outras agremiações, etc.), tanto à esquerda quanto à direita. Podem não representar a maioria do eleitorado jovem, mas servem como exemplo definitivo de que não estamos diante de uma geração indiferente ao que acontece ao seu redor.

Mas é possível ver alguém que ainda insiste: a maioria dos jovens está alienada, não participa de nada e, por isso, é facilmente manipulada. Justiça seja feita, primeiro: o número de pessoas pertencentes à massa desorganizada é predominante na população em geral; segundo: as pesquisas eleitorais indicam que esta é a faixa etária onde se encontra o menor percentual de eleitoras e eleitores do candidato do PSL. Admitindo, porém, que o percentual entre jovens seja alto, a pergunta, diante desse quadro, deveria ser: Por que são os discursos de intolerância e ódio – e não os de paz e amor – que soam como o canto da sereia em ouvidos tão incautos?

Sem pretender dar conta do problema em sua totalidade – até porque o objetivo desta reflexão é priorizar o recorte juvenil –, talvez um olhar para o passado nos traga algumas respostas. O jornalista inglês Jon Savage escreveu um livro cujo título em português é A Criação da Juventude (2009). No capítulo 18, dedicado à juventude hitleriana, podemos ler o depoimento de uma mulher alemã, Melita Maschmann, que com 15 anos de idade presenciou (em 30 de janeiro de 1933) o desfile de indicação de Adolf Hitler para chanceler do Reich. Ela começa nos situando sobre sua realidade de adolescente: “Naquela idade, a gente vê uma vida de deveres escolares, passeios com a família e convites para aniversários deploravelmente vazia de significado. Não se dá crédito a ninguém por estar interessado em mais do que essas ridículas trivialidades. Ninguém diz: ‘você é necessário para algo mais importante, venha!’ Quando se trata de assuntos sérios, a gente nem conta.” Constato, como professor de rede pública, que essa é também a realidade de nossos estudantes.

Continuando, ela afirma: “Mas os meninos e meninas das colunas em marcha contavam. Como os adultos, eles carregavam estandartes onde estavam escritos os nomes dos seus mortos.” Os jovens cantavam: “Pela bandeira estávamos prontos para morrer”. Segundo Melita: “Não era uma questão de roupas, alimento ou redações escolares, mas de vida e morte”. De acordo com Savage: “O ingresso na Juventude Hitlerista dava aos adolescentes sem objetivo da Alemanha um propósito na vida e poder contra seus pais, que estavam, provavelmente, identificados com a desprezada República de Weimar.” (p. 279). Falta de objetivos (não querem nada com nada?) e conflito geracional, combustíveis para a manipulação das massas, recurso que o Führer soube utilizar habilmente – e Savage, ao demonstrar isso, foi muito feliz, indo ao cerne do problema: “Como os fascisti de Mussolini, os nazistas subiram ao poder evocando uma abstração de juventude como um agente vivo de mudança e realmente mobilizando os jovens por meio da mística do conflito, ação e pertencimento.” (p. 279 – os grifos são meus)

O discurso de Hitler, em janeiro de 1933, foi realmente incendiário: “Estou começando com os jovens. Nós que somos mais velhos estamos desgastados. Estamos apodrecidos até a medula. Não nos resta nenhum instinto incontrolável. Somos covardes e sentimentais. Estamos carregando o peso de um passado humilhante e temos no nosso sangue o melancólico reflexo da servidão e da subserviência. Mas os meus magníficos jovens! Existem melhores em algum outro lugar do mundo? Vejam estes rapazes e meninos! Que material! Com eles eu posso construir um novo mundo.” Impressionante a semelhança com as falas do candidato militarista brasileiro: vergonha do passado, história de escravidão e subserviência, hora da virada...

Lendo tudo isso, não consigo deixar de pensar no povo aclamando Davi porque este matara dez mil, enquanto o rei Saul, somente mil (1 Sm 18,7). E o que aquele fez, depois de coroado? Tornou-se um tirano, capaz de eliminar até mesmo seus aliados. Por exemplo, não contente com suas sete esposas, mandou matar (em nome da família tradicional?) o general Urias para ficar com sua mulher, Betsabeia, futura mãe de Salomão. Mesmo demonstrando a crueldade dessa ação real, a Bíblia foi favorável ao filho de Jessé, demonstrando como o povo o amava e o quanto era querido por Deus, que prometeu gerar o Messias de sua linhagem.

Davi, Hitler e Bolsonaro cativaram seus súditos com um discurso enérgico, patriótico, triunfalista e – pasmem! – inclusivo. Embora não dessem aos seguidores o direito de pensar, seduziram-nos dizendo-lhes o que queriam ouvir. Ora, sabemos que isso é alienação. Mas existe um modo de falar ao coração das pessoas sem manipulá-las. Quando Moisés foi chamado por Javé, este deixou bem claro que o enviava para atender ao clamor do povo (Ex 3,1-10). Deus foi enfático: “eu ouvi o seu clamor!” (v. 7b). Como propor aos jovens um mundo de paz e vida em plenitude? Que tal se, em vez de dizer-lhes o que devem querer, começássemos por ouvir os seus clamores? Muitos são os motivos para aderirem ao discurso de ódio, mas o principal deles é não se sentirem incluídos em nossos projetos de um mundo melhor.

 

REFERÊNCIAS

SAVAGE, Jon: Os Soldados de uma Ideia: A Juventude Hitleriana. In: ______: A Criação da Juventude: como o conceito de teenage revolucionou o século XX. Tradução: Talita M. Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 2009. p. 277-298.

Bíblia de Jerusalém: nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.

 

SÍTIOS

https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/09/15/rejeicao-a-bolsonaro-chega-a-56-entre-os-jovens-aponta-datafolha.htm. Acesso em: 24/10/2018.

http://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2018/10/1983182-com-58-bolsonaro-larga-com-vantagem-de-16-pontos-no-2-turno.shtml. Acesso em: 24/10/2018.


sábado, 9 de maio de 2020

A LIÇÃO DE ESDRAS E NEEMIAS: COMO SE CRIA UM NÃO-POVO

Dando continuidade ao debate do texto anterior, segue o texto que é paralelo ao segundo vídeo produzido por mim, visando a uma série sobre a formação do povo brasileiro. Boa leitura!!!

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Quando a secretária da cultura (novamente as minúsculas), cujo ingresso no governo se deu para substituir um homem que alegou ter reproduzido “sem querer” os efeitos estéticos de uma propaganda nazista, vai a público ridicularizar a dor das famílias dos mortos pela ditadura, fica evidente que este não é um governo para todos e todas. E se essa ex-atriz decide não dizer uma palavra pelas mortes de artistas da envergadura de Flávio Migliaccio, Aldir Blanc, Moraes Moreira e Rubem Fonseca – “coincidentemente” considerados persona non grata no período da ditadura militar – quando seu “chefe supremo” dedica os pêsames a Mr. Reaça e se solidariza com Gusttavo Lima por ser notificado após embriagar-se fazendo propaganda de cerveja em sua live – ambos apoiadores do mito –, não resta mais dúvida de que estamos diante de um governo egoico e – dada sua devoção a regimes militares – facínora.

Agora some a isso os discursos eleitorais (e de antes, muito antes ainda) do presidento: “É preciso matar uns 30 mil”; “vai morrer inocente? Azar...”; “vamos metralhar a petralhada”; “não te estupro porque você não merece”; “O filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento”; “quilombola não serve nem pra procriar”; “cada vez mais o índio é um ser humano igual a nós”; etc. Diante disso, a primeira pergunta talvez fosse: quem é digno de fazer parte de um grupinho tão seleto? Mas a esta tentei responder no texto anterior. Parece-me óbvio que quem não consta lá compõe o restante do povo brasileiro. Então a pergunta que devemos fazer agora é: como o governo lida com esse “resto”?

