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terça-feira, 9 de junho de 2020

COMO CRIAR UMA JUVENTUDE FASCISTA

Semaninha puxada e decisiva para as minhas pretensões de doutorado. A pandemia e a implementação do novo currículo nas escolas do RS estão pondo meu projeto em cheque. Então é hora de requentar um artigo que publiquei para o PTP (Por trás da Palavra - revista do CEBI). O texto é de antes das eleições de 2018. Será que mudou alguma coisa, desde então?

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COMO CRIAR UMA JUVENTUDE FASCISTA

A mesma geração que, não faz muito tempo, reclamava “dessa juventude que não quer nada com nada”, teme agora ser decisiva, netas eleições, a adesão de tantas pessoas jovens ao projeto político de um líder autoritário que flerta abertamente com o fascismo. Ora, o mais curioso é que não se espantem com sua própria contradição: como podem temer a influência de uma parcela do povo tão desinteressada nos rumos da nação?

Pode-se objetar: é justamente por serem apáticos que foram facilmente cooptados. A verdade, porém, é que são inúmeros os grupos juvenis organizados, do Levante Popular ao MBL, passando pelas mais diferentes expressões sociais (político-partidárias, religiosas, estudantis, esportivas, outras agremiações, etc.), tanto à esquerda quanto à direita. Podem não representar a maioria do eleitorado jovem, mas servem como exemplo definitivo de que não estamos diante de uma geração indiferente ao que acontece ao seu redor.

Mas é possível ver alguém que ainda insiste: a maioria dos jovens está alienada, não participa de nada e, por isso, é facilmente manipulada. Justiça seja feita, primeiro: o número de pessoas pertencentes à massa desorganizada é predominante na população em geral; segundo: as pesquisas eleitorais indicam que esta é a faixa etária onde se encontra o menor percentual de eleitoras e eleitores do candidato do PSL. Admitindo, porém, que o percentual entre jovens seja alto, a pergunta, diante desse quadro, deveria ser: Por que são os discursos de intolerância e ódio – e não os de paz e amor – que soam como o canto da sereia em ouvidos tão incautos?

Sem pretender dar conta do problema em sua totalidade – até porque o objetivo desta reflexão é priorizar o recorte juvenil –, talvez um olhar para o passado nos traga algumas respostas. O jornalista inglês Jon Savage escreveu um livro cujo título em português é A Criação da Juventude (2009). No capítulo 18, dedicado à juventude hitleriana, podemos ler o depoimento de uma mulher alemã, Melita Maschmann, que com 15 anos de idade presenciou (em 30 de janeiro de 1933) o desfile de indicação de Adolf Hitler para chanceler do Reich. Ela começa nos situando sobre sua realidade de adolescente: “Naquela idade, a gente vê uma vida de deveres escolares, passeios com a família e convites para aniversários deploravelmente vazia de significado. Não se dá crédito a ninguém por estar interessado em mais do que essas ridículas trivialidades. Ninguém diz: ‘você é necessário para algo mais importante, venha!’ Quando se trata de assuntos sérios, a gente nem conta.” Constato, como professor de rede pública, que essa é também a realidade de nossos estudantes.

Continuando, ela afirma: “Mas os meninos e meninas das colunas em marcha contavam. Como os adultos, eles carregavam estandartes onde estavam escritos os nomes dos seus mortos.” Os jovens cantavam: “Pela bandeira estávamos prontos para morrer”. Segundo Melita: “Não era uma questão de roupas, alimento ou redações escolares, mas de vida e morte”. De acordo com Savage: “O ingresso na Juventude Hitlerista dava aos adolescentes sem objetivo da Alemanha um propósito na vida e poder contra seus pais, que estavam, provavelmente, identificados com a desprezada República de Weimar.” (p. 279). Falta de objetivos (não querem nada com nada?) e conflito geracional, combustíveis para a manipulação das massas, recurso que o Führer soube utilizar habilmente – e Savage, ao demonstrar isso, foi muito feliz, indo ao cerne do problema: “Como os fascisti de Mussolini, os nazistas subiram ao poder evocando uma abstração de juventude como um agente vivo de mudança e realmente mobilizando os jovens por meio da mística do conflito, ação e pertencimento.” (p. 279 – os grifos são meus)

O discurso de Hitler, em janeiro de 1933, foi realmente incendiário: “Estou começando com os jovens. Nós que somos mais velhos estamos desgastados. Estamos apodrecidos até a medula. Não nos resta nenhum instinto incontrolável. Somos covardes e sentimentais. Estamos carregando o peso de um passado humilhante e temos no nosso sangue o melancólico reflexo da servidão e da subserviência. Mas os meus magníficos jovens! Existem melhores em algum outro lugar do mundo? Vejam estes rapazes e meninos! Que material! Com eles eu posso construir um novo mundo.” Impressionante a semelhança com as falas do candidato militarista brasileiro: vergonha do passado, história de escravidão e subserviência, hora da virada...

Lendo tudo isso, não consigo deixar de pensar no povo aclamando Davi porque este matara dez mil, enquanto o rei Saul, somente mil (1 Sm 18,7). E o que aquele fez, depois de coroado? Tornou-se um tirano, capaz de eliminar até mesmo seus aliados. Por exemplo, não contente com suas sete esposas, mandou matar (em nome da família tradicional?) o general Urias para ficar com sua mulher, Betsabeia, futura mãe de Salomão. Mesmo demonstrando a crueldade dessa ação real, a Bíblia foi favorável ao filho de Jessé, demonstrando como o povo o amava e o quanto era querido por Deus, que prometeu gerar o Messias de sua linhagem.

Davi, Hitler e Bolsonaro cativaram seus súditos com um discurso enérgico, patriótico, triunfalista e – pasmem! – inclusivo. Embora não dessem aos seguidores o direito de pensar, seduziram-nos dizendo-lhes o que queriam ouvir. Ora, sabemos que isso é alienação. Mas existe um modo de falar ao coração das pessoas sem manipulá-las. Quando Moisés foi chamado por Javé, este deixou bem claro que o enviava para atender ao clamor do povo (Ex 3,1-10). Deus foi enfático: “eu ouvi o seu clamor!” (v. 7b). Como propor aos jovens um mundo de paz e vida em plenitude? Que tal se, em vez de dizer-lhes o que devem querer, começássemos por ouvir os seus clamores? Muitos são os motivos para aderirem ao discurso de ódio, mas o principal deles é não se sentirem incluídos em nossos projetos de um mundo melhor.

