sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Por um Natal além de Ritos e Ofícios

Adoração dos Pastores - Pintura de Bartolomé Esteban Murillo
E o povo foi à missa. Uns poucos, é verdade. Tímidos, mas muito devotos. Largaram momentaneamente família, amigos, vizinhos, afazeres, telefonemas, o churrasco... e lá se foram. Noite de Natal, sabe como é! Tem presépio, uma equipe animada de cantos, luzes, flores, o sermão do padre... tudo conforme manda o figurino, ou melhor, a tradição!
O Evangelho falava do recenseamento que levou Maria e José a Belém e do glorioso anúncio aos pastores (Lc 2,1-14). Após a leitura, muito respeitosa, feita pelo diácono, levantou-se o padre e solenemente tomou posse do que por direito era seu, isto é, o microfone. Vá lá que o texto fosse pra lá de manjado, ultraconhecido, mas, a julgar pelo silêncio da plateia, digo, dos fiéis, parecia que algo maravilhoso estava prestes a ser anunciado. Embevecido pela atenção geral, o presidente começou sua pregação.
De cara, a primeira alfinetada: “Quantas pessoas hoje estão comendo, bebendo, fazendo festa e não tiveram tempo de vir a esta celebração; elas se esqueceram de Jesus!” Pensei que o público acusaria o golpe, não por si, mas pelos familiares que preferiram ficar em casa... nada! Então a artilharia continuou: “Quantos pobres hoje não têm o que comer (ôpa! – pensei: tá esquentando...), mas são felizes com o que possuem (ihhh...)!” Resumo da ópera: um festival de senso comum. Natal não é tempo de ficar trocando presentes, mas de ir à Igreja e dar glória a Deus. Se os pobres são capazes de ser felizes com o que possuem, quanto mais nós que temos a honra de comungar Jesus todo domingo. Só pode se dizer cristão quem segue os preceitos da Santa Igreja. Pensar qualquer coisa além disso cheira a heresia...
Curioso que o herege é, por definição, quem vai contra os dogmas da Igreja e os ensinamentos bíblicos. Pois bem, então vamos ao texto! Jesus foi concebido, criado e se tornou o Messias na Galileia. Belém foi palco apenas de seu nascimento. Assim, Lucas apresentava Jesus como o Filho de Davi, o menino de que falava a 1ª leitura (Is 9,1-6). Segundo Isaías, uma grande luz brilhou porque o Príncipe da Paz veio para quebrar o jugo que oprimia o povo e restabelecer a Justiça. A Luz, portanto, era a liberdade para os que viviam nas trevas, isto é, os oprimidos. O Salmo 95 e a carta a Tito – Tt 2,11-14, também textos do dia, falavam do restabelecimento da Justiça como sinal de salvação. Agora, não sei se vocês tiveram a mesma impressão, mas algo me diz que Justiça parece ser uma palavra-chave para entendermos o texto de Lucas, não!?
Os textos também são unânimes em dizer que Jesus veio para todas e para todos. Entretanto – e aí o padre tem razão –, nem todos o acolheram. O v.7 diz que Jesus foi colocado numa manjedoura porque não havia lugar para ele (e sua família) em hospedarias. Seria José o único descendente vivo de Davi? Ele não tinha irmãos, primos, parentes que o pudessem acolher? O Evangelho de João disse que Jesus veio para os seus, mas estes não o receberam (Jo 1,11). Talvez por isso, tempos depois, Ele tenha dito: “Os sãos não precisam de médico” (Mc 2,17a). Uma ironia, certamente, já que os judeus (especialmente fariseus e doutores da Lei) se consideravam os únicos dignos de pertencer ao povo escolhido. Na cidade imperava a lógica do Templo, atrelado aos ritos de purificação. Riqueza era sinal de bênção divina. Assim, os pobres eram considerados impuros por sua própria condição. E como os puros deveriam viver separados dos impuros, estes eram impelidos para fora das cidades. Ora, Jesus nasce em Belém, mas fora da cidade. E quem é convidado a ir vê-lo? Algum citadino?
O anjo apareceu aos pastores, cuja experiência com o sagrado era de opressão. Viviam no campo, expostos a inúmeras situações que os tornavam impuros. Não admira que tivessem medo. Sempre que iam ao Templo, era para negociar o rebanho ou purificar-se. O anjo, porém, disse-lhes que se alegrassem. O momento era de glorificar a Deus. Um novo tempo, uma nova relação deveria se estabelecer entre Deus e a humanidade, especialmente os pequeninos, até então considerados amaldiçoados. Notem que o Templo fica de fora dessa. Logo, essa história de que os salvos são aqueles que vão à missa todo domingo não se sustenta pela Bíblia. O que determina a pertença ao povo de Deus é a vida em comunidade, não a frequência às celebrações. Embora não tenha sido a primeira a ser convidada, a comunidade dos pastores é a primeira a aceitar o convite e fazer a experiência do Deus Menino.
Olhem que bela oportunidade! Hoje, as igrejas históricas estão se esvaziando. O povo não aceita mais ameaças, nem que sejam referentes ao fogo eterno. Duas fórmulas o atraem: 1) A mágica das curas e exorcismos; 2) Algo que toque seu coração e dialogue com sua realidade. A primeira arrasta multidões, mas seus efeitos logo passam. A segunda atrai menos, mas os efeitos são mais duradouros porque transformam, de fato, a vida das pessoas. Em vez de “aproveitar” a casa cheia para reclamar de quem só aparece em ocasiões especiais, por que não dizer que a porta está sempre aberta? Por que não ir ao encontro dos mais necessitados, celebrar com eles, na casa ou nas acomodações deles? Se o objetivo é puxar a orelha, por que não questionar o motivo de, dois mil e quatorze anos depois de serem acolhidos por Jesus, os pobres ainda serem marginalizados e explorados? De qualquer forma, por que não anunciar que é um tempo de alegria? Porque é isso que o Natal significa. Deus veio habitar entre nós e, logo de cara, fez questão de mostrar que sua casa tem lugar para todas e para todos, mesmo os que não seguem os preceitos religiosos tão à risca. Em suma: Natal é tempo de anunciar que Deus veio ser um de nós para que toda a humanidade se una a Ele.