Diretamente, parece que tudo não passa de bravata. Uma bravata cruel, do tipo que reverencia um torturador como Brilhante Ustra. Mas indiretamente as consequências são terríveis. Camponeses, mulheres, pessoas trans, índios, quilombolas... Os números de violência e assassinatos dispararam de 2019 para cá. Como entoou Clara Nunes: “O povo desta terra, quando pode cantar, canta de dor”. E haja subnotificação e sonegação de informações. Não fosse o CIMI e o COMIN, a CPT, o Atlas da Violência (em que pese o IPEA ser um órgão governamental) e outras entidades, não teríamos como refutar a propaganda do governo, que se gaba de ter os melhores índices de segurança de todos os tempos. Óbvio: Assim como na ditadura, o que não tem registro não aconteceu.

Mas isso não é novidade! Que estamos sob o comando de um grupo genocida empenhado em defender apenas os próprios interesses, também não. E é justamente aí que reside o problema. Desde os tempos do Deus dos Exércitos, aquele que mandou Josué passar outros povos ao fio da espada, que “as minorias se adequam, ou simplesmente desaparecem”.

Quando Esdras e Neemias, cada um a seu tempo, tiveram a incumbência de reconstruir Judá, tomaram medidas um tanto quanto extremas. Os estrangeiros (não-judeus) deveriam deixar o reino – ou melhor: aquela pequena província que outrora fora um reino e agora pertencia a uma satrapia persa – imediatamente. Se fossem homens, deveriam levar a família toda, mesmo que suas mulheres fossem judias. Se mulheres, seguiriam com seus filhos para o exílio, mas o marido (judeu) poderia ficar. Por que ninguém achou isso absurdo na época? Ora, o povo simples deve ter achado. Mas os registros foram feitos por quem sabia ler e escrever, ou seja, a parte intelectual dos funcionários públicos de então – os escribas. Como convencê-los a fazer uma boa propaganda do governo? Prometendo a reconstrução do templo (destruído na época da invasão babilônica), talvez? Será que conseguimos identificar ações semelhantes em nossos dias?

A restauração do culto a Javé por meio da reconstrução do templo foi uma maneira de restabelecer o poder da elite judaica deportada durante o domínio dos babilônios. Naquele momento, o sequestro da corte do rei Joaquim (especialmente oficiais militares e casta sacerdotal) proporcionou uma oportunidade única aos pobres que permaneceram na terra, liderados pelo profeta Jeremias (Aldir Blanc?). Dali até o tempo de Neemias (a personagem, não o livro) foram 60 anos aproximadamente. Seguramente, quem foi para o exílio já não era mais vivo ao fim dele. As outrora ricas e extensas propriedades, abandonadas durante esse período, foram ocupadas naturalmente pelos remanescentes e por imigrantes que foram se achegando aos poucos. No Brasil não chegamos a ter uma reforma agrária. Mas programas como o Minha Casa, Minha Vida e o Bolsa Família, bem como as garantias de soberania dos territórios indígenas e quilombolas, foram oportunidades concretas de redistribuição (ou manutenção) de terra e de poder econômico. Regressando do cativeiro, os filhos dos exilados retomaram os privilégios de seus pais forjando um direito divino à herança e condenando ao exílio os “impuros” invasores de suas terras. Foi nesse instante que surgiu a noção de raça judaica pura. E com a bênção do rei estrangeiro. Os tiraninhos (Esdras e Neemias) tinham carta branca para reconstruir o templo, desde que não restaurassem a monarquia de Judá (não sonhassem com a independência) e rezassem diariamente no novo templo (através de Edir Macedo, Malafaia e seus outros sacerdotes?) pela saúde do tirano-mor (Trump?), o rei persa, ou melhor, o verdadeiro rei.

Se você acha um salto muito grande transpor o quarto século a.C. para o XXI d.C., então vamos pensar na formação do povo brasileiro. Proponho uma curta viagem pela literatura, já que é a especialidade da casa. No século XVIII, quando a Inconfidência Mineira começa a indicar o desejo de independência da coroa portuguesa, duas obras narrativas – O Uraguai (Basílio da Gama) e O Caramuru (Santa Rita Durão) apontam para os índios como bestas-feras, seres inferiores. Bem é verdade que o romantismo tenta alçá-los, com obras como Iracema e O Guarani (José de Alencar) à condição de heróis, mas totalmente descaracterizados (cristianizados e movidos por um espírito “civilizado” e civilizatório). Castro Alves denuncia, com seu Navio Negreiro, a prática ainda comum do tráfico humano, mas com vistas a derrubar a monarquia, de economia escravagista, para que então viesse a república. Que os negros não eram o real motivo da preocupação dos republicanos, sugere-o o silêncio sobre Úrsula, obra abolicionista da professora maranhense Maria Firmino. Aluízio Azevedo, Monteiro Lobato e Euclides da Cunha defendem que um dos maiores problemas sociais do Brasil não seria a desigualdade, mas a mistura de raças. Segundo eles, o Brasil não teria como dar certo porque a maioria da população era formada por mulatas sensuais e caboclos (os verdadeiros sertanejos) vadios e desprovidos de cérebro. Mesmo Mário de Andrade, progressista, ao representar o povo brasileiro nas cores de Macunaíma – que aliás era de todas as cores (preto, vermelho e branco) – define-o como o herói “sem nenhum caráter”, isto é, sem nenhuma característica.

Será impossível perceber que influência tem essa “herança” cultural sobre o modo como vemos nossos pobres hoje? Brecht diria:

“Quem é teu inimigo?
O que tem fome e te rouba o último pedaço de pão
chama-o teu inimigo.
Mas não salta ao pescoço
De teu ladrão que nunca teve fome.”

Será que forço a barra ao dizer que é mais fácil – e conveniente – convencer uma parcela privilegiada da população de que é vontade de Deus eliminar os “sujos” e maltrapilhos inimigos da nação e fazer prosperar aqueles que, apesar de toda sua iniquidade, garantem a prosperidade da economia mundial? E o mais importante: como desconstruir esse pensamento hegemônico e fazer surgir um novo céu, um novo tempo, uma terra sem males?

terça-feira, 5 de maio de 2020

MORO vs. BOLSONARO: QUEM É O POVO BRASILEIRO?

Ok, lá vamos nós de novo! Bloguear está meio fora de moda, mas gosto de escrever. Embora esteja tentando me adaptar aos novos tempos (youtube e quarentena), sinto que falta alguma coisa. Então vou tentar complementar meus vídeos com artigos publicados neste espaço e vice-versa.

Estou iniciando uma série sobre o povo brasileiro. Já lancei dois vídeos (mais descontraídos, pois confesso que o objetivo primeiro era chegar aos jovens de grupos de base). Este texto corresponde ao primeiro deles (confira aqui). Boa leitura!!!

Ah, e quem quiser contribuir com críticas (construtivas) e comentários, estes serão bem-vindos, pois o debate é sempre produtivo!

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Que a peleia entre Moro e Bolsonaro é uma disputa pelo poder, com vistas ao pleito de 2022, não restam dúvidas. Porém, o embate entre seus séquitos levanta uma questão: quem é, afinal de contas, o povo brasileiro? Ou melhor: quem merece ser considerado povo?

Durante as últimas manifestações em prol da intervenção militar – que o presidento (com minúscula mesmo) diz não ter convocado, mas às quais está sempre presente –, tem sido constantemente entoada uma espécie de bordão: “agora é o povo no poder”. A frase é típica de um líder populista. Entretanto, devemos entender bem o seu contexto. Allan dos Santos, youtuber com milhares de seguidores, promove um curso chamado O Povo no Poder. Acreditem: a semelhança não é mera coincidência. Esse ex-seminarista e moralista autoproclamado cristão é um potente porta-voz das ideias olavistas e contumaz defensor do clã Bolsonaro. Em um de seus recentes tweets (21/04/2020), escreveu:

“ATENÇÃO: criem aplicativos e localizem quem comemora e promove o comunismo. Assim que o STF decidir, poderemos caçar essas pessoas e:
- prendê-las;
- ‘linchá-las’ nas redes socias;
- publicar seus endereços etc.”