 

REFERÊNCIAS

SAVAGE, Jon: Os Soldados de uma Ideia: A Juventude Hitleriana. In: ______: A Criação da Juventude: como o conceito de teenage revolucionou o século XX. Tradução: Talita M. Rodrigues. Rio de Janeiro: Rocco, 2009. p. 277-298.

Bíblia de Jerusalém: nova edição, revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002.

 

SÍTIOS

https://noticias.uol.com.br/politica/eleicoes/2018/noticias/2018/09/15/rejeicao-a-bolsonaro-chega-a-56-entre-os-jovens-aponta-datafolha.htm. Acesso em: 24/10/2018.

http://datafolha.folha.uol.com.br/eleicoes/2018/10/1983182-com-58-bolsonaro-larga-com-vantagem-de-16-pontos-no-2-turno.shtml. Acesso em: 24/10/2018.


sábado, 30 de maio de 2020

Uma Educação gaúcha (e brasileira) pra chamar de sua

Olá! Hoje quero falar com todas aquelas e aqueles que se preocupam com a Educação no Brasil.

Caso não saibam, em plena pandemia, o governo do Rio Grande do Sul decidiu encontrar uma base curricular para chamar de sua. Problema nenhum, se ela não fosse implementada goela abaixo, sem diálogo com o corpo docente gaúcho.

Antes que alguém questione, o que recebemos foram questionários e cursos, em que nos obrigaram a responder formulários com a nossa opinião. Sim, obrigadxs! No caso do curso, não responder resultaria em falta não justificada durante, pelo menos, todo o mês de junho.

Pois bem! Durante esse período, tivemos que criar planos de aula a toque de caixa para todos os anos do ensino básico e postá-los na plataforma governamental. Menos de um mês depois, (vejam, que rapidez!), mais especificamente na live da última quarta-feira (vide aqui), o governador veio a público dizer que dia 1º de julho o novo Ensino Médio será implementado em toda a rede e quem assumirá o planejamento curricular será a Fundação Lemann.

Conhecem? Quem já lida com a educação, certamente! Mas gostaria de apresentá-la melhor, pois a tendência é que ela assuma a educação em todo o país. Há pouco mais de um ano, saiu uma reportagem no site de notícias da Uol (vide aqui). Separei alguns trechos (mais especificamente, os testemunhos) da reportagem para que tenham uma ideia do alcance da proposta dessa entidade.

"A cabeça de Jorge Paulo Lemann é voltada para as pessoas. Saber onde estão as pessoas boas do Brasil e dar um empurrão a elas", diz o deputado estadual Daniel José (Novo-SP)

"A gente sempre esbarrava em quem segurava a caneta. A gente sentava, conversava com secretários, ministros da Educação, mas quem segurava a caneta, ou por motivações esdrúxulas ou por interesses escusos, ou por realmente não ter vontade de fazer acontecer, as coisas às vezes não andavam da forma como a gente queria. E aí começou a surgir esse questionamento, por que a gente não segura essa caneta?" - Renan Ferreirinha (PSB-RJ)

E a "menina-dos-olhos" da Fundação:
"Boa parte das críticas diz que eu fui financiada na faculdade pela pelo (sic) Lemann, mas são críticas muito rasas, independente de que lado elas vem (sic). A minha bolsa na faculdade foi 100% por Harvard. Eles tiveram uma visão de buscar alunos não só que chegaram mais longe, mas que tinham corrido mais, o que eu acho que é uma visão muito mais inteligente, do que a do nosso vestibular" - Tabata Amaral (PDT-SP)

Dito isto, a escolha da Fundação como entidade pensante da grade curricular gaúcha (e brasileira) não preocupa só pelo que acontecerá com a educação, que buscará as "pessoas boas" (perceberam que todos os citados e as citadas na matéria pertencem de alguma forma à elite branca do país? o que se fará com o "resto"? estoque de mão de obra? pensante ou escrava?), mas pelo projeto de poder que a Fundação Lemann está emplacando no Brasil. Com o desastre do governo Bolsonaro, é certo que veremos, num futuro próximo (quase presente), muitas pessoas pedindo para que essas cabeças "renovadas" nos salvem.

Pois bem! E o que eu quero com essa provocação? Ela serve, no mínimo, para pensarmos o que podemos fazer em relação à juventude, pois - pelo menos, aqui no Rio Grande do Sul - teremos que lidar imediatamente com os estragos causados por esse tipo de formação. Será que o debate hoje se limita ao adiamento ou cancelamento do Enem? O ensino básico deve se resumir a uma preparação e seleção para o mercado de trabalho e a tão almejada carreira universitária? E no pior dos cenários: o que faremos se a ideologia de Leemann e companhia chegarem ao poder? São perguntas, provocações - como eu disse. O que fazer, com quem, quando, como, onde? Perguntas são feitas para ser respondidas. Quem começa a roda?

domingo, 24 de maio de 2020

AO SENHOR DEUS DOS CPFS (por um mundo sem palavrões?)


Então... Estou devendo a terceira parte da série sobre a formação do povo brasileiro (a reflexão por escrito; o vídeo já foi postado). Tentarei postar ao longo desta semana. Mas tanta coisa aconteceu nos últimos dias... E eu, como pretenso escritor, senti necessidade de escrever a crônica a seguir. É a mesma que foi postada no youtube. Boa leitura, e que Deus nos livre (da legião) do mal, amém!