Confesso que voltei pra casa irritado. O padre ficava reclamando da quantidade de participantes na celebração, sem perceber que seu discurso metia mais medo que amor e esperança no coração daquela gente. Se tivesse copiado o exemplo do anjo, pelo menos: este percebeu que deveria tranquilizar seus ouvintes antes de dar-lhes a Boa Nova. Ou se tivesse observado como Deus se fez pequeno para acolher os mais pobres... Mas enfim, quando estava quase chegando ao meu destino, antes de abrir o portão, pensei: “Ô Zé, deixa de ser besta! Você parece até que tá querendo ensinar a missa ao vigário!”

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

LANÇAR AS REDES (SOCIAIS) EM ÁGUAS MAIS PROFUNDAS

Então o meu tio, pescador, resolveu fazer um perfil no facebook. Como ele não manjava muito dessas tecnologias, pediu minha ajuda. Enquanto eu lhe apresentava o mundo virtual, ele me dizia, entre maravilhado e temeroso, o que entendia por “navegar”, “rede” e outros termos tão comuns ao seu universo.
– Fiio, navegar só é bom quando a gente conhece bem os perigos do mar. E rede é legal, mas só para o pescador, não para os peixes.
Eu, metido a biblista, falei pra ele de um episódio onde Jesus manda Pedro lançar as redes em águas mais profundas. Ele, curioso que só, pediu para eu contar a história. Depois que terminei, ele me olhou bem sério e disse:
– Brabo de acreditar...
– Por que, tio?
– Esse Pedro sai à noite, que é mais fácil de enxergar os peixes, e não acha nada. Aí, de dia, que é quando os bichinhos ficam escondidos, eles enchem as redes. E ainda por cima em alto mar? Truco!
Confesso que nunca tinha visto a questão pelos olhos de um pescador. Sempre imaginei a cena toda de forma simbólica. Ou seja, o barco como sendo a Igreja; a noite e o mar representando os perigos do mundo; Pedro como um chefe religioso; a rede, o Evangelho; os peixes, novos adeptos da religião nascente... Mas o tio me deixou intrigado. Como os ouvintes de Jesus, muitos deles pescadores de profissão, encararam esse “deslize”? Bom, o relato é de Lucas. Talvez o seu público não tenha percebido... Mas alguém tão cuidadoso em compilar os textos não iria cometer um erro tão grosseiro. Iria? E se foi de propósito? E se houvesse um sentido mais profundo?
Talvez o autor fizesse mesmo questão de contar o sucedido de maneira “fantástica” para que as pessoas se antenassem e olhassem para além das aparências.  Ora, se Jesus é a Luz, faz todo sentido pescar durante o dia. Ir para águas mais profundas, ou para o mar aberto (“fazer-se ao largo”, dizem algumas traduções), significaria ter uma visão mais ampla e mais crítica da realidade e do mundo que nos cercam. Logo, a rede, usada à noite para capturar peixes, teria um novo sentido à luz do Sol: libertar as pessoas.
Então me lembrei que estava iniciando meu tio no mundo das redes virtuais. Fiquei impressionado com a sua perspicácia. Ele nem começou a usar o perfil e já estava intuindo a existência de armadilhas. De fato, se tem uma coisa que acaba, com o ingresso nas mídias sociais, é a privacidade. Na era dos reality shows, ansiamos por expor todos os nossos passos na internet. Atentos a isso, os patrocinadores injetam dinheiro pesado nos sites de relacionamento em troca de informações privilegiadas sobre nossos dados pessoais e tendências de consumo. Isso pra não falar nos problemas de roubo de senhas (inclusive do internet banking) e até de espionagem. Olhando por esse lado, as redes virtuais são muito perigosas.
Já ia dando razão ao meu tio quando minha esposa veio avisar que havia voltado da academia. Então pensei no outro lado da moeda: eu a conheci num site de relacionamento, e estamos juntos há dez anos. Mantenho uma lista extensa de amizades virtuais com quem debato os mais variados assuntos. As propostas de estudos, como os de hermenêutica juvenil, têm circulação inalcançável pelos métodos tradicionais de divulgação. Numa dessas listas de debates surgiu a ideia do curso bíblico virtual, que tem rendido ótimas reflexões. Escrevo para meus blogs, auxilio em outros e me divirto e aprendo muito com as postagens de outras pessoas. É liberdade total de expressão e acesso a informação: algo inimaginável nas mídias impressas e outros meios de telecomunicação. Seria isso o mesmo que lançar as redes à luz do dia?
Indo para águas mais profundas, para o mar aberto: as redes, em si, não são boas nem más; elas são uma ferramenta. E que baita ferramenta! Há pouco mais de um ano, graças a uma mobilização que se iniciou nas redes sociais, manifestantes invadiram as ruas em busca do que imaginavam ser um Brasil melhor. Se o resultado foi um sucesso ou um fracasso, deveu-se à falta de uma pauta de reivindicações comum, à falta de costume de manifestações desse porte, a uma série de fatores, enfim, que dependeram de pessoas, não do meio de comunicação. O mesmo vale para as objeções de alguns colegas sobre cursos populares EaD. Dizem que “popular” e “virtual” são antônimos, que a internet torna as relações frias, monótonas etc. e tal. Isso lembra o Concílio de Jerusalém (At 15), que discutiu a necessidade da circuncisão para os não-judeus. Lá como cá, a questão me parece ser de costumes, portanto, não-fundamental para a fé. Pessoas circuncidadas e relações presenciais podem ser tão boas ou tão más quanto pessoas incircuncisas e relações virtuais.
Em suma, redes sociais são um meio, com suas qualidades e suas
peculiaridades. Se, por um lado, há os riscos, há também os benefícios. Tudo depende do modo como as utilizamos. Ontem, por exemplo, esqueci meu twitter aberto no micro do meu tio. Faz uns dez minutos, ele me mandou uma mensagem pelo skype:
– Fiio, acho que alguém te trollei, não sei quem fui. Dá uma olhada lá! #fikadica