Some-se a isso ideias como: “Bastam um soldado e um cabo para fechar o STF”; “Tem que estudar como fazê-lo” (um novo AI-5); “Vamos metralhar a petezada do Acre”; “Brasil, ame-o ou deixe-o!” (também conhecido como: “Vai pra Cuba!”); e veremos, a qualquer momento, emergir o Monstro da Lagoa (como na metáfora de Chico Buarque).

A essas alturas já dá pra perceber que esse “povo” no poder não significa a totalidade do povo brasileiro, mas só um clubinho dos eleitos. E não pensem que, do lado morista, a situação seja diferente. A alcunha “vazajato” é proveniente de uma operação onde os fins justificam os meios, quais sejam, se for para aniquilar o inimigo. O próprio Moro admitiu ter quebrado uma ou duas regrinhas para garantir o bem “maior” (ou seria o bem para os “maiorais”?) da sociedade. Seu séquito, no fundo, tem um discurso idêntico ao do seu – agora – opositor. Tanto é que sua esposa afirmou, certa vez, ver o então ministro e o Coiso como “uma coisa só”. E a cena de confronto entre as duas facções – ambas vestindo verde e amarelo – no último domingo só confirma as semelhanças.

Mas então quem é esse povo? As falas mais recentes do Sr. Jair “resolvem” o mistério.

Depois de delimitar quem são seus ouvintes:
“Tô na rampa, dentro da minha casa, a casa do povo”;

Ele declarou:
“Peço a Deus que não tenhamos problema nesta semana”;

E disparou suas clássicas ameaças:
“Chegamos ao limite. Não tem mais conversa. Daqui pra frente não só exigiremos, faremos cumprir a Constituição. Ela será cumprida a qualquer preço.”

A referência a Deus e o uso do “nós” são indicativos de que somente quem o segue fará parte do povo eleito, numa nova terra prometida. E que ela será implantada a qualquer preço, ou seja, “matando uns 30 mil...”

A bandeira de Israel nas manifestações “patrióticas” confirma a legitimidade da comparação com Moisés (embora o combativo governante prefira se igualar ao Messias, mesmo sem saber fazer milagres...). Dizer que “o que era velho ficou para trás” também é referência bíblica (farei um novo Céu e uma nova Terra). Só que, como é comum aos fundamentalistas, trata-se de uma leitura que mistura a linha teológica do Deus vingativo, Deus dos Exércitos, com a do ABBA (não confundir com o nome da banda sueca!), Deus-Pai, conforme as conveniências.

E por que, necessariamente, há uma relação entre o “povo” (morista ou bolsonarista) e a Bíblia? Porque a imagem de um povo que marcha contra tudo e contra todos, amparado unicamente por seu Deus, um ser ciumento e Todo-Poderoso, que ordena passar os infiéis pagãos ao fio da espada casa perfeitamente com ideologias autoritárias. É assim em praticamente todas as teocracias. Foi assim com os golpes militares que tomaram a América Latina, nas décadas de 60 e 70. E foi em nome de Deus que Hitler exterminou tantos judeus. Não é por acaso que, na Curitiba de nossos dias, uma socialite queira impor a quem está respeitando a quarentena que use uma fita vermelha no braço para ser identificado e não ter o direito à assistência médica, já que escolheu não “contribuir” (sic) durante este período. Essa ideia levou a Auschwitz e está intimamente ligada à mentalidade da raça pura, também presente na Bíblia.

O discurso de Moro, se é mais contido, não deixa de ter os mesmos elementos. Por exemplo, ao rebater as críticas de Rodrigo Maia ao seu projeto de lei anticrime, ano passado, ele disse:

“Talvez alguns entendam que o combate ao crime pode ser adiado indefinidamente, mas o povo brasileiro não aguenta mais. Essas questões sempre foram tratadas com respeito e cordialidade com o Presidente da Câmara, e espero que o mesmo possa ocorrer com o projeto e com quem o propôs. Não por questões pessoais, mas por respeito ao cargo e ao amplo desejo do povo brasileiro de viver em um país menos corrupto e mais seguro.”

O pacote em questão trouxe à tona o problema da tal excludente de ilicitude. Na prática bastaria, por exemplo, os militares que dispararam 80 vezes “por engano” naquele “acidente” que matou um músico no RJ alegarem ter agido com excesso de violência por “medo, surpresa ou violenta emoção”. Sabendo da desigualdade que vigora no Brasil – e que a ação dos policiais não ocorre na favela da mesma forma que nos bairros nobres – soldados da PM não precisariam mais justificar o extermínio de pessoas pobres e negras largando um “confundi o guarda-chuva com um fuzil”. Em tempo: esse item foi vetado pelo Congresso, mas ainda tramitam novas PLs de Bolsonaro, tentando “ressuscitá-lo” nas GLO (Garantias da Lei e da Ordem), aplicando-o, por exemplo, no combate às “desordeiras” manifestações sindicais. Resumindo: o “amplo desejo do povo brasileiro”, seja ele morista ou bolsonarista, seria exterminar quem não faz (ou não deveria fazer) parte do povo brasileiro.
Ah, mas falta um elemento aí! Cadê o caráter divino da missão salvífica do superministro? Pois bem! Ele termina sua réplica ao Presidente da Câmara dizendo: “Que Deus abençoe essa grande nação.” Ora, não é preciso autoproclamar-se enviado de Deus depois desse gran finale. De resto, observe-se que Padre Ricardo, Malafaia, Edir Macedo e outros da mesma laia o apoiam tanto quanto ao autoproclamado líder supremo da nação. Se agora criticam o homem da toga, fazem-no como a um filho mais novo que está fazendo pirraça ao irmão mais velho. Ter aprisionado Luís Inácio Lula da Silva – o comunista-mor – ainda lhe confere uma aura de homem santo, enviado de Deus para trazer justiça a toda a Terra.

Controlar as pessoas pela fé sempre foi um método eficaz. A esperança da eterna recompensa e o medo da danação eterna mantêm, ainda hoje, o rebanho sob as ordens do pastor. Foi dessa forma que os reis mantinham, no período medieval, as coisas exatamente do jeito como estavam. Se o plebeu, em vez de aspirar à nobreza, devia a esta servir lealmente, não era porque assim determinava o rei, mas por imposição da vontade divina. Mentalidade de rebanho, de gado. Gado não critica. Gado só obedece. Com algumas variáveis, a teologia da retribuição, trajada agora de teologia da prosperidade, continua ainda hoje entranhada na vida de boa parte da população. A mais carente a ela se agarra para manter alguma esperança e, assim, poder suportar as dificuldades e impossibilidades do dia a dia. A classe média, especialmente a baixa, ressentida, para aliviar sua consciência e também por acreditar que merece favores divinos. Afinal, segundo ela mesma, quem movimenta a economia do país, quem faz a roda da vida girar? E o pastor? Ora, o pastor quer o cartão de crédito! Mas com a senha! Senão a graça não vem...

A diferença é que, agora, não se espera mais que Deus dê a cada um, cada uma conforme suas obras, mas que Deus dê para mim. E que o outro, o inimigo seja eliminado. Ao fio da espada. Bolsonaro já disse: “minha especialidade é matar”. O comentário não carece de explicações. Moro parece mais polido. Entretanto, sua espada é igualmente assassina. Se não tira a vida do oponente, destrói sua imagem, o que – em pleno século XXI – quer dizer a mesma coisa. Tem a toda poderosa Globo à sua disposição e sabe muito bem como usá-la.

