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sexta-feira, 4 de outubro de 2019

O Ecumenismo segundo Francisco

De todas as causas pelas quais lutaram nossos modelos de virtude do passado, qual delas é mais ecumênica do que o amor não somente pela humanidade, mas por tudo que compõe o Universo? Francisco de Assis merece muito mais do que um texto requentado (estou agora, na verdade, reescrevendo uma ideia publicada originalmente <aqui>), mas o importante é fazer memória deste 04 de outubro, dia do poverello.
Reza a lenda que o jovem rico Giovanni di Pietro di Bernardone inicia a trajetória que o levará a se tornar Francisco de Assis quando encontra, à beira do caminho, um leproso. Ao longo de sua vida, deve ter encontrado inúmeros homens e mulheres nessa situação. Os biógrafos dizem que ele tinha verdadeiro horror de presenciar essas pessoas se desmanchando ao ar livre. Só que, buscando imitar a Cristo, sente a necessidade de vencer esta barreira. Quem já havia se despido literalmente de tudo para viver o Evangelho não tinha mais nada a perder, senão o próprio asco. O homem na estrada é sua oportunidade, e ele a abraça – e beija.
A exemplo de tantos relatos bíblicos em que Jesus cura os leprosos, Francisco não perguntou pela religião do homem. Não pediu que ele primeiro acreditasse na santa Igreja e confessasse sua fé em Cristo para poder ajudá-lo. Verdade seja dita, não operou nenhum milagre; pelo menos, não no doente. O que mudou foi seu interior. Vencido o nojo, pôde enfim abraçar integralmente sua vocação.
Outro episódio revelador é a contemplação da Cruz de São Damião. Diante dela, não sente vontade de ajudar na liturgia, nas pastorais, nos ministérios da Igreja (funções às quais, diga-se de passagem, os leigos só tiveram acesso após o Concílio Vaticano)… Antes, dedica radicalmente sua vida aos mais pobres, que não tinham direito a nada, nem à religião, nem mesmo à vida.
Tomado pelo verdadeiro amor universal, declarou o sol e a lua, a Terra e até mesmo a morte como irmãs e irmãos. Ninguém viveu melhor do que ele a oykoumene (casa comum). Nem mesmo os grandes predadores (que podem ser tanto os poderosos políticos, latifundiários, grandes empresários, como leões, serpentes, lobos, etc.), que também não perguntam pela fé de suas vítimas. Ele elevou a máxima de não fazer acepção de pessoas (Gl 2,6) à missão de amar todas as criaturas.
Essa recordação se faz necessária nos dias que estamos vivendo. Demarcação indígena pra quê, se o que importa são os minérios debaixo da Terra? Direitos Humanos, só se for para humanos direitos (nada de direitos pros manos, talkey?). Nada contra relacionamentos homossexuais, desde que não fiquem de safadeza em público e não adotem nossas crianças. Os trabalhadores devem decidir entre salário de fome e poucos direitos, ou nenhum salário e nenhum “privilégio”. Mulher tem que ganhar menos porque engravida. Trabalho infantil não faz mal. A Terra é plana...

Sem uma visão macroecumênica, sem abraçar a todas como irmãs (inclusive a irmã Amazônia) e a todos como irmãos, não deixaremos apenas de ser cristãs e cristãos; deixaremos de existir.
Ousando ser como Francisco, cantemos:


domingo, 25 de novembro de 2018

MAXIPIRULITO, ULTRAVIOLETA!