terça-feira, 1 de julho de 2014

O Bom Samaritano: proximidade ou aproximação?

Nas últimas postagens, falei de alguns lugares e seus significados: Chapecó - abrir os olhos; Betânia - casa dos pobres. Então, pensando nos estudos bíblicos da PJ católica romana para este ano, mas querendo dialogar também com as juventudes de outras denominações, veio-me a seguinte pergunta: E Samaria, é lugar do quê, de quem?

Os textos a seguir tentam dar uma resposta. Digo "textos" porque, excepcionalmente hoje, apresento mais de uma reflexão. Não deixam de ser experimentos literários. Portanto, fiquem à vontade para dizer qual lhes agrada mais.

Ah, sim... Ambos foram escritos a pedido. Dado o prazo para entregá-los, deixei-os com títulos provisórios. Mas agora, revisitando-os, fico pensando: A Parábola do Samaritano é uma questão de proximidade ou de aproximação?

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UMA QUESTÃO DE PROXIMIDADE
Você quer herdar o Céu? Seus problemas se acabaram! Basta amar a Deus com todas as suas forças e à próxima, ao próximo como a si mesma, a si mesmo. Quem é seu próximo? Bueno...
Tadeu é coordenador do JESSALVA (grupo de jovens Jesus Salvador). Apesar de ser da periferia, seu grupo está ligado à Catedral. Em tudo o que fazem, procuram glorificar a Deus. Por conta disso, Tadeu não fala mais com o seu amigo Gerson. Além de umbandista, o guri é negro. E o pior... acabou de se assumir homossexual.
A moto é que garante o sustento de Tadeu. Ele é motoboy. Durante uma entrega, o acidente. O motorista da Van fugiu do local. Sua moto ficou destruída. Quem aparece para ajudar? O Gerson. Ele, que trabalha nas ruas, estava por perto bem naquela hora. Ficou com o amigo até a ambulância chegar.
No hospital, Tadeu liga para a mãe. O celular está desligado. Então liga para o padre. É noite de confissões, não pode se liberar tão cedo. O jovem passa a noite em claro, ninguém aparece. Como estará sua moto? Pela manhã, uma visita: é Gerson. Levou a moto na oficina do japonês, vai ficar pronta em um mês. Como agradecer?
Se fosse um sábado à noite, e o Gerson fosse o acidentado, Tadeu teria deixado o grupo de lado para ajudar o amigo? Pela responsabilidade de coordenador, ele sabe que não. Isso o incomoda! Na última reunião, discutiram justamente sobre a parábola do bom samaritano. Quem é o meu próximo? Falaram de um mendigo caído, alguém sem um rosto concreto! Como ajudá-lo? Levando-o para a Igreja! Como se todos os problemas da humanidade derivassem da falta de religião. Mas agora Tadeu está num hospital, diante de um problema real, com pessoas concretas, de rostos concretos. E está muito mal por receber ajuda de quem ele nunca ajudaria. Então pensou: como me torno próximo de alguém?
É isso! Tadeu percebeu a moral da história. A gente não faz nada para ganhar uma herança. É perda de tempo – e revela grande egoísmo – tentar merecer o Céu. Independente da fé que professamos, da cor da nossa pele, da nossa orientação sexual ou da nossa condição financeira, somos todos filhas e filhos de Deus, criados para a Vida. Por isso, participar da Igreja, crer em – e temer a – Deus não é privilégio, não é condição de superioridade, não é clubinho dos eleitos. Ser cristão é serviço.
No tempo de Jesus, os entendidos da Lei se consideravam os únicos salvos. Hoje também há o costume de dizer que só quem participa do meu grupinho, só quem professa Deus do meu jeito é quem vai se salvar. Logo, não adianta estender a mão a quem não tem salvação. Os samaritanos eram considerados um povo insensato (Eclo 50,25-26) porque, na invasão assíria, foram misturados a outros povos, contaminando assim o seu “sangue puro”. As “insensatas e insensatos” de hoje não esperam que as pessoas se convertam à sua fé, ou se arrependam de seus pecados, para ajudá-las. Elas não se sentem seres superiores, que vieram a esta terra para julgar os vivos e os mortos. Elas vão ao encontro dos outros, elas se tornam próximas dos necessitados para estender a mão a eles. Diante do sistema, não perguntam por que vivem os maus e morrem os bons. São insensatos demais para julgar quem merece viver ou morrer. Em vez disso, limitam-se a perguntar por que existe a morte. Em sua insensatez, entendem que a Vida é para todas e para todos.
Então, nesse jogo de aproximação, o que escolhemos? Decidir quem é o nosso próximo, isto é, quem merece nossa ajuda, nosso amor? Ou decidimos amar indistintamente, com isso tornando-nos próximas, próximos – e colocando-nos a serviço – de quem precisar?

