sexta-feira, 28 de março de 2014

LIBERDADE, LIBERDADE... PARA QUÊ? PARA QUEM?

Foi para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5,1). Todavia, decidimos que nem todos seriam livres. Coisificamos e escravizamos nossa irmã, nosso irmão, vendendo-os para o tráfico humano (Gn 37,27-28). E quando Javé perguntou onde eles estavam, respondemos soberbamente: “Acaso sou o guarda-costas de meu irmão?” (Gn 4,9).
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Mas, pela nossa ganância ou omissão, essa gente foi escravizada e condenada a trabalhos forçados, à prostituição, a ver seus órgãos vitais e suas crianças serem tratados como mercadorias, enfim, a todo tipo de exploração.
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Entretanto, o tráfico humano é mais presente e está mais perto de nós do que imaginamos. Sua raiz encontra-se nas desigualdades sociais, no acúmulo que gera a riqueza de uns e a miséria de dois terços da população mundial. Para estes, falta moradia, teto, comida, falta tudo. Quem são? Olhe pela janela! Há uma forte candidata, um forte candidato a se vender por comida bem aí na tua porta.
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Contudo, ceifamos vidas cada vez mais jovens para atender a um mercado cada vez mais exigente e voraz. Boa parcela da juventude carrega em si a vitalidade, a beleza, a volúpia, a ingenuidade e a pobreza necessárias para evitar questionamentos e satisfazer o público que procura esse “negócio”.
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Porém, em vez da liberdade, escolhemos a escravidão da idolatria. Em vez da partilha, o acúmulo; em vez do serviço, o poder; em vez da fraternidade, a exploração; em vez da solidariedade, a competição desumana; em vez do ser, o ter a qualquer custo; em vez de Javé – o Deus dos pobres –, o dinheiro.
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Mas nos libertou do quê? Paulo inicia sua carta aos gálatas dizendo que fomos libertos de um “mundo mau” (Gl 1,4). Que mundo? Ora, o mundo dos homens, pensado em formato de pirâmide. No novo mundo, porém, não há opressor nem oprimido, judeu nem grego, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todas e todos somos um só em Cristo Jesus (Gl 3,28).
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Sabemos que somos livres quando é o Espírito que conduz nossas ações. Quando nos deixamos escravizar por nossos instintos egoístas, podemos manipular a Lei, mas não o Espírito! Este sempre nos leva à caridade, que é abrir mão dos interesses próprios em favor do bem comum (Gl 5,16). Quantas cristãs, quantos cristãos se sentem salvos e se julgam superiores porque nunca faltam aos cultos e missas? No entanto, decorar o número do disque-denúncia é o máximo que podem fazer pelos “desgraçados” (literalmente, os “fora-da-graça”, aquela gente que nega a Deus e, por isso, merece[?] sofrer). Seres humanos passando fome? Isso é falta de fé! Pode ser... Mas, se a fé faz agir pela caridade (Gl 5,6), falta fé para quem mesmo?
Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. E ela é um sonho possível ainda nesta terra, aqui e agora. Que tal batalharmos por um mundo onde não haja mais pobres (Dt 15,4), onde tenhamos tudo em comum (At 4,32)? É possível? Como? Quem precisa ceder? E se ninguém ceder, o que nos inspira o Espírito? Como conseguir que uns abram mão do que têm em excesso para que outros possam ter o que precisam? Por outro lado, como organizar o povo para que sobreviva? Como impedir que nossa gente seja levada pelo tráfico? As experiências bíblicas do Êxodo e do Exílio têm algo que nos ajude nesse sentido? De que forma os profetas nos ensinam a lutar? O que podemos aprender com as primeiras comunidades cristãs, presentes nos livros do 2º Testamento?

Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Pensemos, planejemos, façamos! Somos a sociedade das filhas e filhos de Deus, amém!

segunda-feira, 17 de março de 2014

Pedaletrizando

Um ninho de paragrafos

Com vários paragrafinhos

Quem os desparagrafizar

Bom pedaletrizador será

quinta-feira, 13 de março de 2014

É HORA DE TRANSFORMAR... O QUÊ?


Impulsionados pelas manifestações de 2013, os movimentos sociais têm se mobilizado para fazer de 2014 o ano da reforma política. Nada mais justo e necessário! Por isso, o grito da Semana da Cidadania, promovido pelas pastorais da juventude da ICAR: É hora de transformar o que não dá mais. Sem dúvida, um forte apelo de quem anseia por mudanças. Mas há que se perguntar: O que não dá mais? Como transformar o que nos desagrada? Transformar em quê?
Ora, transformar é ir além da forma, isto é, do que é imposto. Fazer reforma política, neste caso, é buscar algo além do que já foi tentado. Mas começar por onde? Ouvindo o rumor das ruas (uma verdadeira Torre de Babel), talvez o único consenso tenha sido a insatisfação com os nossos governantes. Coxinhas, black blocks, anonymous, comunas infiltrados, todos os grupos optaram por desqualificar as pautas alheias para legitimar as suas, muitas vezes se esquecendo até do que os levava aos mesmos espaços públicos, ou seja, quem era o inimigo comum. Esse cenário dificultou – e muito – a definição do ponto de partida.
Felizmente, passado já algum tempo, o fervor inicial dando espaço à natural acomodação, uma luz começa a surgir no fim do túnel. A onda do momento é criticar a realização da Copa no Brasil. O principal argumento é que falta saúde, educação, emprego e saneamento básico, entre outras coisas, enquanto o governo gasta milhões em estádios de futebol. A grande descoberta(?) das classes média e alta é que instaurou-se (só agora?) uma crise política em nosso país. Não por acaso, é a grande mídia que tem pautado as discussões (haja vista o espetáculo do julgamento do/s mensalão/ões). Se, por um lado, é nítida a manobra para derrubar a esquerda do poder, por outro, temos uma excelente oportunidade de debater os rumos da sociedade e do planeta.
Nesse sentido, é muito importante a iniciativa das juventudes. As grandes mudanças da nossa nação sempre tiveram os grupos juvenis no papel de protagonistas. Os primeiros a se mobilizarem quando se iniciaram as manifestações de 2013 foram os jovens e as jovens. Sinal de que os rumos da política não são assunto só de “gente grande”.
Para contribuir com as reflexões é que segue este folhetim. A iluminação bíblica – Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados (Mt 5, 6) – será o nosso guia. Abrindo o Sermão da Montanha, as bem-aventuranças (Mt 5,1-12) anunciam a concretização do Reino, aqui e agora, e prometem um tempo de justiça e solidariedade, onde a terra será de todas e de todos. Nesse dia, a humanidade verá a Deus. Começando pelos nossos municípios, a atual organização política brasileira atende a essa expectativa? Existe algum sistema, no ocidente ou no oriente do planeta, que se aproxime da proposta de Mateus? E se aprofundarmos um pouco mais... Uma reestruturação que fosse apenas política daria conta de nos levar à tão sonhada “Civilização do Amor”?
Parece-me que algumas palavrinhas-chave nos apontam necessidades não contempladas pela reforma política. O direito à propriedade, seja ela material (a terra, por exemplo) ou intelectual (expressões artísticas e patentes), passa pelas reformas agrária e tributária, entre outras. Um mundo justo e solidário só será possível mediante a reforma do poder judiciário. O acesso ao divino, enquanto não houver uma reforma (e verdadeira conversão) religiosa, dependerá sempre dos “pedagiários” líderes espirituais. E tudo isso só acontecerá quando houver uma reforma cultural, pois é impossível encontrar uma só pessoa que esteja disposta a abrir mão e partilhar uma parte do que tenha acumulado, lícita ou ilicitamente, não importando o quanto se tornem escassos os bens vitais ao restante da população.
Seria, então, uma missão impossível alcançar essa “terra onde mana leite e mel” (Ex 3,8)? Não, claro que não! Ela pertence às pessoas pobres em espírito (Mt 5,3) e praticantes da justiça (Mt 5,10). Você já percebeu que há pobres com mentalidade de rico, isto é, gente que, mesmo vivendo na mais completa miséria, preza pelo acúmulo de bens, não importa de que modo o consiga? Mateus apresenta Jesus no alto da montanha, indicando que Ele é o novo Moisés. Pois bem! Na travessia do deserto, os hebreus aprendem a partilhar o pão (Ex 16,16-21). Tendo somente cinco pães e dois peixinhos, Jesus ensina algo semelhante (Mt 14,13-21 – note que, segundo o v. 15, o cenário é o mesmo do Êxodo, isto é, deserto). Isso é ser pobre em espírito. Isso é fazer justiça. Mas perceba que não basta ser justo; é preciso cultivar uma cultura de justiça (v. 16 – “deem-lhes vocês mesmos de comer”). Ou seja, viver o Evangelho não é somente dividir os bens materiais, mas despertar na outra, no outro uma nova atitude, uma prática equivalente à de Jesus (Mt 5,48 – “sejam perfeitas e perfeitos como o Pai Celeste é perfeito”).
Finalizando, resta o apelo de Paulo, dirigido aos romanos (e romanas?), mas igualmente válido para nossos dias: “Não se conformem com este mundo, mas transformem-se, renovando suas mentes, a fim de poderem discernir qual é a vontade de Deus, o que é bom, agradável e perfeito” (essa iluminação bíblica, aliás, não seria uma boa resposta para o que se deve transformar?). Não basta exigirmos políticos melhores se não formos pessoas perfeitas como o Pai. É hipocrisia falar de injustiça quando nossa prática é injusta. Busquemos, sim, uma reforma política. Mas que ela seja centrada na busca de um novo modelo de sociedade, inclusivo, solidário, justo e humano. Só assim saciaremos (lembram-se: deem-lhes vocês mesmos de comer?) aquelas e aqueles que têm fome e sede de justiça.