E essa é a máxima do atual momento brasileiro. Quem pertence ao “povo” viverá, e a verdade o libertará (e a verdade é que um defensor dos direitos humanos não é páreo para uma escopeta). Aos demais, o fio da espada, real ou virtual. Quem são os demais? Isto é, quem é o não-povo? Esse é o tema da nossa próxima conversa...

domingo, 9 de dezembro de 2018

NÃO DESCANSAREMOS ATÉ ENCONTRAR A FELICIDADE


A pastoral da Juventude nacional da ICAR está lançando uma nova campanha. Desta vez, o movimento é de enfrentamento aos ciclos de violência contra a mulher. Aqui no Rio Grande do Sul houve um encontro em junho deste ano. O lema, inspirado em um versículo bíblico, foi: “Não descansaremos até encontrar a felicidade.”
A frase original é de Noemi, sogra de Rute. O texto bíblico é mais ou menos assim: “Minha filha, não hei de buscar-te um lugar de repouso, para que sejas feliz?” (Rt 3,1). Há uma ligação especial entre essas duas mulheres. Noemi é uma retirante. Fugindo da fome, ela e o marido Elimelec (ou Elimeleque) saem de sua terra, Belém de Judá, com seus dois filhos, Maalon (ou Malom) e Quelion (ou Quiliom), rumo a Moab (ou Moabe). Estes, por sua vez, desposam duas moabitas, Orfa e Rute. Acontece que os homens dessa história morrem todos, deixando as três mulheres viúvas, duas delas muito precocemente. Ciente disso, Noemi despede as duas, pois pretende voltar a Belém e deseja que ambas reconstruam suas vidas junto a seu povo. Depois de muito choro, Orfa aceita a proposta, mas Rute responde corajosamente: “Onde for sua morada, será também a minha. O teu povo será o meu povo e o teu Deus, o meu Deus.” (Rt 1,16). É essa firmeza que transforma a sogra em mãe e protetora. Juntas, elas têm um plano para prover sua segurança, isto é, um lugar de repouso. Numa expressão de nossos dias, “ter (um lugar) onde caírem mortas”.
Que plano é este? Veremos adiante! Antes, porém... Como bem sabemos, Rute é bisavó de Davi (Rt 4,17). Na genealogia de Jesus, segundo Mt 1,1-17, cinco mulheres merecem destaque: ela, Tamar, Raab (ou Raabe), a esposa de Urias (Betsabeia ou Bate-Seba) e Maria. O curioso é que as genealogias eram um modo de identificar a pureza da linhagem patriarcal dos filhos (homens) de Israel. Por que, então, citar essas cinco mulheres? E mais... Cinco pecadoras?
Pecadoras, sim! Pelo menos, na ótica patriarcal. Senão, vejamos: Tamar foi para a esquina fazer ponto e, nisso, aplicou o famoso “golpe da barriga” em seu sogro Judá (Gn 38,15-19); Raab era prostituta (Js 2,1; 6,17.25); Betsabeia, casada com Urias (2Sm 11,3), general – isto é, homem de confiança – de Davi, deu a este dois filhos (o primeiro, morto ainda bebê [2Sm 12,16-18a]; o segundo, Salomão [2Sm 12,24]). Quanto a Maria... É um pouco mais complicado de afirmar, mas... esqueçamo-nos, por instantes, de que há uma tradição piedosa de mais de dois mil anos por trás de sua história. Como soaria a vocês, hoje, a gravidez de uma adolescente por obra do Espírito Santo? Para José não foi muito diferente. Tanto que ele quis abandoná-la (Mt 1,18-19). Não fosse um anjo...
Todas essas mulheres, ou tinham motivos nobres para o que fizeram, ou foram vítimas das circunstâncias. Observem, por exemplo, o que diz 2Sm 11,4: “Então, enviou Davi mensageiros que a trouxessem; ela (Betsabeia) veio, e ele se deitou com ela. Tendo-se ela purificado da sua imundícia, voltou para sua casa”. Aulinha básica de português: quando o verbo está na voz ativa, quem pratica a ação é o sujeito. Em “ela veio, e ele se deitou com ela” não diz que Betsabeia busca o ato sexual, que é intenção dela ter relações com Davi. Quem domina a cena é o rei. A ela cabe apenas limpar-se, após a consumação, “de sua imundícia”. Ou seja: o rei quis, mas quem ficou impura? No mundo governado pelos homens é assim: o regente manda, a súdita obedece (e leva a culpa).
É muito importante ter isso em mente porque é do que se trata o capítulo 3 do livro de Rute. A história se parece com a de Tamar. Esta enganou o sogro porque primeiramente este a tapeou, não fazendo seus filhos cumprirem a lei do levirato (que obrigava o cunhado a casar-se com a viúva de seu irmão e gerar filhos que pertenceriam à genealogia deste – Dt 25,5-10). Também Rute era viúva, mas não tinha cunhado, pois ambos os irmãos haviam morrido (Rt 1,3-5). Não ter herdeiros era sinal de maldição entre os homens. Por sorte, havia um parente, uma pessoa importante da família de Elimelec. Este homem era Booz (ou Boaz – Rt 2,1). E aí entra em ação o plano das duas mulheres desamparadas. A lei do levirato era extensiva aos parentes mais próximos, caso não houvesse um irmão para assumir o compromisso de dar uma linhagem ao falecido. Assim como Tamar enganou o sogro Judá, fazendo-o acreditar que ela era uma prostituta, Rute teve que manipular os acontecimentos. Embriagou Booz e deitou-se com ele, que naquele momento pensava apenas estar desfrutando dos prazeres concedidos por uma linda estrangeira (Rt 3,1-8). Quando soube, porém, que se deitara com a viúva de um membro de seu clã, tentou passar a responsabilidade a outro. Este recusou, para não prejudicar seus herdeiros (Rt 4,6). Booz não teve outra alternativa, então, a não ser assumir as consequências por seu ato (Rt 4,9-10).
Na ótica machista, Tamar e Rute aplicaram um golpe. Se é verdade que os fins não justificam os meios, por outro lado bem disse o filósofo Thoreau que, diante de governos tiranos e leis injustas, só nos resta a desobediência civil. Se hoje juízes mancomunados com o poder distorcem a letra, as mulheres empobrecidas da Bíblia não ficam esperando a justiça (nem a humana, nem a divina) atuar “naturalmente”. Se Jesus disse para sermos sábios como as serpentes (isto é, os escribas – Mt 10,16), é com inteligência que elas combatem o mal e lutam por seus direitos, assumindo o protagonismo de suas vidas e forçando os acontecimentos a desembocarem em sua libertação. Isso, por si só, já é motivo mais do que suficiente para que estejam na genealogia de Jesus.
O presente momento é de repensar nossa caminhada. Que frutos colhemos atualmente em nosso processo de resistência? Qual o papel das mulheres nessa luta? Respeitamos seus espaços e lutamos, com elas, pela valorização, conquista e/ou manutenção de seus direitos? Que direitos são estes?
Precisamos ouvi-las, empaticamente. Mateus escolhe cinco mulheres em situações emblemáticas para nos lembrar disso. É nosso dever, portanto, admitir no mínimo que, se elas dizem estar sendo oprimidas, estão, de fato, sendo oprimidas. Não é vitimização dizerem que fulano, por mais respeitável que seja nos círculos mais progressistas, libertários (como deveriam ser respeitáveis Judá e Booz, no seu tempo), teve uma atitude machista com elas. É muito importante, também, o resgate da memória, mostrar que a história não é feita somente de homens. E mais: que elas estiveram presentes nos momentos cruciais (como ao pé da cruz, por exemplo). Foi isso o que Mateus fez; é isso que devemos fazer. Não descansemos, enfim, enquanto não conquistarmos, para todos e todas, a felicidade.