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UMA QUESTÃO DE PROXIMIDADE II
Quem é o meu próximo (Lc 10,29)? O Doutor pergunta a Jesus, malicioso. Quer que Ele admita: só a “gente do bem” merece ser amada. De certo, não vê com bons olhos tantos pobres e estrangeiros seguindo o Nazareno. Mas este, rei da subversão, conta uma história e inverte o problema: quem é o próximo do outro, daquele que está caído à beira do caminho (Lc 10,36)?
A resposta, que o especialista da Lei custa a dar, parece simples: o samaritano. Na verdade, podia ser qualquer um, qualquer uma que estendesse a mão ao necessitado. Mas por que justo um samaritano? E mais... A Tradição o acusa de ser bom. Por quê? Samaritanos normalmente são maus? Talvez sim... Recuando alguns versículos (Lc 9,51-56), vemos Jesus rejeitado na Samaria apenas por dizer que estava a caminho de Jerusalém. Em Eclo 50,25-26, por outro lado, um judeu chama os samaritanos de estúpidos. Por que tanta rivalidade?
Logo depois da morte do rei Salomão (931 a.C.), Israel se separou em reino do sul (Judá) e reino do norte (Israel). Poucos séculos depois (721 a.C.), a Assíria dominou este último, repovoando-o, misturando a população local a grupos oriundos de outros lugares. Na visão dos irmãos sulistas, a miscigenação inter-racial tornou os nortistas impuros, impedindo-os de continuar pertencendo à “raça dos eleitos” e desfrutar a Terra Prometida. Algo semelhante aconteceu com Judá, pouco depois, sob o domínio babilônio, mas... voltemos à parábola.
O cenário escolhido por Jesus é algum lugar entre Jerusalém e Jericó, ambas cidades da Judeia. Isso explica a origem do assaltado, do sacerdote, do levita e até do dono da pensão, todos obviamente judeus. Mas... o que faz um samaritano ali? Bom, ele é o outro. A Samaria é o lugar do outro, do estrangeiro. Lucas, vale lembrar, escreve em um ambiente fora da Palestina. Seu público são comunidades cristãs em cidades dominadas pela cultura grega. Nelas havia também cristãos vindos do judaísmo, que se julgavam superiores aos demais. Falando de um samaritano, Lucas espera que eles entendam: não se trata se ser melhor ou pior; eles podem até ser os primeiros em relação às promessas de Javé, mas os “fora-da-Lei” (não-judeus) demonstram mais liberdade para amar, pois não estão nem um pouco preocupados com questões de pureza (de fato, segundo a lei judaica, acudir um homem caído era correr o risco de tocar em um leproso ou outro tipo de pecador que poderia tornar seu socorrista também uma pessoa impura). Os judeus podem ser “gente do bem”, etc. e tal, mas é em seu território que o ato de violência acontece. Quem demonstra misericórdia é um estrangeiro...
Para lembrar que todos são iguais, o texto começa, inclusive, falando em uma herança. A primeira pergunta do especialista da Lei é como fazer para herdar a vida eterna (Lc 10,25). Ora, ninguém ganha uma herança por mérito. O pai a oferece gratuitamente, tanto aos filhos mais velhos (judeus) quanto aos mais novos (helenos). Nada deve ser feito pensando na recompensa, pois isso já não seria amor. Ajudar somente aos semelhantes demonstra egoísmo e corporativismo. Porém, aproximar-se (isto é, ser o próximo) até de quem nada tem a oferecer, com o desejo único de servir, isso sim é amor.
Por fim, pensemos em nossos dias. Quem são as samaritanas e samaritanos de hoje? Quem são as impuras e impuros que enxergamos com maus olhos? Os irmãos ateus, ou de outras denominações ou religiões? As pessoas cuja orientação sexual diverge da nossa? Bêbados, mendigos, presidiários e prostitutas? Jovens, mulheres, negros, índios? Desempregados, roceiros, operários? Argentinos, uruguaios, angolanos, libaneses? Nordestinos, paulistas, cariocas? É possível esperar algo de bom deles? É possível amá-los? O que falta para isso? Talvez, como o especialista da Lei, estejamos esperando o próximo tomar a iniciativa: “ah, esse aí bebe porque é vagabundo!”; “aquele lá só não trabalha porque não quer!”; “bolsa-família, cotas, vale-reclusão... e tão reclamando de quê?” Enquanto isso, quem está sendo a próxima, o próximo da nossa gente?