Se tem uma coisa que precisa mudar (talkey!), é trabalhar nas escolas a literatura contemporânea por último. Esta semana foi cheia de emoções e debates interessantíssimos sobre a música de Chico Buarque e outras composições da época da ditadura militar. Definitivamente, a juventude tem sede de saber sobre seu passado, pelo menos o recente, aquele que se lhe aproxima mais.
Fugindo [pero no mucho] das canções tradicionais (Apesar de Você, Cálice, Geni e o Zepelim...), trabalhei os musicais “infantis”. Os trabalhos selecionados foram Ciranda da Bailarina (1983) e Piruetas (1981), do Chico; e O Circo, de Sidney Miller (1967).
De cara, as turmas perceberam, pelas datas, que as letras poderiam conter “mensagens subliminares”. Mas não faziam uma ideia exata do que descobririam. Grande foi sua surpresa ao fazer o exercício de interpretação dos textos.
Comecei pela Bailarina. Essa pessoa, sem defeitos, parece também não ter virtudes. Afinal, a música é composta por uma série de negativas e nenhuma afirmação sobre a protagonista.
E não tem coceira
Verruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem
[...]
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem
Só para realçar a importância dessa ausência de caracteres, notem a diferença em relação à Geni (de Geni e o Zepelim - 1978), um travesti coberto de defeitos, mas que é quem, no fim das contas, salva o dia.
Mas, de fato, logo ela
Tão coitada e tão singela
Cativara o forasteiro
[...]
A cidade em romaria
Foi beijar a sua mão
O prefeito de joelhos
O bispo de olhos vermelhos
E o banqueiro com um milhão
Vai com ele, vai, Geni!
Vai com ele, vai, Geni!
Você pode nos salvar
Você vai nos redimir
Você dá pra qualquer um
Bendita Geni!
Nossa “heroína”, ao contrário, não salva ninguém. Não comete erros, tampouco acertos. Seus passos são controlados, ensaiados, metódicos talvez, decorados com certeza. Não faz nada, absolutamente nada além do que manda a coreografia, ou seja, sempre dança conforme a música.
Em minha pesquisa, nada encontrei que confirmasse o que estou prestes a dizer (o que não surpreende, dado o aspecto apocalíptico das canções da época). Então avisei os estudantes que tratassem como uma suposição apenas (alerta que também faço a você) e comecei: Há quem afirme que bailarina pode ter sido um código, nos tempos da ditadura, para se referir ao dedo-duro, aquela pessoa que, para salvar a própria pele, entregava toda a rapaziada (tomando uns tapas ou não).
É um tema um tanto controverso. Como falei, faltam informações. O próprio Chico nada fala sobre isso. Todavia, que não se trata de uma simples música infantil, atesta-o a própria letra.
Reparando bem, todo mundo tem pentelho
Só a bailarina que não tem
Chico provavelmente sabia que que esse detalhe “íntimo” traria consequências. Era praticamente um recado: “Olha só, pessoal! Quando virem um trabalho meu censurado, prestem bem atenção na letra.” E que bailarina é um código pode-se deduzir de sua recorrência nas canções de protesto, como a de Sidney Miller (O Circo - 1967):
Fala o fole da sanfona, fala a flauta pequenina,
Que o melhor vai vir agora, que desponta a bailarina.
Que o seu corpo é de senhora, que seu rosto é de menina.
Quem chorava já não chora, quem cantava desafina,
Porque a dança só termina quando a noite for embora.
Tendo os olhos treinados, pode-se perceber aqui a relação entre a bailarina e a tortura. De fato, enquanto eu escrevia esse texto, minha revisora preferida (minha esposa, historiadora) fez outras pesquisas e encontrou o seguinte:
“Adolescentes internados no Centro Socioeducativo (CSE) em Boa Vista [RR] sofrem, cotidianamente, torturas como medida disciplinar dentro da unidade. É o que aponta um relatório do Mecanismo Nacional de Prevenção e Combate à Tortura (MNPCT) apresentado nesta terça-feira (16) por Fernanda Giviez, perita do órgão.
De acordo com a perita, os internos chegam a passar 12 horas algemados em grades com as mãos para cima e nas pontas dos pés. Esta é uma prática de tortura conhecida como ‘bailarina’.
[...]
Aqui é utilizada a ‘bailarina’, que é uma prática de tortura utilizada durante a ditadura civil-militar no Brasil.
(Para ler na íntegra, clique aqui)
Voltando à música do Sidney Miller, importa observar que a imagem do circo está intimamente relacionada às mais terríveis práticas desumanas da ditadura. Caetano e Gil, por exemplo, batizaram o primeiro álbum da Tropicália com o singelo nome Panis Et Circensis (1968). Essa – a velha máxima romana – era a política dos militares: pão e circo. Na voz dos jovens da MPB, o entretenimento popular virou código para a tortura. Saber disso dá outro significado à letra da canção:
Vai, vai, vai começar a brincadeira.
Tem charanga tocando a noite inteira.
Vem, vem, vem ver o circo de verdade.
Tem, tem, tem picadeiro e qualidade.
Bem me lembro o trapezista, que mortal era seu salto,
Balançando lá no alto parecia de brinquedo.
Mas fazia tanto medo que o Zezinho do Trombone,
De renome consagrado, esquecia o próprio nome
E abraçava o microfone pra tocar o seu dobrado.
[...]
Vai, vai, vai terminar a brincadeira.
Que a charanga tocou a noite inteira.
Morre o circo, renasce na lembrança.
Foi-se embora e eu ainda era criança.
O mesmo acontecendo com outras músicas, de outros compositores, com a mesma temática. Vejamos outro exemplo, Piruetas de Chico Buarque (1981):
Dez mil cambalhotas,
cem mil cambalhotas,
Bravo! Bravo!
Maxicambalhotas,
extracambalhotas,
Bravo! Bravo!
Salta além da estratosfera
e caia onde cair,
Que a galera morre de rir!
Ai, minhas costelas!
Já tô vendo estrelas!
Bravo! Bravo!
Ai, minha cachola!
Não tô bom da bola!
Bravo! Bravo!
Lona... nuvens...
Tomba no hospital!
Uma pirueta, uma cabriola,
Uma cambalhota,
não tô bom da bola!
E o pessoal delira...
Maxipirulito, ultravioleta,
Bravo! Bravo!
Uma educanda, depois disso, virou para mim e disse, brincando (ou não), que estraguei sua infância. Juro que não era minha intenção, mas... Feitas as devidas considerações, revimos as letras das músicas (convite que faço a você também, deixando logo abaixo o link para ouvi-las) e deixei que cada um, cada uma terminasse de analisá-las e tirasse suas próprias conclusões.
Obs.: E aí? O que achou? A notícia vinculada a este texto é um fato isolado, ou devemos nos preocupar com a possível atualidade deste tema?