domingo, 18 de novembro de 2018

O FRUTO DO VOSSO VENTRE


E se? E se Jesus fosse mulher? Dizem que Deus – perfeito que é – não pode ser limitado a nenhum conceito, dimensão ou categoria (como gênero, por exemplo). Todavia, mesmo a visão mais amorosa do sagrado ainda é um Abba, paizinho.
Você sabia que um dos nomes de Deus, Shadday (Gn 17,1; 28,3; etc.), pode ter vindo da palavra hebraica Shad, “útero”? E que o Espírito de Deus, que pairava sobre as águas (Gn 1,1), era uma entidade feminina: a Ruah? Toda representação feminina do divino foi “esquecida” ou apagada intencionalmente (Shadday, por exemplo, foi traduzido por Todo-Poderoso).
Mas isso mudaria se Jesus fosse mulher? Olhando para o modo como os discípulos trataram os relatos de mulheres que experimentaram a ressurreição, suspeito de que a Nazarena não teria nem sido ouvida. Em Lucas, por exemplo, diziam os discípulos de Emaús: “Bem é verdade que as mulheres nos deram um susto. Foram ao túmulo e não encontraram o corpo. Alguns dos nossos foram e encontraram tudo como elas haviam dito. Mas ninguém viu Jesus.” (Lc 24,22-24)
Ah, mas isso era com a Madalena. Os evangelhos são praticamente unânimes em dizer que foi ela a primeira a fazer a experiência do Cristo ressuscitado. Ora, é senso comum dizer que ela era adúltera, pecadora, prostituta, endemoninhada. Em um outro momento, podemos desmitificar a imagem dessa mulher, que foi prostituída ao longo do tempo (leia, por exemplo, Jo 8 e perceba que não se diz o nome da adúltera; logo, não deve ser Madalena). Mas agora vou propor outro exercício. Pensemos em outra Maria, a mãe de Jesus. Um dia ela chegou para José e disse que ia ser mãe, e o pai seria o Espírito Santo. Tranquilo, né!? Sussa... Mas José intentou rejeitá-la por isso (Mt 1,18-19). Precisou de um ser dotado de autoridade, isto é, de um anjo (entidade assexuada, assim como Deus; no entanto, ambos são designados por substantivos masculinos) para dissuadi-lo dessa ideia (Mt 1,20.24).
Admitamos: O fato é que, se Yeoshuá fosse mulher, suas palavras não teriam sido sequer levadas em consideração, nem ontem, nem hoje. Quantas pessoas devotas de Maria a veneram por sua célebre frase: “[Deus] depôs os poderosos de seus tronos e os humildes exaltou”? (Lc 1,52) Não é a tônica mariana crer na santa como intercessora apenas, como aquela cuja função seria – única e exclusivamente – facilitar o acesso junto a seu filho?
Para enfatizar o rebaixamento de Cristo à condição humana, Paulo o chama de nascido de uma mulher (Gl 4,4). Essa expressão é usada em outros textos bíblicos e parece ser pejorativa (cf. Jó 14,1; 15,14; Lc 7,28). Entretanto, convém destacar os dois cânticos de Lc 1: o de Maria (vv. 46-56) e o do Zacarias (vv. 67-79). Enquanto o menino (isto é, o projeto) que nasce das elites (seu pai é sacerdote) é, no máximo, um sinal (o que aponta para o Messias), o que nasce de uma menina pobre subverte as estruturas (“cumulou de bens os famintos e despediu os ricos de mãos vazias”). Para além da oposição ricos x pobres, tracemos outro paralelo: Existe, sim, uma via de salvação para quem acredita na lógica do Templo, mas somente o rompimento com o sistema patriarcal gera a verdadeira mudança.
Se pensarmos na recente disputa pelo poder, veremos muita gente de esquerda – eu mesmo, durante um bom tempo – sentindo-se derrotada pelo resultado das urnas. Ora, nossa derrota já começou na escolha da solução para os nossos problemas. O patriarca Bolsonaro venceu porque o patriarca Lula não pôde concorrer. O sistema que aí está não permite uma verdadeira revolução. O que mudou, efetivamente, nos 13 anos do PT no poder? O povo podia consumir mais. Importante benefício para a população, mas que em nada mudou a cultura exploratória do meio ambiente e depredatória de recursos naturais e finitos. A proposta, de fato, alimentou e vestiu muito mais gente do que nos governos anteriores, especialmente os pobres, mas nada tinha de sustentável, ecológica e economicamente, a longo prazo.
O que acabo de dizer está longe de ser um discurso conformista, ou uma rendição ao novo governo. Nada de torcer para que dê certo um projeto que não esconde de ninguém suas intenções elitistas, excludentes, homofóbicas, misóginas, racistas... É inegável que o prejuízo será infinitamente maior com a ascensão de um homem cujo discurso desperta nas pessoas o que elas têm de pior. Antes, o que quero discutir é a estratégia de resistência. Queríamos a eleição do (patriarca) Ciro ou Haddad por acreditar numa maior abertura para debater as necessidades do povo. Isso não podemos perder de vista! O sistema é injusto por si só, independente de quem assuma o poder, homem ou mulher. Como promoveremos a verdadeira paz (Jo 14,27), como alcançaremos a terra sem males, onde “corre leite e mel” (Ex 3,8), se continuamos a acreditar no sistema baseado no macho salvador da pátria?
Talvez seja impossível dizer agora o que fazer. Mas é possível perceber o que NÃO fazer. O papel da resistência não é, de forma alguma, submeter-se ao sistema. Ele é o problema. Seus princípios são o problema. Sua lógica funciona da mesma forma, independente da posição política de quem ocupa o cargo mais alto. Basta lembrarmos do Lula dizendo que das tais alianças (com praticamente toda a nata do patriarcado brasileiro) dependia a governabilidade do país (e o final dessa história conhecemos muito bem!). A derrota foi dura, doída, sim, mas pode significar um renascer, a assunção de um projeto de vida, centrado no amor, algo que definitivamente o patriarcalismo não pode nos dar.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

LEVANTEM-SE E COMAM


Buenas... Conforme eu havia prometido, eis a segunda parte de uma análise do cenário pós-eleitoral que iniciei em meu post anterior (perdeu? leia aqui!). O olhar, naquele momento, tinha um viés mais artístico (musical e literário, por assim dizer). Agora, de acordo com o combinado, segue um olhar mais teológico sobre o assunto.
Recapitulando, eu havia dito que a eleição do Voldemort me deixara com medo. Na verdade, trata-se de uma mistura de sentimentos: pavor, derrota, impotência... Isso me manteve paralisado por um tempo, mas logo percebi que não é o fim do mundo, que nada de novo vai acontecer se ficarmos quietos, esperando os ventos mudarem.
Lembrei, então, de Elias. Ele viveu no tempo de Acab, rei de Israel [874 a 853 a.C.], cuja idolatria levou o povo à fome e à miséria (1Rs 17,1.7; 18,1-2). Após uma verdadeira epopeia no monte Carmelo (cf. 1Rs 18,20-46), em que o projeto de morte do monarca parecia ter sido definitivamente derrotado, entra em cena a rainha Jezabel e resolve endurecer o cerco contra o profeta de Javé. Jurado de morte, ele se retira para o deserto e esconde-se debaixo de uma árvore, onde pede para morrer e, depois disso, “deita e dorme” (1Rs 19,1-5a).
Impressiona a semelhança, se pensarmos em Acab como o eleito, e Jezabel representar o juiz de Curitiba. Lula não foi para o deserto (autoexílio em países como o Uruguai, que à época abriram as portas para o ex-presidente) e deu no que deu. A fuga de Elias foi providencial.
Mas Javé não o queria dormindo debaixo do junípero. Era preciso que a retirada fosse (ou se tornasse) estratégica. Por isso, um anjo o acorda e diz: “Levanta-te e come!” (v. 5b). Como ele não entendesse bem o recado, o mensageiro repetiu: “Levanta-te e come, pois do contrário o caminho te será longo demais!” (v. 7).
Ficar parado só alimenta o medo. É preciso levantar, sair do ponto de inércia, colocar-se em movimento, ou nada mudará.
Elias é convocado a ir para o monte Horeb (v. 8). O que tem esse lugar de especial? Ele representa o ponto alto de outra caminhada, que não durou 40 dias e 40 noites (como a de Elias), mas 40 anos: a libertação do povo hebreu. Foi no Sinai (= Horeb; cf. Ex 19,1-20,21; Dt 4,10-11) que Moisés recebeu as leis para a organização de uma nova sociedade, totalmente livre do poder opressor do Egito.
É preciso voltar à origem, ao primeiro amor. Eis a questão, não só para o PT, mas para os movimentos sociais. Não esquecer por que existimos. Por outro lado, é preciso entender também os tempos, fazer a correta leitura do cenário. A Moisés, Javé falou pelo trovão (Ex 19,19), com fogo, relâmpago e tremores de terra (Ex 16.18). O povo tinha se libertado, vivia um tempo de autonomia, caminhava perdido no deserto, mas sem o opressor por perto. Elias tinha a Polícia Federal, isto é, o Exército de Jezabel em seu encalço. Deus passou por ele. Entretanto, não estava no furacão, nem no terremoto, nem no fogo; sua voz era uma brisa suave (1Rs 19,11-12).
A noite está começando. É tarde... Um novo dia virá, porém. Agora é hora de se recolher. Dormir será sonhar, e como diria Raul Seixas:
“Sonho que se sonha só
é só um sonho que se sonha só.
Mas sonho que se sonha junto é realidade.”
Talvez por isso algumas pessoas encarem sonhar como o momento em que a gente finalmente se desperta. Parafraseando, ainda, o roqueiro baiano:
“Justamente acordei
No dia em que a terra parou.”
Volto, portanto, ao fim de meu texto anterior: “É hora de sarar as feridas, o que implica buscar apoio nas amizades, nas parcerias, nas redes.” A hora é de nos reorganizarmos, de nos reinventarmos. É hora de sonhar!
Obs.: O texto completo (partes I e II) pode ser lido no site no CEBI (clique aqui). O título ficou um pouquinho diferente do original (meu post anterior), mas a essência permanece.