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Pobres (e Copas da FIFA) sempre tereis

Amanhã começa a tão falada Copa da FIFA. Embora não a reconheça como torneio mundial, não é bem disso que pretendo falar. O que tem me irritado é o cansativo refrão dos que teimam em fazer alarde sobre os gastos com a construção dos estádios. O que há de legítimo em tamanha preocupação com o dinheiro público?
Pouco antes da condenação e crucifixão, Jesus passa por uma situação onde – segundo três do quatro evangelhos – é criticado por seus próprios discípulos. A narrativa, comum e, ao mesmo tempo, muito particular a cada um dos quatro evangelistas, está em Mt 26,6-13; Mc 14,3-9; Lc 7,36-50; Jo 12,1-8. Uma mulher (anônima, dizem os sinóticos; pecadora, segundo Lucas; Maria, irmã de Lázaro e Marta, afirma João) unge a cabeça (ou os pés?) do Nazareno com um óleo caríssimo (nardo, perfume ou mirra?). Alguém (sejam os discípulos, o anfitrião, ou mais especificamente Judas Iscariotes) condena a atitude da mulher mas, principalmente, a conivência do Mestre. Exceto Lucas, a queixa é a mesma: daria para construir hospitais... digo... daria para transformar esse óleo em dinheiro – muito dinheiro – e doá-lo aos pobres. Hum... Acusação similar à de um certo refrãozinho, não!?
Num primeiro momento, a resposta de Jesus parece de um conformismo extremamente oposto ao que vinha pregando até então: “Os pobres sempre estão (estiveram e estarão) com vocês!” Por um lado, somos levadas e levados a crer que não importa o que façamos para melhorar as coisas: sempre haverá pobres em nosso meio. Mas, por outro lado – e aí é necessário pôr em prática o senso crítico para se chegar a esta conclusão – a frase enigmática do Messias pode estar a nos provocar: os pobres sempre estiveram aí, e vocês nada fizeram por eles; por que, agora, tamanha preocupação?
Paremos pra pensar em quem mais repete este refrão. Não é a oposição ao governo que está aí? E essa mesma oposição não era governo até outro dia? Essa mesma oposição não esteve anos e anos no poder? O que fizeram pelos pobres? Onde estão os hospitais e escolas que eles construíram? João, que põe a queixa contra Jesus e a mulher na boca de Judas Iscariotes, é quem melhor explica o real motivo para tanto alarde. Segundo ele, Judas era o chefe do Congresso... digo... o responsável pela bolsa comum. Com a venda do óleo, o dinheiro depositado nela poderia ser embolsado facilmente. Entendido por que tanto chororô?
Ok, sejamos francos: a construção dos estádios não tem uma função tão nobre quanto a do óleo (seja lá qual tenha sido) que ungiu Jesus. Dilma e Lula, aliás, estão longe de ser o Messias. Mas vamos procurar entender por que a oposição está fazendo tanto barulho em relação a isso. E vamos procurar pautar a crítica sobre esse megaevento pela ótica popular. É nossa missão, como anfitriões, perguntar o que essa Copa vai nos trazer e o que vai levar de nós. Alguém aí já assistiu O Banheiro do Papa? A história é interessante (clique aqui para ver o filme). Uma cidade uruguaia muito pobre, fazendo fronteira com o Brasil, prepara-se para receber a visita do Papa. A expectativa é muito grande, principalmente porque, atrás dele, virá uma multidão de brasileiros. Os uruguaios veem uma oportunidade de fazer dinheiro com o acontecimento. O protagonista, um homem muito humilde, resolve construir um banheiro. Espera alugá-lo para os romeiros. Gasta as parcas economias da família no investimento. Chegado o grande momento, a visita dura poucos instantes, ninguém lucra nada e, quando estão indo embora, os brasileiros ainda deixam atrás de si uma grande desordem e sujeira. Aos nativos resta limpar a bagunça. Para este senhor, pai de família, a situação é ainda pior, pois gastou o que não tinha e não obteve nenhum retorno. Será que não estamos indo para o mesmo caminho? Há pouco tempo, uma camiseta publicitária sugeria facilidades para o turismo sexual em nosso país. De que forma podemos nos precaver do turismo predatório? Os nossos pobres estão sendo despejados para “embelezar” as áreas por onde deverão passar os turistas e delegações. Como garantir que sejam devida e dignamente realocados? Há centenas de pessoas voluntárias trabalhando em função da Copa. Será que não se faz necessário também um voluntariado para combater, entre outros, o ambiente facilitado para o tráfico humano? A FIFA escolheu o tatu-bola como mascote da Copa 2014. Você sabia que ele é um animal com risco de extinção? Que tal solicitarmos à FIFA que aproveite o ensejo para motivar uma campanha de preservação da espécie? Essas são só algumas questões. Ao ler estas linhas, tenho certeza de que você poderá enriquecer a lista com preocupações e precauções. Mas o principal é nos perguntarmos: como combater a prática exploratória externa (a entidade FIFA e tudo o que vem junto com ela) e interna (caso dos nossos Judas Iscariotes) que oprimem e empobrecem ainda mais o nosso povo?
É disso que se trata, afinal. Como vimos, os textos bíblicos não concordam em praticamente nada. Nem em quem eram os anfitriões. No texto de João, são os irmãos Maria, Marta e Lázaro. Em Marcos e Mateus, é um tal de Simão, o leproso. Só para constar, leproso é também o significado do nome Lázaro. Mas Lucas, para garantir definitivamente o nó na nossa cabeça, nada fala sobre a doença e diz que esse Simão é um fariseu. Entretanto, apesar de tantas divergências, num ponto todos concordam: Jesus estava em Betânia, que significa “Casa dos Pobres”. Que lugar interessante para afirmar que os pobres sempre estarão conosco. É como se Ele dissesse: Só agora vocês repararam que os pobres existem? Vocês querem hospitais e escolas para eles; mas já se perguntaram o que eles querem? Vocês costumam frequentar Betânia, isto é, a casa dos pobres? Vocês conhecem a realidade dessa gente? Ou seja, quando Cristo diz que os pobres estão em nosso meio, Ele também quer perguntar: E vocês? Estão com (a FIFA ou com) os pobres?