quarta-feira, 5 de março de 2014

Artigo Vozes: JUVENTUDES E MEIO URBANO

O que ora segue foi meu primeiro artigo publicado sobre Bíblia e Juventudes. O ensaio consta na Revista Estudos Bíblicos nº 103, terceiro trimestre de 2009.
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“Se a Juventude viesse a faltar, o rosto de Deus iria mudar...”
(Música: “O Rosto de Deus”, de Jorge Trevisol)

Por: José Luiz Possato Junior
e Barbara Virginia Lucas

 “Um dia resolvi desenhar uma cidade. Mais... Tentei personificá-la. Pensei nela como um todo. Dei-lhe um corpo. Imaginei seus contornos, sua voz, seu estilo, suas habilidades e competências. Para não faltar com a realidade, olhei mais de perto. Vi seus movimentos, suas cores e seu ritmo acelerado. Quis, por fim, desenhar-lhe um rosto. Que dificuldade... Precisei olhar mais de perto. E então vi uma senhora com o rosto pintado de jovem. E pensei... É este o rosto da cidade onde eu moro.”[1]

No mundo controlado pelos adultos, o “rosto que vende” é o dos jovens. Quando se olha para as cidades, parece que estamos diante de um palco, onde tudo nos bastidores é dirigido por adultos, mas os artistas, aqueles que representam, que dão rosto e expressividade, aquelas que traduzem em falas e movimentos as ideias da escritora e do diretor, são as/os jovens.

É só olhar a arquitetura e tudo o que estiver relacionado ao urbanismo contemporâneo. Há um conceito futurista no ar. Tudo parece ir ao encontro do que as/os jovens pensam, procuram, usam, curtem, enfim: tudo o que consomem. Mas será assim mesmo, ou só se está à procura da jovialidade, do que há tempos homens e mulheres intentam encontrar, a saber: a Fonte da Juventude Eterna?