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Oh, Senhor Deus dos CPFs... Perdão, Senhor! Falhei uma semana!
Sim, Senhor! Eu não posto nada faz 15 dias!
Sim, eu sei, Senhor! Assunto não falta! Esse é o problema!
Eu explico... Eu ia falar do “e daí?”
Eu sei que é notícia velha! Mas é que eu tava falando de outras coisas antes, sabe?
É, teve uma galera de ex-ministro na jogada, teve gente pedindo intervenção militar...
Senhor, pega leve! Estamos no meio de uma pandemia, poxa!
Que que eu tava falando... Ah, sim! Então! O... Coiso lá... falou: “e daí?”
Pois é! Depois falaram em cancelar CPF, CNPJ morrendo...
E eu ia falar sobre as bobagens do cara lá, né!?
Então... Veio o barbudinho... Como assim: “qual barbudinho?”
O meu ídalo, ora essa! E ele disse “ainda bem”...
Bah, Senhor, que difícil desdobrar...
Aí lembraram das “feministas do grelo duro”; “Pelotas, exportadora de viado”...
Oi? Como assim: “olha o palavreado”?
Olha, Senhor, não é por nada, com todo respeito...
Mas tu viu o vídeo que saiu essa semana?
Ah, o senhor, não vê vídeo... O senhor é da moda antiga...
Mas o teu enviado falou tanto, tanto palavrão, que eu achei que tava liberado!
Ah... Faz tempo que o Senhor não envia ninguém...
Bom, então tá... Que que eu tô fazendo aqui...
Ah, sim! Eu tava pedindo perdão!
É que é tanto assunto que eu não sei sobre o que falar, sabe...
Teve aquela história da tubaína! Aí falaram em tortura militar...
Depois mandaram parar de divulgar que era boato.
Aí falaram: não, mas é trocadilho com as pessoas entubadas...
Ai, Senhor, se for isso mesmo, é muita maldade!
Mas mesmo se não for... Sabe que tubaína é considerada bebida de pobre, né!?
Quer dizer... Lá pra SP. Aqui no sul é pepão! Pepão, Senhor! Pe... Pão! Pepsi...
Seja como for, puta piadinha de mau gosto, né!?
Ah... Desculpa! Foi mal... Palavrão de novo, né... Como o Senhor é sensível...
Não, não, eu entendo! É um palavreado machista mesmo!
Sabe que outro dia o... o... aquele um que corre por fora, sabe!?
Ele falou que o ex-juiz era muito ingênuo.
Que levou 1 ano e meio pra perceber que tava no meio de pu... de prostitutas...
Eu acho que ele leva muito em conta o jeito do Coiso falar...
É... Tipo: “ele me traiu”; “suspeito que não tivesse o mesmo sentimento por mim”; “foi um divórcio consensual”; “reatamos o namoro”; “querem minha hemorroida”; “vão fudê minha família”...
Ai, Senhor, desculpa! Mas é que todo mundo fala palavrão...
Ah, não é isso! É pra parar de fazer fofoca...
Sim, sim! Tem coisa muito mais grave acontecendo. Certamente!
Ministro querendo legalizar o fim da Amazônia? Vi, vi...
O outro querendo exterminar povos originários? O senhor tem razão...
E aquele um que mandou salvar as grandes empresas e deixar os microempresários e o povo pobre que se lasque?
É, isso também foi mal...
Povo mais pobre não tem nem como cuidar da própria higiene...
É, senhor! Mas é que esses caras... Sim, eu sei! Mas é isso que eu tô falando!
Sim, eles são os culpados! Eu também? Por quê?
Porque eu fico pedindo comida pelo ifood?
Mas eu fico tão entediado...
É, eu sei que esse povo na rua tá em risco...
O Estado deveria cumprir seu dever... Entendi...
Saneamento básico também? Tá...
Tratamento justo, igualdade social...
Mas eu já cobro isso! É, aqui na internet... Não dá pra sair de casa agora...
É, ano passado dava! O Senhor tem razão...
Se eu já participei de algum grupo organizado?
Deus me livre! Quer dizer, o senhor me livre! Quer que eu pegue em armas também?
Ah, tá! Entendi... Grupos de resistência pela cultura, pela arte, pela educação, pela ação social...
Entendi, entendi... Igreja não, né!?
Ah, tem grupo de igreja se mobilizando também...
Mas não é isso que eu vejo! É só povo fazendo gestinho nazista e, aí, quando tu vai ver, eles dizem que tão orando pro presidento.
Tá! É só procurar que tem! Entendi... Só isso, senhor?
Mobilizar o povo pra tirar o Coiso de lá? Mas só ele não resolve!
Ah, os outros também... Mas sem golpe, né!? É, entendi... Voto consciente, tá...
Mas senhor... Esperar até 2022... Vai dar merda! A merda já vem desde 2013, é...
Opa, o senhor falou “merda”! Falou, sim! Eu escutei! Tá... Não falou... Então tá, senhor!
Semana que vem eu posto alguma coisa legal então! Falou?
Tchau, Senhor! Quer dizer... Amém! Assim seja! Awerê! Aleluia! Axé! Saravá...

sábado, 9 de maio de 2020

A LIÇÃO DE ESDRAS E NEEMIAS: COMO SE CRIA UM NÃO-POVO

Dando continuidade ao debate do texto anterior, segue o texto que é paralelo ao segundo vídeo produzido por mim, visando a uma série sobre a formação do povo brasileiro. Boa leitura!!!

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Quando a secretária da cultura (novamente as minúsculas), cujo ingresso no governo se deu para substituir um homem que alegou ter reproduzido “sem querer” os efeitos estéticos de uma propaganda nazista, vai a público ridicularizar a dor das famílias dos mortos pela ditadura, fica evidente que este não é um governo para todos e todas. E se essa ex-atriz decide não dizer uma palavra pelas mortes de artistas da envergadura de Flávio Migliaccio, Aldir Blanc, Moraes Moreira e Rubem Fonseca – “coincidentemente” considerados persona non grata no período da ditadura militar – quando seu “chefe supremo” dedica os pêsames a Mr. Reaça e se solidariza com Gusttavo Lima por ser notificado após embriagar-se fazendo propaganda de cerveja em sua live – ambos apoiadores do mito –, não resta mais dúvida de que estamos diante de um governo egoico e – dada sua devoção a regimes militares – facínora.