segunda-feira, 19 de maio de 2014

FUI, VIRAM, VENCEMOS!

“Nunca se ouviu falar de ninguém que tenha
aberto os olhos de alguém que nasceu cego.
Se esse homem não viesse de Deus,
não poderia fazer nada.”
(Jo 9,22-23)

Ao passar Jesus, alguma coisa sempre acontece. O coxo anda, a surda ouve, a muda fala, o cego vê. Há tempos queria falar aos adultos sobre os jovens. Finalmente, veio Chapecó/SC e a oportunidade. Lá, descobri que a sede juvenil de entender a palavra não é menor que o desejo adulto de compreender o fenômeno juventude.

Jesus vê aquele que era cego de nascimento, segundo nos diz João, cap. 9. Parece óbvio. O contrário é que não poderia ser, não é!? O que chama a atenção, porém, é a suspeita de que essa pessoa, habituada a conviver com a cegueira desde o nascimento, não percebia isso como uma deficiência. O mesmo se dava com os participantes, que interpretaram os jovens como sendo o cego do texto, necessitando, portanto, serem “auxiliados” (guiados, na verdade) pelos adultos. Pobres vítimas do adultocentrismo! Programadas e programados, desde o nascimento, para manter o bom e velho sistema patriarcal, comandado não mais pelos chefes de família, mas igualmente dominado por uma elite masculina, branca e poderosa. Que belo susto tomaram quando perceberam como, sem querer, querendo, seu discurso estava impregnado do desejo, não de animar, mas controlar o protagonismo juvenil.

Isso faz deles pessoas ruins? Não, obviamente! Temos a cultura de culpar as vítimas. Ora, essas são cegas desde o nascimento. Quem são os culpados, então? Seus pais? Vítimas, igualmente! Vítimas à espera de manifestação divina, de um sinal dos céus, única esperança que lhes resta, muitas vezes. Gente que não se apega mais à Lei, mas espera na Justiça. Esperança de que os verdadeiros culpados de sua cegueira sejam destronados. Sofrem o peso de uma cultura opressora. Sofrem caladas e calados. São marcados na alma. Reproduzem o discurso, pois é a única coisa que entendem, é o único mundo que conheceram, enfim.

É tanta sujeira! Para ver melhor, a gente precisa se lavar. Mais que isso: é preciso renascer. Do barro viemos; o barro restaura a visão. A vida é recriada. Aperta-se uma tecla; reboot iniciado. Jesus, luz do mundo (faz sentido! Como enxergar no escuro?), faz o lodo, dizendo com isso que precisamos entender qual o sentido da criação. Principalmente, precisamos entender que não somos deusas e deuses; somos criatura. Não temos o poder sobre todas as coisas e, se algo dominamos, é por mera concessão divina. O relato da criação deixa claro que nosso papel é cuidar do jardim. Não somos os donos do campinho. Não somos os donos das nossas filhas e filhos. Da mesma forma, não deveríamos ser propriedade de ninguém. Se isso acontece, algo está errado. É preciso iluminar o caminho. Nada como a água para tirar a sujeira que nos impede de ver.
Não é à toa que a água é a matéria do batismo. Lavar-se, enxergar, é comprometer-se, mudar a postura, mudar de atitude. Isso incomoda quem está à nossa volta: “Você, um adulto, falando mal dos adultos?” Não, não estou falando mal dos adultos; estou falando que o modo como tratamos os jovens é errado. “Mas até outro dia era tu que falava mal deles!” Mas agora vejo as coisas de um modo diferente. “Ora, não me venha pregar moral de cueca!” Mudar incomoda quem está por perto, pois obriga as pessoas a repensarem suas opiniões. Ninguém gosta de ser confrontada, confrontado. Nem todos têm coragem de renascer...