sábado, 27 de outubro de 2018

ÚLTIMA CHAMADA: #ELENÃO #DEMOCRACIASIM


Amanhã teremos a eleição mais emblemática desse período pós-Diretas Já! Na melhor das hipóteses, será apenas um capítulo ruim da nossa história. Na pior, o fim da nossa jovem democracia.
Curiosamente, são os críticos às ditaduras socialistas os que ameaçam a liberdade do nosso povo. Querem de todas as formas limpar a sujeira do país. Mas sujeira, para eles, é ser pobre, negro, homossexual, mulher, menor, bandidinho de porta de cadeia...
Você já reparou que o Bolsonaro não fala nada contra estelionatários, sonegadores (já disse, aliás, que sonega tudo o que pode), a banda podre da polícia, os privilégios de deputados e juízes (aliás, utiliza-se deles para "comer gente"), o crime organizado (PCC e Esquadrão da Morte, por exemplo), isenção fiscal de igrejas e grandes empresas, etc.!? Você já reparou que essa é também a posição de quem o apoia? Por que o ódio dessa gente é contra as minorias? Já parou pra pensar?
Tentando puxar pela memória, não me recordo de nenhum momento em que as pessoas defendiam essas posições assim, tão abertamente. Sim, havia piadinhas de cunho racista, machista, homofóbico, misógino antes. Havia bullying! Sempre houve, nas reuniões de família, na escola, na TV (quem aí lembra dos Trapalhões?)... Mas ninguém dizia que negros, pobres, nordestinos, gays, imigrantes, mulheres, jovens, enfim... Que as minorias deveriam se adequar, ou seriam torturadas, estupradas, exterminadas. Ninguém dizia isso abertamente. Nem o Didi!
Quem leu ou assistiu à saga do menino Harry Potter vai lembrar que, quando pressentiram que Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado voltaria, tanto os dementadores quanto outras criaturas malignas e, principalmente, os antigos vassalos (escravos seria o termo, mas muitos deles seguiam Voldemort por gosto) começaram a sair das sombras e a revelar sua verdadeira face. E então atacavam trouxas (pessoas sem magia), sangues-ruins (meio bruxos, meio normais) e amigos de trouxas e de sangues-ruins. Impossível não fazer a correlação. Incompreensível é curtir essa história e votar em quem é uma ameaça a negros, mestiços, LGBTQ e tudo mais que for diferente.
O que estamos fazendo com nossa humanidade? E o mais curioso é que tudo isso é em nome de um “deus acima de todos”. Todos quem? E de que deus estamos falando?
Na Bíblia, há vários retratos de Deus. O do êxodo não caminha acima, mas COM o seu povo (Ex 13,21). O terrível está do lado dos pobres (Salmo 76,8-10; Deuteronômio 10,17-18). O dos exércitos é frequentemente mencionado no contexto da monarquia em Israel, mas com o intuito de guerrear contra os povos inimigos, não com os pobres da terra. Somente o da retribuição (muito semelhante ao da prosperidade, anunciado nesses nossos dias), vinculado às leis do templo em Jerusalém, atribui à graça divina o sucesso financeiro, bem como a bênção de ter nascido varão e homem livre. Quem estivesse fora desse grupo seria um amaldiçoado ou amaldiçoada. Vale lembrar que, no pós-exílio, a religião se tornou altamente estratificada: só os sacerdotes podiam se aproximar do Santo, onde ficava o altar; os homens ficavam numa espécie de antessala, ao lado do Santo; e as mulheres no átrio, ou seja, lá fora, junto com as crianças e os forasteiros. É justamente esta teologia que Jesus combate quando opõe o deus altíssimo (inalcançável, portanto) ao ABBA (paizinho).
Aliás, um dos títulos do nazareno é Messias, motivo que levou o pretenso candidato a salvador da pátria a comparar-se com ele. Mas, segundo tradição do Primeiro Testamento (Isaías 7,14; Mateus 1,23), o nome do filho de Maria não é “Deus sobre todos”, mas Emanuel, que quer dizer DEUS CONOSCO.
O que mais posso dizer? Veja as propostas de Haddad. Em que momento o seu partido fala contra os pobres? Pelo contrário, quem viveu a realidade da década de 90 (século passado) sabe como vivia o povo nordestino e como é sua realidade hoje. Não sabe quais são as suas propostas? Que tal ler o seu programa? Ler e comparar com o programa de seu adversário. A maioria dos debates é vazio justamente por falta dessa leitura.
Mas vá lá que você não queira ler. Então tenha um pouquinho de discernimento, pelo menos. Não vivemos o melhor dos mundos. Houve muita corrupção no PT? Sim, e os culpados estão pagando. Talvez não todos... Mas nem de longe é o partido com mais envolvidos em corrupção. Além disso, há provas contra Aécio, Temer, Jucá e tantos outros, que não são petistas e estão livres. Bolsonaro, que viveu 11 anos no PP de Maluf, confessou ter recebido propina da JBS e “esquentado” o dinheiro numa transação com o partido. Além disso, ele sempre disse que era Eduardo Cunha...
Amanhã é um dia especial. Dia de votar consciente, e não por paixões tolas. O próprio criador do termo “petralha”, o jornalista Reinaldo Azevedo, vai votar no Haddad. Segundo ele, é a única esperança de manutenção da democracia. Fora isso, a lista de intelectuais (nacionais e estrangeiros) e celebridades que apoia e/ou votará no 13 é extensa: Noam Chomsky, Adolfo Esquivel, Letícia Sabatella, Ivone Gebara, Lília Schwarcz, Marilena Chauí, Arnaldo Antunes, Augusto de Campos, Maria Rita Kehl, Márcia Tiburi, Leonardo Boff, Frei Betto, Chico Buarque, Gilberto Gil, Joaquim Barbosa, Walter Salles, Milton Hatoum... Do outro lado: Alexandre Frota, Lobão e... Já entenderam, né!? Pense... Encerro esta reflexão com uma frase do ator Pedro Cardoso: “Vou votar no PT para, no dia seguinte, poder fazer oposição ao PT [...] porque o fascismo não tolera opositores.”