sexta-feira, 2 de novembro de 2018

BALADAS PARA ESTES NOVOS(?) TEMPOS


Que dias, senhoras e senhores! Que dias... Parafraseando o Ira!, banda paulistana de rock, estes serão “Dias de Luta”.
Mas devo confessar... Minha primeira reação, findo o pleito presidencial, foi de desesperança e desejo de me exilar no mais profundo silêncio e ostracismo. Eu tive medo. Muito medo! Principalmente após o primeiro pronunciamento do eleito, ou melhor (seguindo a analogia de meu texto anterior com a saga do menino Harry Potter [leia aqui], o primeiro passo para vencer o inimigo é dizendo seu nome): Principalmente após o primeiro pronunciamento de Lord Voldemort.
Nada mais condizente com o feriado de finados do que essa sensação terrível...
Tenho filhas para criar, para ver terminar de crescer, tenho planos com minha esposa, tenho sonhos ainda por realizar... Nada disso se concretizará se:
1)      Eu continuar me confessando socialista;
2)      Ele cumprir com sua palavra (ou ameaça?) de varrer os “extremismos” de esquerda.
Portanto, decidi me calar. Nem para a sala dos professores eu desci essa semana, na hora do recreio. Não queria ouvir falar nada sobre o assunto. Muito menos, olhar para a face de “colegas” eleitores (e o pior: eleitoras) dele. Mas aí...
Voltando àquela música da banda paulistana... Ela começa assim:
“Só depois de muito tempo,
fui entender aquele homem.
Eu queria ouvir muito,
mas ele me disse pouco...”
Até aí, nada demais! Porém, uma colega me pediu para conversar com seu filho, que por acaso é meu educando. Ele não queria mais frequentar as aulas de um determinado professor porque este estaria fazendo campanha aberta para o eleito, digo, o Voldemort, lançando mão inclusive de notícias falsas, como por exemplo a distribuição do kit gay...
(Buenas... se você ainda acredita nisso, clique aqui)
Enfim... Não poderia simplesmente dizer para meu pupilo que aquele educador estava errado. Ou melhor... Nada poderia comentar sobre aquele “colega”, sob pena de ser antiético. Então quis suscitar naquele jovem algo que o instigasse, que o fizesse querer ir às aulas, pois deixar de frequentá-las seria caminho certo para a reprovação.
— Você precisa lutar pelo seu espaço. Como estudante, a escola é o seu lugar. Se abrir mão disso, estará dando força às propostas excludentes do coiso.
Os olhos do guri brilharam:
— Entendi, sôr! Se eu desistir, é sinal que ele ganhou!
E lá se foi ele, bem determinado. Senti-me “aquele homem” da canção. Ao mesmo tempo, eu era o eu-lírico. Eu era aquele menino. Se o sinal bateu, ou alguém falou mais alguma coisa, não sei. Ouvia apenas uma música, que tocava em minha cabeça:
“Busca logo o teu espaço
e firma o pé na caminhada.
Pisa firme neste chão
e toma parte na jornada.”
E o som ficava ainda mais “alto” no refrão:
“Pois aqui tu tens o teu lugar!
Pois aqui tu tens o teu lugar!”
Sem querer, o conselho que dei serviu muito mais para mim do que para o estudante. O que eu lhe disse foi muito pouco, mas, conforme segue o rock “Dias de Luta”:
“Quando se sabe ouvir,
Não precisam muitas palavras.”
É isso mesmo! Pessoas amigas falavam, no dia do resultado, para não desanimar. Mas a tristeza era tanta que eu nada ouvia. Com o jovem, porém, eu deveria parecer sincero. Acontece que eu não sei como parecer sem ser. Então disse-lhe algo que eu mesmo precisava ouvir.
Precisamos lutar pelo nosso espaço. O Brasil é o lugar de todas as brasileiras e de todos os brasileiros. Nesses tempos em que a máxima “ame-o ou deixe-o” parece ressuscitar, é preciso dizer: “Eu o amo sim e, por isso, quero-o livre!”
Vejo muitas de minhas educandas – e educandos – frequentando igrejas que apoiaram a candidatura vencedora. Como educador, sinto que preciso disputar espaço com elas. Mas sozinho não dá! É por essas e outras que, para mim, o hino “O Teu Lugar”, cântico luterano (ouça aqui), parece o mais adequado para este momento, inclusive pelos seguintes versos:
“Vem sarar tuas feridas
e buscar mais liberdade.
Descansar as tuas cargas
sobre a nossa amizade.”
De fato, é hora de sarar as feridas, o que implica buscar apoio nas amizades, nas parcerias, nas redes. Precisamos nos reagrupar, cuidar uns dos outros, descansar e, passo seguinte, repensar a caminhada.
Isso me faz lembrar alguns textos bíblicos, mas esse texto já ficou comprido, de modo que continuarei essa reflexão (pelo seu viés mais teológico) no próximo post. Até lá!