Por que é preciso coragem? Ora, porque o questionamento sempre leva à origem de todos os males: o centro do Poder. Imagine que você tem uma longa caminhada na comunidade. Todo mundo te conhece, conhece teus filhos. Alguém te encontra no trabalho, numa festa, numa rua qualquer e te reconhece como aquela, aquele que toca nas missas de sábado à noite. De repente, vem um cidadão e começa a questionar os hinos da Igreja, que há mais de 20 anos são os mesmos. Como você se sentiria? Bom, o fato é que esse cara tem razão: são sempre as mesmas músicas, desde que você começou a tocar. O que fazer? Seja sincera, seja sincero ao responder. Vou dizer o que acontece normalmente: as pessoas usam o poder que o longo tempo de permanência no posto lhes confere para, mesmo reconhecendo que o outro tem razão, fazer com que toda a comunidade ignore-o. E, se o sujeito insistir, moverá céus e terras para bani-lo do convívio do grupo. Não confiamos no que não podemos controlar. Por isso, não confiamos nos jovens. Por isso, a grande mídia procura desmoralizar quem questiona a autoridade da elite dominante. Não gostamos de ser controlados, mas procuramos controlar o que nos cerca. É nossa cultura! É útil aos governantes, pois nos mantém divididos. Quando alguém percebe isso, e passa a questionar o opressor, corre o risco de ser silenciada, ser silenciado.

Onde buscar coragem para enfrentar os riscos? Nossa mentalidade de adulto manda recorrer à família. A mãe e o pai do cego do texto, com medo dos fariseus, entregaram o filho à própria sorte. Às vezes, a família é a primeira prisão do jovem: “Estuda primeiro, meu filho! Para de ficar sonhando acordado! Não te envolve em política...” Quando ele ou ela demonstra que não cabe na caixinha que seu pai e sua mãe lhe prepararam, fica desamparado: “Quando te falei, não me obedeceu, né!? Agora é por tua conta! Engole esse choro!” Nestas condições, é normal ficar desorientado. Mas é quando precisa de suas asas que normalmente o jovem se supera. Sua ousadia surpreende e desarma o adulto. A reação é instantânea: “Ou tu te molda à estrutura, ou tá fora!” Ser desafiado a voar... e pelas próprias asas! Quantos pais, quantas mães têm medo de ver seus rebentos caírem? Quantos adultos têm medo de não serem mais úteis? Mas tem aquela parcela mal intencionada... Seu medo é que isso – o voo – dê certo! Quem é capaz de voar só para se for abatida, abatido. Aves solitárias voam muito alto para ficar protegidas. Não é o caso dos jovens. Sua natureza é totalmente social, grupal. Eles voam em grupos. Isso lhes dá força, isso lhes dá coragem. Imagino que, enquanto dançava o “guli, guli”, o povo de Chapecó tenha percebido isso. Em vez de querer que sejam águias, fortes mas solitárias, é preciso aprender a voar com os jovens.

Voar em grupo e fora da estrutura... Isso é liberdade! Os fariseus expulsam o que tinha sido cego do Templo. Enquanto o longo debate ocorreu dentro da instituição, onde esteve Jesus? Ninguém o viu! Ninguém o conhecia direito, nem mesmo o curado da cegueira, que o considerava um profeta. Quando é que ele e Jesus voltam a se encontrar? Fora do Templo, fora da estrutura, fora do sistema. É nesse momento que o neovidente o reconhece como o Messias, o Filho do Homem. É como se ele fosse adquirindo a visão aos poucos. Ou seja: Para ver, basta querer! Mas não acontece de uma hora para outra. É processo... Os adultos de Chapecó levaram um final e semana inteirinho para perceber suas limitações. E não vamos dizer que saíram doutores em juventude. Mas uma coisa elas e eles aprenderam: Só vamos enxergar, de fato, quando rompermos definitivamente com esse sistema que está aí. O primeiro passo? Desconstruir nosso discurso impregnado de ideais patriarcalistas. Como? Não esperar que os jovens abracem nosso modelo de comunidade, mas ir ao encontro deles, estar com eles, caminhar com eles, ouvi-los antes de sermos ouvidos.