Agora some a isso os discursos eleitorais (e de antes, muito antes ainda) do presidento: “É preciso matar uns 30 mil”; “vai morrer inocente? Azar...”; “vamos metralhar a petralhada”; “não te estupro porque você não merece”; “filho começa a ficar assim meio gayzinho, leva um coro, ele muda o comportamento”; “quilombola não serve nem pra procriar”; “cada vez mais o índio é um ser humano igual a nós”; etc. Diante disso, a primeira pergunta talvez fosse: quem é digno de fazer parte de um grupinho tão seleto? Mas a esta tentei responder no texto anterior. Parece-me óbvio que quem não consta lá compõe o restante do povo brasileiro. Então a pergunta que devemos fazer agora é: como o governo lida com esse “resto”?

Diretamente, parece que tudo não passa de bravata. Uma bravata cruel, do tipo que reverencia um torturador como Brilhante Ustra. Mas indiretamente as consequências são terríveis. Camponeses, mulheres, pessoas trans, índios, quilombolas... Os números de violência e assassinatos dispararam de 2019 para cá. Como entoou Clara Nunes: “O povo desta terra, quando pode cantar, canta de dor”. E haja subnotificação e sonegação de informações. Não fosse o CIMI e o COMIN, a CPT, o Atlas da Violência (em que pese o IPEA ser um órgão governamental) e outras entidades, não teríamos como refutar a propaganda do governo, que se gaba de ter os melhores índices de segurança de todos os tempos. Óbvio: Assim como na ditadura, o que não tem registro não aconteceu.

Mas isso não é novidade! Que estamos sob o comando de um grupo genocida empenhado em defender apenas os próprios interesses, também não. E é justamente aí que reside o problema. Desde os tempos do Deus dos Exércitos, aquele que mandou Josué passar outros povos ao fio da espada, que “as minorias se adequam, ou simplesmente desaparecem”.

Quando Esdras e Neemias, cada um a seu tempo, tiveram a incumbência de reconstruir Judá, tomaram medidas um tanto quanto extremas. Os estrangeiros (não-judeus) deveriam deixar o reino – ou melhor: aquela pequena província que outrora fora um reino e agora pertencia a uma satrapia persa – imediatamente. Se fossem homens, deveriam levar a família toda, mesmo que suas mulheres fossem judias. Se mulheres, seguiriam com seus filhos para o exílio, mas o marido (judeu) poderia ficar. Por que ninguém achou isso absurdo na época? Ora, o povo simples deve ter achado. Mas os registros foram feitos por quem sabia ler e escrever, ou seja, a parte intelectual dos funcionários públicos de então – os escribas. Como convencê-los a fazer uma boa propaganda do governo? Prometendo a reconstrução do templo (destruído na época da invasão babilônica), talvez? Será que conseguimos identificar ações semelhantes em nossos dias?

A restauração do culto a Javé por meio da reconstrução do templo foi uma maneira de restabelecer o poder da elite judaica deportada durante o domínio dos babilônios. Naquele momento, o sequestro da corte do rei Joaquim (especialmente oficiais militares e casta sacerdotal) proporcionou uma oportunidade única aos pobres que permaneceram na terra, liderados pelo profeta Jeremias (Aldir Blanc?). Dali até o tempo de Neemias (a personagem, não o livro) foram 60 anos aproximadamente. Seguramente, quem foi para o exílio já não era mais vivo ao fim dele. As outrora ricas e extensas propriedades, abandonadas durante esse período, foram ocupadas naturalmente pelos remanescentes e por imigrantes que foram se achegando aos poucos. No Brasil não chegamos a ter uma reforma agrária. Mas programas como o Minha Casa, Minha Vida e o Bolsa Família, bem como as garantias de soberania dos territórios indígenas e quilombolas, foram oportunidades concretas de redistribuição (ou manutenção) de terra e de poder econômico. Regressando do cativeiro, os filhos dos exilados retomaram os privilégios de seus pais forjando um direito divino à herança e condenando ao exílio os “impuros” invasores de suas terras. Foi nesse instante que surgiu a noção de raça judaica pura. E com a bênção do rei estrangeiro. Os tiraninhos (Esdras e Neemias) tinham carta branca para reconstruir o templo, desde que não restaurassem a monarquia de Judá (não sonhassem com a independência) e rezassem diariamente no novo templo (através de Edir Macedo, Malafaia e seus outros sacerdotes?) pela saúde do tirano-mor (Trump?), o rei persa, ou melhor, o verdadeiro rei.

Se você acha um salto muito grande transpor o quarto século a.C. para o XXI d.C., então vamos pensar na formação do povo brasileiro. Proponho uma curta viagem pela literatura, já que é a especialidade da casa. No século XVIII, quando a Inconfidência Mineira começa a indicar o desejo de independência da coroa portuguesa, duas obras narrativas – O Uraguai (Basílio da Gama) e O Caramuru (Santa Rita Durão) apontam para os índios como bestas-feras, seres inferiores. Bem é verdade que o romantismo tenta alçá-los, com obras como Iracema e O Guarani (José de Alencar) à condição de heróis, mas totalmente descaracterizados (cristianizados e movidos por um espírito “civilizado” e civilizatório). Castro Alves denuncia, com seu Navio Negreiro, a prática ainda comum do tráfico humano, mas com vistas a derrubar a monarquia, de economia escravagista, para que então viesse a república. Que os negros não eram o real motivo da preocupação dos republicanos, sugere-o o silêncio sobre Úrsula, obra abolicionista da professora maranhense Maria Firmino. Aluízio Azevedo, Monteiro Lobato e Euclides da Cunha defendem que um dos maiores problemas sociais do Brasil não seria a desigualdade, mas a mistura de raças. Segundo eles, o Brasil não teria como dar certo porque a maioria da população era formada por mulatas sensuais e caboclos (os verdadeiros sertanejos) vadios e desprovidos de cérebro. Mesmo Mário de Andrade, progressista, ao representar o povo brasileiro nas cores de Macunaíma – que aliás era de todas as cores (preto, vermelho e branco) – define-o como o herói “sem nenhum caráter”, isto é, sem nenhuma característica.