Obs.: Prometi a mim mesmo que deixaria passar as eleições para reativar este blog, mas não deu pra aguentar. Sei que minha opinião, a essa altura do campeonato, não ajudará mais em nada, não vira o jogo. Mas “não podemos calar o que vimos e ouvimos” (At 4,20). Não enquanto ainda podemos! Dias virão em que, “calada a boca, restará o peito”. Vamos agir agora para não chegar ao ponto em que, “calado o peito, reste a cuca...”


quinta-feira, 14 de setembro de 2017

TESSALÔNICA, A REFORMA E A ALA DOS ORFANADOS

A primeira carta aos tessalonicenses bem se podia chamar o manifesto de carinho da grande família. A mesma comunidade missionária (Paulo, Silvano e Timóteo) que chama seus destinatários de irmãos logo no começo (1Ts 1,4), coloca-se como mãe (v. 7b) e pai (v. 11) deles no capítulo 2. Como autênticas filhas e filhos, é aquela gente chamada de “nossa glória e nossa alegria” (1Ts 2,20). Quem os “elegeu” como família foi um Deus que é Pai (1Ts 1,1.3; 3,11.13), tornando-os irmãos e irmãs em seu Filho, Jesus (1Ts 1,10).
Essa linda história lembra um filme, Francesco, em que o santo de Assis apresentava a cada novo membro da ordem seus novos irmãos, irmãs, pais, mães, filhos e filhas, aos quais o noviço deveria se recomendar e cuidar como a uma família. Por outro lado, lembra também um lar para crianças, muito comum nas guerras, mas também presente em nossos dias: o orfanato. Aqueles jovens e crianças não têm mais ninguém na terra, a não ser uns aos outros. Ele próprio, Francisco, tornou-se órfão de pai vivo quando renunciou a tudo, inclusive às vestes do próprio corpo. Quem o seguia também era um orfanado (ou depois, com as clarissas, orfanada), renunciando a tudo para abraçar sua nova parentela.
Mas o que histórias tão tristes têm a ver com o manifesto de amor aos tessalonicenses? Curioso, primeiramente, notar que, em 1Ts 2,17, a comunidade paulina diz assim: “Ora, nós, irmãos, orfanados por breve tempo de vossa presença…” Algumas traduções podem trazer “separados”, “privados”, mas o termo grego é aporphanizu, “tornado órfão”. O sentimento, portanto, é de separação brusca do seio familiar. Em Lc 12,51-53, Jesus diz assim: “Pensais que vim estabelecer paz na terra? Não, eu vos digo; antes, divisão. Porque, daqui em diante, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois, e dois contra três. Estarão divididos: pai contra filho, filho contra pai; mãe contra filha, filha contra mãe; sogra contra nora, e nora contra sogra.” E adiante, em Lc 14,26: “Se alguém vem a mim e não odeia a seu pai, mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.” Palavras difíceis, que pouco parecem combinar com a imagem de um Deus afável que os evangelhos tentam transmitir. Ou estamos diante de um Jesus em seu dia de fúria, ou – o mais provável – isso era o que estava acontecendo nas comunidades.
O evangelho de Lucas é escrito por volta de 85 a 90 d.C., praticamente 40 anos depois da carta comunitária aos tessalonicenses. O texto tem paralelo somente no Evangelho de Mateus (10,34-37). O que eles têm em comum? São escritos praticamente na mesma época e na diáspora, isto é, em cidades do mundo greco-romano, fora de Israel. O templo e a cidade sagrada, Jerusalém, já tinham sido destruídos há quase vinte anos. Os cristãos e cristãs, considerados os verdadeiros culpados pela catástrofe, foram expulsos das sinagogas. Seus parentes “não-convertidos”, porém, continuavam frequentando as comunidades judaicas. Quem tem um tio ou uma prima neo-convertidos em casa deve saber como ficam os ânimos nestes casos. Só que lá a situação foi potencializada, devido ao desfecho trágico dos acontecimentos.
A destruição de Jerusalém, entretanto, não explica, por si só, essas animosidades. Ainda que os evangelhos fossem já uma releitura das palavras e gestos de Jesus (imagine-se contando uma história vivida por sua avó, antes mesmo de sua mãe ou seu pai terem nascido), é possível que, já em vida, Ele e sua comunidade (seguidoras e seguidores) tenham sido perseguidos por familiares consanguíneos. Como explicar, por exemplo, que o Cristo tenha evitado seus parentes quando soube que estes o procuravam? “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21). Podemos aceitar que isso não tenha acontecido de verdade, que, embora o texto se encontre também em Mateus (12,49-50) e Marcos (3,34-35), trata-se de mais uma fábula para tranquilizar a quem, por aderir à “Seita do Nazareno”, se indispôs com a própria mãe. Mas, e a carta aos tessalonicenses, escrita por volta do ano 50 da E.C. (Era Comum)?
Mais fácil sabermos o que aconteceu da virada do milênio para cá do que nos porões da ditadura, não é verdade!? E não é só pela facilidade de informações que temos hoje. Feridas de 20 anos ainda estão recentes e são mais facilmente identificáveis que as de 60 anos. Nesse sentido, o afastamento de Paulo e seus companheiros de um ambiente que transbordava amor é o melhor comprovante de que esse rompimento histórico se deu já nas origens. A carta, escrita 20 anos antes da destruição do templo, conta como, naquela época, já havia grupos judaizantes que perseguiam os cristãos: “[os judeus] não somente mataram o Senhor Jesus e os profetas, como também nos perseguiram, e não agradam a Deus, e são adversários de toda gente, a ponto de nos impedirem de falar aos gentios…” (1Ts 2,15-16). Tal relato atesta, inclusive, os acontecimentos da segunda viagem paulina narrados em At 16-18.
Discute-se o tom antissemítico da carta. Parece que seria uma glosa, por destoar de outros textos paulinos. Não nos esqueçamos, porém, que ela foi escrita no calor do momento. Paulo e sua equipe acabavam de ser expulsos, consecutivamente e pelo mesmo grupo, de Tessalônica (At 17,10) e Bereia (At 17,13). Nesta, a bem da verdade, foram encontrados judeus (e mulheres – v. 12) mais nobres, assim como em Corinto (At 18,1-2 – os missionários são acolhidos por um casal judeu). Mas a raiva com os de Tessalônica devia ser tão grande que Paulo os chamou de Satanás (1Ts 2,18) e Tentador (1Ts 3,5).
Perfeitamente compreensível. Ainda hoje, após 500 anos da revolução causada pelas 59 teses de Martinho Lutero, os luteranos continuam sendo chamados, por alguns grupos até bem intencionados (tanto quanto eram os judeus tessalonicenses), de separados. O próprio termo “protestante” coloca-os em contraposição a uma religião “oficial”. Felizmente, a visita do papa Francisco à Suécia, ano passado, já é sinal de que os ventos estão mudando. Pela primeira vez, em tom de respeito e diálogo, prepara-se uma celebração conjunta por um dos centenários – o quinto, no caso – da Reforma. Lá o papa disse que a culpa da divisão entre luteranos e católicos é dos poderosos, que essa não é a vontade do povo fiel[1]. Na Igreja Luterana de Roma, este ano, foi mais específico[2]: “Por detrás dos muros humanos existe uma fantasia: [...] se tornar como Deus! Para mim, [...] a narração da Torre de Babel, é precisamente a atitude do homem e da mulher que levantam muros, porque erguer um muro é dizer: ‘Nós somos os poderosos; vós, fora!’. [Nisto] estão a soberba do poder e a atitude proposta nas primeiras páginas do Gênesis: ‘Sereis como Deus’ (cf. Gn 3, 5). Erigem-se muros para excluir; caminha-se neste rumo.” A comunidade católica mais nobre acolhe e vibra com essa boa nova. Já o grupo de Satanás (literalmente, “adversário, opositor”)...
Os pobres, de fato, parecem não se importar muito com essas divisões. A considerar o que diz 1Ts 4,11 sobre o povo trabalhar com as próprias mãos, podemos dizer que se tratava de uma comunidade de gente simples. Como simples foi o motivo que levou a equipe missionária a escrever a carta. Por intermédio de Timóteo, aquela comunidade humilde manifestou uma preocupação bem existencial: quando e como se dará a Parusia? Isto é, o que vai acontecer com nossos mortos quando o Messias voltar? E aqueles que nem conheceram a mensagem do Evangelho? Terão lugar garantido na nova Terra? E quem não se converteu? Vou voltar a ver minha avozinha? Aliás, quando Ele vai voltar? Já faz 20 anos que se foi... Cadê? A resposta mostra como o texto é antigo, talvez o mais antigo do Segundo Testamento. Aqui temos um Paulo que ainda acredita numa volta mágica e majestosa de Jesus. Ele diz algo do tipo: aguentem mais um pouquinho! Ele já deve estar chegando! Quando chegar, chamará os mortos primeiro! Mas depois seremos nós... Bem diferente da visão de Atos 1,9-11 – “Ele já voltou!” – e de 1Cor 11 – “Isto é o meu corpo... Isto é o meu sangue... Fazei isto em memória de mim!”
Mas o importante, apesar da visão ingênua em 1Ts, é o que Paulo diz a seguir (5,12): “Agora vos rogamos, irmãos, que tenhais apreço por aqueles que se afadigam no meio de vós.” Muito bonito estar preocupado com a vó, que já se foi. Mas lutemos, agora, pelas pessoas que ainda vivem, oprimidas por um sistema injusto que nos divide, independente de sermos católicos, espíritas, candomblecistas, xamanistas, budistas ou ateus, em exploradores e explorados. A denúncia do papa Francisco se estende a todas as divisões, ou melhor, às desigualdades, que são causadas sempre pela mesma elite, em todos os campos da sociedade (dos quais o religioso é só mais um), motivada pela sede de poder. Desmascaremos esse modelo econômico, político e social e celebremos, a exemplo do que agora fazem católicos e luteranos, a oikoumene, isto é, a casa comum, casa de todas e de todos, independente de credo, cor, sexo, idade, localização geográfica. Amém, Axé, Awere, Aleluia!