Quem disser o contrário, estará sendo como os fariseus. Eles se julgavam superiores quando disseram àquele que foi curado: “Tu vives todo em pecado e quer nos ensinar!” Eles perceberam desde o início que só um enviado de Deus poderia curar a cegueira do povo. Mas não podiam colocá-lo num sacrário, não tinham como controlá-lo. Então, apegaram-se à Lei, à proibição de curar no sábado. Ora, Jesus mostra que o sábado foi feito para nos lembrarmos de continuar a obra da criação. Não há outro sentido para o descanso de Deus. Os fariseus bem o sabem, mas assumi-lo é abrir mão do Poder que exercem sobre o povo, condição que lhes é mais sagrada que o próprio sagrado. Por isso, são os piores cegos. Sua postura não é de não saber; é de não querer.
Como adultos, temos duas opções: Ou manter o discurso controlador, ou abrir-se ao diferente, isto é, ao modo como o jovem vê o mundo. O povo de Chapecó disse que estava saindo quebrado do encontro. Alguns disseram que estavam com pulgas atrás da orelha, que saíam do seminário com muito mais pontos de interrogação do que quando entraram. Isso é ótimo: Ver é processo! Pulga coça, incomoda, faz a gente se mexer. Estou num ônibus, quase chegando em minha cidade: São Leopoldo/RS. Tomara que minha passagem por terras catarinenses não tenha sido como a da banda do Chico Buarque, que fez todo mundo se mexer, mas, tendo passado, tudo voltou ao lugar. Tomara que minha passagem por lá seja como a de Jesus: criadora, incômoda, transformadora e um sinal do Reino definitivo. Amém!

sexta-feira, 28 de março de 2014

LIBERDADE, LIBERDADE... PARA QUÊ? PARA QUEM?

Foi para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5,1). Todavia, decidimos que nem todos seriam livres. Coisificamos e escravizamos nossa irmã, nosso irmão, vendendo-os para o tráfico humano (Gn 37,27-28). E quando Javé perguntou onde eles estavam, respondemos soberbamente: “Acaso sou o guarda-costas de meu irmão?” (Gn 4,9).
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Mas, pela nossa ganância ou omissão, essa gente foi escravizada e condenada a trabalhos forçados, à prostituição, a ver seus órgãos vitais e suas crianças serem tratados como mercadorias, enfim, a todo tipo de exploração.
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Entretanto, o tráfico humano é mais presente e está mais perto de nós do que imaginamos. Sua raiz encontra-se nas desigualdades sociais, no acúmulo que gera a riqueza de uns e a miséria de dois terços da população mundial. Para estes, falta moradia, teto, comida, falta tudo. Quem são? Olhe pela janela! Há uma forte candidata, um forte candidato a se vender por comida bem aí na tua porta.
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Contudo, ceifamos vidas cada vez mais jovens para atender a um mercado cada vez mais exigente e voraz. Boa parcela da juventude carrega em si a vitalidade, a beleza, a volúpia, a ingenuidade e a pobreza necessárias para evitar questionamentos e satisfazer o público que procura esse “negócio”.
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Porém, em vez da liberdade, escolhemos a escravidão da idolatria. Em vez da partilha, o acúmulo; em vez do serviço, o poder; em vez da fraternidade, a exploração; em vez da solidariedade, a competição desumana; em vez do ser, o ter a qualquer custo; em vez de Javé – o Deus dos pobres –, o dinheiro.
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Mas nos libertou do quê? Paulo inicia sua carta aos gálatas dizendo que fomos libertos de um “mundo mau” (Gl 1,4). Que mundo? Ora, o mundo dos homens, pensado em formato de pirâmide. No novo mundo, porém, não há opressor nem oprimido, judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todas e todos somos um só em Cristo Jesus (Gl 3,28).
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Sabemos que somos livres quando é o Espírito que conduz nossas ações. Quando nos deixamos escravizar por nossos instintos egoístas, podemos manipular a Lei, mas não o Espírito! Este sempre nos leva à caridade, que é abrir mão dos interesses próprios em favor do bem comum (Gl 5,16). Quantas cristãs, quantos cristãos se sentem salvos e se julgam superiores porque nunca faltam aos cultos e missas? No entanto, decorar o número do disque-denúncia é o máximo que podem fazer pelos “desgraçados” (literalmente, os “fora-da-graça”, aquela gente que nega a Deus e, por isso, merece[?] sofrer). Seres humanos passando fome? Isso é falta de fé! Pode ser... Mas, se a fé faz agir pela caridade (Gl 5,6), falta fé para quem mesmo?
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. E ela é um sonho possível ainda nesta terra, aqui e agora. Que tal batalharmos por um mundo onde não haja mais pobres (Dt 15,4), onde tenhamos tudo em comum (At 4,32)? É possível? Como? Quem precisa ceder? E se ninguém ceder, o que nos inspira o Espírito? Como conseguir que uns abram mão do que têm em excesso para que outros possam ter o que precisam? Por outro lado, como organizar o povo para que sobreviva? Como impedir que nossa gente seja levada pelo tráfico? As experiências bíblicas do Êxodo e do Exílio têm algo que nos ajude nesse sentido? De que forma os profetas nos ensinam a lutar? O que podemos aprender com as primeiras comunidades cristãs, presentes nos livros do 2º Testamento?

Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Pensemos, planejemos, façamos! Somos a sociedade das filhas e filhos de Deus, amém!

segunda-feira, 17 de março de 2014

Pedaletrizando

Um ninho de paragrafos

Com vários paragrafinhos

Quem os desparagrafizar

Bom pedaletrizador será