Será impossível perceber que influência tem essa “herança” cultural sobre o modo como vemos nossos pobres hoje? Brecht diria:

“Quem é teu inimigo?
O que tem fome e te rouba o último pedaço de pão
chama-o teu inimigo.
Mas não salta ao pescoço
De teu ladrão que nunca teve fome.”

Será que forço a barra ao dizer que é mais fácil – e conveniente – convencer uma parcela privilegiada da população de que é vontade de Deus eliminar os “sujos” e maltrapilhos inimigos da nação e fazer prosperar aqueles que, apesar de toda sua iniquidade, garantem a prosperidade da economia mundial? E o mais importante: como desconstruir esse pensamento hegemônico e fazer surgir um novo céu, um novo tempo, uma terra sem males?

terça-feira, 5 de maio de 2020

MORO vs. BOLSONARO: QUEM É O POVO BRASILEIRO?

Ok, lá vamos nós de novo! Bloguear está meio fora de moda, mas gosto de escrever. Embora esteja tentando me adaptar aos novos tempos (youtube e quarentena), sinto que falta alguma coisa. Então vou tentar complementar meus vídeos com artigos publicados neste espaço e vice-versa.

Estou iniciando uma série sobre o povo brasileiro. Já lancei dois vídeos (mais descontraídos, pois confesso que o objetivo primeiro era chegar aos jovens de grupos de base). Este texto corresponde ao primeiro deles (confira aqui). Boa leitura!!!

Ah, e quem quiser contribuir com críticas (construtivas) e comentários, estes serão bem-vindos, pois o debate é sempre produtivo!

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Que a peleia entre Moro e Bolsonaro é uma disputa pelo poder, com vistas ao pleito de 2022, não restam dúvidas. Porém, o embate entre seus séquitos levanta uma questão: quem é, afinal de contas, o povo brasileiro? Ou melhor: quem merece ser considerado povo?

Durante as últimas manifestações em prol da intervenção militar – que o presidento (com minúscula mesmo) diz não ter convocado, mas às quais está sempre presente –, tem sido constantemente entoada uma espécie de bordão: “agora é o povo no poder”. A frase é típica de um líder populista. Entretanto, devemos entender bem o seu contexto. Allan dos Santos, youtuber com milhares de seguidores, promove um curso chamado O Povo no Poder. Acreditem: a semelhança não é mera coincidência. Esse ex-seminarista e moralista autoproclamado cristão é um potente porta-voz das ideias olavistas e contumaz defensor do clã Bolsonaro. Em um de seus recentes tweets (21/04/2020), escreveu:

“ATENÇÃO: criem aplicativos e localizem quem comemora e promove o comunismo. Assim que o STF decidir, poderemos caçar essas pessoas e:
- prendê-las;
- ‘linchá-las’ nas redes socias;
- publicar seus endereços etc.”

Some-se a isso ideias como: “Bastam um soldado e um cabo para fechar o STF”; “Tem que estudar como fazê-lo” (um novo AI-5); “Vamos metralhar a petezada do Acre”; “Brasil, ame-o ou deixe-o!” (também conhecido como: “Vai pra Cuba!”); e veremos, a qualquer momento, emergir o Monstro da Lagoa (como na metáfora de Chico Buarque).

A essas alturas já dá pra perceber que esse “povo” no poder não significa a totalidade do povo brasileiro, mas só um clubinho dos eleitos. E não pensem que, do lado morista, a situação seja diferente. A alcunha “vazajato” é proveniente de uma operação onde os fins justificam os meios, quais sejam, se for para aniquilar o inimigo. O próprio Moro admitiu ter quebrado uma ou duas regrinhas para garantir o bem “maior” (ou seria o bem para os “maiorais”?) da sociedade. Seu séquito, no fundo, tem um discurso idêntico ao do seu – agora – opositor. Tanto é que sua esposa afirmou, certa vez, ver o então ministro e o Coiso como “uma coisa só”. E a cena de confronto entre as duas facções – ambas vestindo verde e amarelo – no último domingo só confirma as semelhanças.

Mas então quem é esse povo? As falas mais recentes do Sr. Jair “resolvem” o mistério.

Depois de delimitar quem são seus ouvintes:
Tô na rampa, dentro da minha casa, a casa do povo”;

Ele declarou:
Peço a Deus que não tenhamos problema nesta semana”;

E disparou suas clássicas ameaças:
Chegamos ao limite. Não tem mais conversa. Daqui pra frente não só exigiremos, faremos cumprir a Constituição. Ela será cumprida a qualquer preço.”

A referência a Deus e o uso do “nós” são indicativos de que somente quem o segue fará parte do povo eleito, numa nova terra prometida. E que ela será implantada a qualquer preço, ou seja, “matando uns 30 mil...”

A bandeira de Israel nas manifestações “patrióticas” confirma a legitimidade da comparação com Moisés (embora o combativo governante prefira se igualar ao Messias, mesmo sem saber fazer milagres...). Dizer que “o que era velho ficou para trás” também é referência bíblica (farei um novo Céu e uma nova Terra). Só que, como é comum aos fundamentalistas, trata-se de uma leitura que mistura a linha teológica do Deus vingativo, Deus dos Exércitos, com a do ABBA (não confundir com o nome da banda sueca!), Deus-Pai, conforme as conveniências.

E por que, necessariamente, há uma relação entre o “povo” (morista ou bolsonarista) e a Bíblia? Porque a imagem de um povo que marcha contra tudo e contra todos, amparado unicamente por seu Deus, um ser ciumento e Todo-Poderoso, que ordena passar os infiéis pagãos ao fio da espada casa perfeitamente com ideologias autoritárias. É assim em praticamente todas as teocracias. Foi assim com os golpes militares que tomaram a América Latina, nas décadas de 60 e 70. E foi em nome de Deus que Hitler exterminou tantos judeus. Não é por acaso que, na Curitiba de nossos dias, uma socialite queira impor a quem está respeitando a quarentena que use uma fita vermelha no braço para ser identificado e não ter o direito à assistência médica, já que escolheu não “contribuir” (sic) durante este período. Essa ideia levou a Auschwitz e está intimamente ligada à mentalidade da raça pura, também presente na Bíblia.