[1] Cf. https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2016/documents/papa-francesco_20161031_omelia-svezia-lund.html. Acesso em: 14/09/2017.
[2] Disponível em: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/november/documents/papa-francesco_20151115_chiesa-evangelica-luterana.html. Acesso em: 14/09/2017.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

AS LIÇÕES DE UM FORASTEIRO E DE D. IRMA

Foi no caminho que ele nos encontrou. Éramos umas trinta e poucas pessoas – homens e mulheres – seguindo viagem, tristes, cansados e com medo. Descíamos de Jerusalém para Emaús, enquanto ele vinha subindo, subindo...
Vendo-nos passar (a)batidos, ele perguntou: “Por que vocês caminham com esse olhar perdido no horizonte?” – Nada de especial; só a neblina. Estamos indo participar de uma escola bíblica. Quer vir conosco, forasteiro? – “Vão indo, que eu já alcanço vocês!” E ele continuou subindo, subindo...
Juntamo-nos ao som do violão e ao calor do chimarrão. Começamos a conversa falando sobre migrantes. Na hora, não nos lembramos do forasteiro. Nem depois, quando o assessor abriu a Bíblia e leu o início do livro que narra os Atos de alguns Apóstolos: “Depois de reunir os Onze, Jesus anunciou a vinda do Espírito Santo, que os tornaria testemunhas do Reino, espalhando a Boa Nova, desde Jerusalém até os extremos da terra. Dito isso, ele foi subindo, subindo...”
Os Apóstolos ficaram olhando para o céu. Nós também estávamos olhando para o céu. Para onde mais devemos conduzir o nosso olhar num curso bíblico? Jesus prometeu que ia voltar. Os Apóstolos ficaram lá esperando. Nós estamos esperando até hoje. Quanta injustiça, quanta roubalheira nesse Congresso, quanta gente necessitada... Quando Jesus voltará? E ele ia subindo, subindo...
Antes mesmo de começar o curso, alguém relatava: viemos do acampamento dos sem-terra, lá nas terras da União. Eles têm ordem de desocupar o local dentro de dez dias. O juiz alega que aquela área é de mata nativa, mas “diz-que” na região só tem pinus. Um lamento daqui, uma palavra de indignação dali, e ele ia subindo, subindo...
Falamos, então, do nascimento de Jesus. Comparamos os anúncios feitos a Maria e a Zacarias. Este, levita. Aquela, embora prometida a um homem (José), ainda solteira. O primeiro em Jerusalém, servindo no Templo. Ela em Nazaré da Galileia, entretida com a lida da casa. Ambos recebem a visita do anjo Gabriel e duvidam da mensagem. Um fica mudo, a outra recebe uma palavra que a acalma. É que o Templo, quando o Evangelho de Lucas foi escrito, já estava destruído. Por isso, não tinha mais o que falar. Maria, por outro lado, estava em casa, num vilarejo nos cafundós da Galileia. Poderia vir algo bom de lá? (Jo 1,46) Porém, é no ventre de uma mulher extremamente pobre (como a maioria em Nazaré) que Jesus se encarna e instaura um novo espaço de culto a Deus: a casa. Conforme ouvíamos essas coisas, uns se empolgavam, outras nem tanto. E ele? Continuava subindo, subindo...
“E aconteceu que, quando estavam à mesa, tomando ele o pão, abençoou-o e, tendo-o partido, deu a eles; então, se lhes abriram os olhos, e o reconheceram.” (Lc 24,30-31b) Estávamos terminando de ler o texto de Emaús quando dois homens de branco bateram à porta: “Por que vocês estão olhando pra cima?” – É que vimos Jesus subindo, subindo... – “Mas vocês estão olhando para o lado errado. Venham conosco!” – De repente, eis que estávamos no acampamento. Olhamos para o lado e vimos o forasteiro. Com ele estavam vários estrangeiros, isto é, gente que falava todas as línguas possíveis e imagináveis. Ele nos viu e sorriu. Apontou para uma mulher, D. Irma. Ela estava falando: “Minh’alma glorifica o Senhor porque olhou para nós, os pequenos. Ele eleva os humildes e despacha os ricos de mãos vazias. Mas, para isso, é preciso olhar para Moisés e Elias. Um lembra o Êxodo e a sua Teologia da Libertação. Ele conduziu seu povo para a reforma agrária. O outro é um profeta e, por isso, ensina a Teologia da Resistência. Ocupar e resistir é nossa maneira de lutar, de fazer o governo perceber nossa existência, é o modo como denunciamos a injustiça de um sistema onde uns poucos têm muita terra enquanto muitos não têm nenhuma”. A língua dessa mulher parecia de fogo. Ela falava lá do jeito dela, mas todo mundo entendia. Nossos corações ardiam. Então percebemos quem era o forasteiro, mas ele havia sumido. Naquele momento, os forasteiros éramos nós.
Ao voltarmos, encontramos novamente o forasteiro. Ele disse-nos: “Fui eu quem enviei aqueles homens. Eles levaram vocês a Betânia, que significa Casa dos Pobres. Foi lá que eu nasci. Foi de lá que eu vim parar em Jerusalém. Eu os levei até Betânia para que a transformem em Belém, Bet Lehem, Casa do Pão, uma grande casa comum, onde toda a criação terá o suficiente para viver. Mas atenção! Aprendam da experiência do maná do deserto e do casal Ananias e Safira nas primeiras comunidades que o acúmulo e a ganância criam somente vermes e podridão, isto é, um sistema de morte. Divulguem por aí que a Boa Nova é a partilha. Não ignorem as coisas antigas, mas deem a elas um novo significado, centrado no amor e na justiça. Sem essa novidade, o antigo ficará mudo como Zacarias e estéril como Isabel.”

Ele disse, ainda, outras coisas. Falou com cada um e cada uma em particular. Quando decidimos pular o muro do nosso medo e da incerteza e saltar para o infinito desconhecido, ele sumiu de novo diante dos nossos olhos. Mas, de repente, já não estávamos sós...