O discurso de Moro, se é mais contido, não deixa de ter os mesmos elementos. Por exemplo, ao rebater as críticas de Rodrigo Maia ao seu projeto de lei anticrime, ano passado, ele disse:

“Talvez alguns entendam que o combate ao crime pode ser adiado indefinidamente, mas o povo brasileiro não aguenta mais. Essas questões sempre foram tratadas com respeito e cordialidade com o Presidente da Câmara, e espero que o mesmo possa ocorrer com o projeto e com quem o propôs. Não por questões pessoais, mas por respeito ao cargo e ao amplo desejo do povo brasileiro de viver em um país menos corrupto e mais seguro.”

O pacote em questão trouxe à tona o problema da tal excludente de ilicitude. Na prática bastaria, por exemplo, os militares que dispararam 80 vezes “por engano” naquele “acidente” que matou um músico no RJ alegarem ter agido com excesso de violência por “medo, surpresa ou violenta emoção”. Sabendo da desigualdade que vigora no Brasil – e que a ação dos policiais não ocorre na favela da mesma forma que nos bairros nobres – soldados da PM não precisariam mais justificar o extermínio de pessoas pobres e negras largando um “confundi o guarda-chuva com um fuzil”. Em tempo: esse item foi vetado pelo Congresso, mas ainda tramitam novas PLs de Bolsonaro, tentando “ressuscitá-lo” nas GLO (Garantias da Lei e da Ordem), aplicando-o, por exemplo, no combate às “desordeiras” manifestações sindicais. Resumindo: o “amplo desejo do povo brasileiro”, seja ele morista ou bolsonarista, seria exterminar quem não faz (ou não deveria fazer) parte do povo brasileiro.
Ah, mas falta um elemento aí! Cadê o caráter divino da missão salvífica do superministro? Pois bem! Ele termina sua réplica ao Presidente da Câmara dizendo: “Que Deus abençoe essa grande nação.” Ora, não é preciso autoproclamar-se enviado de Deus depois desse gran finale. De resto, observe-se que Padre Ricardo, Malafaia, Edir Macedo e outros da mesma laia o apoiam tanto quanto ao autoproclamado líder supremo da nação. Se agora criticam o homem da toga, fazem-no como a um filho mais novo que está fazendo pirraça ao irmão mais velho. Ter aprisionado Luís Inácio Lula da Silva – o comunista-mor – ainda lhe confere uma aura de homem santo, enviado de Deus para trazer justiça a toda a Terra.

Controlar as pessoas pela fé sempre foi um método eficaz. A esperança da eterna recompensa e o medo da danação eterna mantêm, ainda hoje, o rebanho sob as ordens do pastor. Foi dessa forma que os reis mantinham, no período medieval, as coisas exatamente do jeito como estavam. Se o plebeu, em vez de aspirar à nobreza, devia a esta servir lealmente, não era porque assim determinava o rei, mas por imposição da vontade divina. Mentalidade de rebanho, de gado. Gado não critica. Gado só obedece. Com algumas variáveis, a teologia da retribuição, trajada agora de teologia da prosperidade, continua ainda hoje entranhada na vida de boa parte da população. A mais carente a ela se agarra para manter alguma esperança e, assim, poder suportar as dificuldades e impossibilidades do dia a dia. A classe média, especialmente a baixa, ressentida, para aliviar sua consciência e também por acreditar que merece favores divinos. Afinal, segundo ela mesma, quem movimenta a economia do país, quem faz a roda da vida girar? E o pastor? Ora, o pastor quer o cartão de crédito! Mas com a senha! Senão a graça não vem...

A diferença é que, agora, não se espera mais que Deus dê a cada um, cada uma conforme suas obras, mas que Deus dê para mim. E que o outro, o inimigo seja eliminado. Ao fio da espada. Bolsonaro já disse: “minha especialidade é matar”. O comentário não carece de explicações. Moro parece mais polido. Entretanto, sua espada é igualmente assassina. Se não tira a vida do oponente, destrói sua imagem, o que – em pleno século XXI – quer dizer a mesma coisa. Tem a toda poderosa Globo à sua disposição e sabe muito bem como usá-la.

E essa é a máxima do atual momento brasileiro. Quem pertence ao “povo” viverá, e a verdade o libertará (e a verdade é que um defensor dos direitos humanos não é páreo para uma escopeta). Aos demais, o fio da espada, real ou virtual. Quem são os demais? Isto é, quem é o não-povo? Esse é o tema da nossa próxima conversa...

segunda-feira, 13 de abril de 2020

COISA DE COMUNISTA


Esse tempo de quarentena tem sido rico em procrastinação. E por isso aqui estou eu. Em vez de dar atenção a assuntos importantes, como o meu doutorado, estou agora querendo extravasar a minha ira por ter ouvido, na primeira hora do dia, um boçal dizer que, se fôssemos governados pela esquerda, a situação estaria pior.

Buenas... Será preciso demonstrar a diferença de tratamento da pandemia entre a comunista China e o capitalista EUA? E o pior: como alguém bem lembrou, o país da liberdade só liberta o mundo dos malvados comunistas nos filmes. Na realidade, como diz a canção: “O presidente dos Estados Unidos protege o mundo livre do mundo preso, e prende quem for preciso pra não deixar o presidente indefeso” (Nei Lisboa – Deu na TV). Aqui fora, no mundo real, não só os EUA têm que recorrer aos comunistas chineses, como ainda confiscam sua ajuda a outros países que sempre lhe serviram (ao Tio Sam) de capacho, de quintal.

Comunista, aliás, como diria outro filósofo de internet (e nem sempre devemos descartar o que eles dizem), na visão ultradireitosa, é todo aquele, toda aquela que discorda do meu ponto de vista (Dória, o mais recente vermelhinho do pedaço, que o diga!).

Pois bem! Mas a China, dirão alguns, é comunista internamente, porque nas relações exteriores se comporta como o mais sedento dos capitalistas. Então vamos lembrar de Cuba, que mais uma vez está exportando médicos. Sua ajuda chegou a ser cogitada no Brasil. Preciso dizer por que a proposta não foi adiante? E enquanto os EUA dão a volta em seu “parceiro” do talkey, a Rússia manda ajuda para a Venezuela. Enquanto nos outros países o Estado socorre até mesmo financeiramente sua população, no nosso a ajuda veio a jato para os bancos, ao passo que os míseros R$ 600,00 (é bom lembrar que o governo queria dar somente R$ 200,00) destinados à parte mais pobre da população precisam passar por um incansável processo burocrático antes de serem liberados. E a oposição ainda precisou fazer pressão para que os bancos não tomassem, desse dinheiro, o que os pobres lhe “devem”. Mas a cereja do bolo é o Guedes muquirana (com as pessoas, não com os bancos e megaempresários) ficar ainda misereando a compra de testes e equipamentos para o enfrentamento da pandemia.

Como se nada disso bastasse, olhe para as propostas da direita. Aliás, a proposta: vamos salvar a economia. Do outro lado, todas as ideias vão no sentido de salvar as vidas primeiro. Mas os mal intencionados, ecoados por gente que há muito perdeu qualquer noção da realidade, resolveram dizer por aí que tudo isso é fruto de um plano global para derrubar nosso Presidento. Resumindo, o mundo todo está apavorado com uma doença que veio do Oriente comunista com o único intuito de ferrar com o dirigente brasileiro.

Quero dizer, por fim, que estou usando aqui os termos comunismo e capitalismo como o senso comum do momento os têm utilizado. Eu sei, qualquer pessoa minimamente informada sabe que há outros matizes, outras nuanças na aquarela política e econômica. Não me surpreende que quem só enxerga em seu espectro duas cores – verde e amarelo (misturados) de um lado e vermelho do outro – encontre agora, no meio do furacão, energia para atacar os partidos de esquerda (e os nem tão de esquerda assim, como no caso Witzel, por exemplo). É uma maneira de aliviar a própria consciência por ter eleito uma besta para liderar nossa nação. Eu entendo, e é justamente isso que me deixa mais indignado.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

O Ecumenismo segundo Francisco

De todas as causas pelas quais lutaram nossos modelos de virtude do passado, qual delas é mais ecumênica do que o amor não somente pela humanidade, mas por tudo que compõe o Universo? Francisco de Assis merece muito mais do que um texto requentado (estou agora, na verdade, reescrevendo uma ideia publicada originalmente <aqui>), mas o importante é fazer memória deste 04 de outubro, dia do poverello.
Reza a lenda que o jovem rico Giovanni di Pietro di Bernardone inicia a trajetória que o levará a se tornar Francisco de Assis quando encontra, à beira do caminho, um leproso. Ao longo de sua vida, deve ter encontrado inúmeros homens e mulheres nessa situação. Os biógrafos dizem que ele tinha verdadeiro horror de presenciar essas pessoas se desmanchando ao ar livre. Só que, buscando imitar a Cristo, sente a necessidade de vencer esta barreira. Quem já havia se despido literalmente de tudo para viver o Evangelho não tinha mais nada a perder, senão o próprio asco. O homem na estrada é sua oportunidade, e ele a abraça – e beija.
A exemplo de tantos relatos bíblicos em que Jesus cura os leprosos, Francisco não perguntou pela religião do homem. Não pediu que ele primeiro acreditasse na santa Igreja e confessasse sua fé em Cristo para poder ajudá-lo. Verdade seja dita, não operou nenhum milagre; pelo menos, não no doente. O que mudou foi seu interior. Vencido o nojo, pôde enfim abraçar integralmente sua vocação.
Outro episódio revelador é a contemplação da Cruz de São Damião. Diante dela, não sente vontade de ajudar na liturgia, nas pastorais, nos ministérios da Igreja (funções às quais, diga-se de passagem, os leigos só tiveram acesso após o Concílio Vaticano)… Antes, dedica radicalmente sua vida aos mais pobres, que não tinham direito a nada, nem à religião, nem mesmo à vida.
Tomado pelo verdadeiro amor universal, declarou o sol e a lua, a Terra e até mesmo a morte como irmãs e irmãos. Ninguém viveu melhor do que ele a oykoumene (casa comum). Nem mesmo os grandes predadores (que podem ser tanto os poderosos políticos, latifundiários, grandes empresários, como leões, serpentes, lobos, etc.), que também não perguntam pela fé de suas vítimas. Ele elevou a máxima de não fazer acepção de pessoas (Gl 2,6) à missão de amar todas as criaturas.
Essa recordação se faz necessária nos dias que estamos vivendo. Demarcação indígena pra quê, se o que importa são os minérios debaixo da Terra? Direitos Humanos, só se for para humanos direitos (nada de direitos pros manos, talkey?). Nada contra relacionamentos homossexuais, desde que não fiquem de safadeza em público e não adotem nossas crianças. Os trabalhadores devem decidir entre salário de fome e poucos direitos, ou nenhum salário e nenhum “privilégio”. Mulher tem que ganhar menos porque engravida. Trabalho infantil não faz mal. A Terra é plana...

Sem uma visão macroecumênica, sem abraçar a todas como irmãs (inclusive a irmã Amazônia) e a todos como irmãos, não deixaremos apenas de ser cristãs e cristãos; deixaremos de existir.
Ousando ser como Francisco, cantemos:


domingo, 25 de novembro de 2018

MAXIPIRULITO, ULTRAVIOLETA!


Se tem uma coisa que precisa mudar (talkey!), é trabalhar nas escolas a literatura contemporânea por último. Esta semana foi cheia de emoções e debates interessantíssimos sobre a música de Chico Buarque e outras composições da época da ditadura militar. Definitivamente, a juventude tem sede de saber sobre seu passado, pelo menos o recente, aquele que se lhe aproxima mais.
Fugindo [pero no mucho] das canções tradicionais (Apesar de Você, Cálice, Geni e o Zepelim...), trabalhei os musicais “infantis”. Os trabalhos selecionados foram Ciranda da Bailarina (1983) e Piruetas (1981), do Chico; e O Circo, de Sidney Miller (1967).
De cara, as turmas perceberam, pelas datas, que as letras poderiam conter “mensagens subliminares”. Mas não faziam uma ideia exata do que descobririam. Grande foi sua surpresa ao fazer o exercício de interpretação dos textos.
Comecei pela Bailarina. Essa pessoa, sem defeitos, parece também não ter virtudes. Afinal, a música é composta por uma série de negativas e nenhuma afirmação sobre a protagonista.
E não tem coceira
Verruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem
[...]
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem
Só para realçar a importância dessa ausência de caracteres, notem a diferença em relação à Geni (de Geni e o Zepelim - 1978), um travesti coberto de defeitos, mas que é quem, no fim das contas, salva o dia.
Mas, de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
[...]
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai, Geni!
Vai com ele, vai, Geni!
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni!
Nossa “heroína”, ao contrário, não salva ninguém. Não comete erros, tampouco acertos. Seus passos são controlados, ensaiados, metódicos talvez, decorados com certeza. Não faz nada, absolutamente nada além do que manda a coreografia, ou seja, sempre dança conforme a música.
Em minha pesquisa, nada encontrei que confirmasse o que estou prestes a dizer (o que não surpreende, dado o aspecto apocalíptico das canções da época). Então avisei os estudantes que tratassem como uma suposição apenas (alerta que também faço a você) e comecei: Há quem afirme que bailarina pode ter sido um código, nos tempos da ditadura, para se referir ao dedo-duro, aquela pessoa que, para salvar a própria pele, entregava toda a rapaziada (tomando uns tapas ou não).
É um tema um tanto controverso. Como falei, faltam informações. O próprio Chico nada fala sobre isso. Todavia, que não se trata de uma simples música infantil, atesta-o a própria letra.
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Chico provavelmente sabia que que esse detalhe “íntimo” traria consequências. Era praticamente um recado: “Olha só, pessoal! Quando virem um trabalho meu censurado, prestem bem atenção na letra.” E que bailarina é um código pode-se deduzir de sua recorrência nas canções de protesto, como a de Sidney Miller (O Circo - 1967):
Fala o fole da sanfona, fala a flauta pequenina,
Que o melhor vai vir agora, que desponta a bailarina.
Que o seu corpo é de senhora, que seu rosto é de menina.
Quem chorava já não chora, quem cantava desafina,
Porque a dança só termina quando a noite for embora.
Tendo os olhos treinados, pode-se perceber aqui a relação entre a bailarina e a tortura. De fato, enquanto eu escrevia esse texto, minha revisora preferida (minha esposa, historiadora) fez outras pesquisas e encontrou o seguinte:
“Adolescentes internados no Centro Socioeducativo (CSE) em Boa Vista [RR] sofrem, cotidianamente, torturas como medida disciplinar dentro da unidade. É o que aponta um relatório do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT) apresentado nesta terça-feira (16) por Fernanda Giviez, perita do órgão.
De acordo com a perita, os internos chegam a passar 12 horas algemados em grades com as mãos para cima e nas pontas dos pés. Esta é uma prática de tortura conhecida como ‘bailarina’.
[...]
Aqui é utilizada a ‘bailarina’, que é uma prática de tortura utilizada durante a ditadura civil-militar no Brasil.
(Para ler na íntegra, clique aqui)
Voltando à música do Sidney Miller, importa observar que a imagem do circo está intimamente relacionada às mais terríveis práticas desumanas da ditadura. Caetano e Gil, por exemplo, batizaram o primeiro álbum da Tropicália com o singelo nome Panis Et Circensis (1968). Essa – a velha máxima romana – era a política dos militares: pão e circo. Na voz dos jovens da MPB, o entretenimento popular virou código para a tortura. Saber disso dá outro significado à letra da canção:
Vai, vai, vai começar a brincadeira.
Tem charanga tocando a noite inteira.
Vem, vem, vem ver o circo de verdade.
Tem, tem, tem picadeiro e qualidade.
Bem me lembro o trapezista, que mortal era seu salto,
Balançando lá no alto parecia de brinquedo.
Mas fazia tanto medo que o Zezinho do Trombone,
De renome consagrado, esquecia o próprio nome
E abraçava o microfone pra tocar o seu dobrado.
[...]
Vai, vai, vai terminar a brincadeira.
Que a charanga tocou a noite inteira.
Morre o circo, renasce na lembrança.
Foi-se embora e eu ainda era criança.
O mesmo acontecendo com outras músicas, de outros compositores, com a mesma temática. Vejamos outro exemplo, Piruetas de Chico Buarque (1981):
Dez mil cambalhotas,
cem mil cambalhotas,
Bravo! Bravo!
Maxicambalhotas,
extracambalhotas,
Bravo! Bravo!
Salta além da estratosfera
e caia onde cair,
Que a galera morre de rir!
Ai, minhas costelas!
Já tô vendo estrelas!
Bravo! Bravo!
Ai, minha cachola!
Não tô bom da bola!
Bravo! Bravo!
Lona... nuvens...
Tomba no hospital!
Uma pirueta, uma cabriola,
Uma cambalhota,
não tô bom da bola!
E o pessoal delira...
Maxipirulito, ultravioleta,
Bravo! Bravo!
Uma educanda, depois disso, virou para mim e disse, brincando (ou não), que estraguei sua infância. Juro que não era minha intenção, mas... Feitas as devidas considerações, revimos as letras das músicas (convite que faço a você também, deixando logo abaixo o link para ouvi-las) e deixei que cada um, cada uma terminasse de analisá-las e tirasse suas próprias conclusões.
Obs.: E aí? O que achou? A notícia vinculada a este texto é um fato isolado, ou devemos nos preocupar com a possível atualidade deste tema?