A promessa de ser sempre jovem traz incluso no pacote o ser para sempre bonito, charmosa, atraente, forte, viril, ágil, livre, despreocupado/a etc. Numa palavra: Infalível. Mas será que as pessoas jovens de fato se aproveitam dessas vantagens, ou têm outras preocupações, outras realidades, outras aspirações? Estariam os adultos preocupados com o que sentem e o que pensam os jovens? E estariam os jovens engajados em satisfazer suas próprias necessidades, ou aquelas que os adultos lhes impõem? Em que as cidades contribuem para essas realizações? É possível que a Bíblia ilumine também essas situações? É sobre isso – e muito mais – que passaremos a discorrer agora.

Juventude(s): Mero conceito?

Seria a Juventude uma condição biológica? Afirma a ONU que jovem é quem tem entre 15 e 24 anos de idade. Ou será uma construção social? Vão dizer os especialistas[2] que sim. E isso por quê? Durante a Revolução Industrial (séc. XVIII e XIX), o mundo todo muda. A burguesia ascende ao poder, ganhando o que Marx chamou de luta de classes. A economia, antes essencialmente rural, começa a se concentrar nas cidades, o que provoca o êxodo massivo das famílias para os centros urbanos. A família patriarcal, feudal, cede lugar à família nuclear. Um número maior de jovens agora tem acesso aos estudos. Surgem grupos juvenis organizados e articulados. A própria palavra “Juventude” só passa a ser empregada nessa época, referindo-se justamente a esses grupos. Sendo assim, concluímos que o termo, além de recente, é próprio da/o jovem urbana/o – repetimos – enquanto grupo organizado e articulado.

Óbvio que hoje temos a juventude de periferia, do morro, da favela, a juventude rural, quilombola, indígena etc. Esses grupos não pertencem àquela juventude burguesa dos séculos anteriores; suas lutas têm motivações bem diferentes. Mas podemos considerá-los juventude porque também estão organizados e articulados. O mesmo acontece com as “tribos” de grafiteiros, do hip-hop, punks, emos, étnicas, feministas, juventudes partidárias, torcidas organizadas etc. Por isso, falamos sobre Juventudes, no plural. E olhem só... Não é esse também um traço urbano: a diversidade?

Enfim, Juventudes e Meio Urbano

Voltemos à senhora com rosto pintado de jovem. Que traços das juventudes podemos ver em nossas cidades? Pra começar, elas traduzem a alegria, a festa, o paisagismo contemporâneo, as luzes, a moda, o colorido da cidade. Traduzem também a energia necessária para superar os desafios, as preocupações, as rugas. Aliás, elas traduzem ainda os sonhos de eternidade.

A visão contemporânea de mundo é futurista. Isso podemos perceber pela arquitetura, pelas artes, pelo cinema, shoppings, pela tecnologia etc. Sendo assim, quem melhor do que as juventudes, consideradas o futuro da nação, para serem “garota-propaganda” dos tempos atuais? Mas só propaganda! Nada de protagonismos...

Nenhum outro segmento é mais elogiado, retratado e perseguido pelos meios de comunicação de massa do que a juventude. Bom... Nem todo tipo de juventude, na verdade. Têm indiscutível preferência as/os jovens que são ideais de beleza, dinamismo, astúcia, aventura, humor, ação, velocidade, flexibilidade, paixão, fúria, enfim... As mocinhas e os galãs de Hollywood. Outro grupo preferido é aquele que, em tempos de constante mudança, tem o pique necessário para acompanhar o progresso. Ninguém é melhor do que esse grupo para dominar a tecnologia virtual (internet, celulares, MP5, ipod, iphone, playstation 2, wireless etc.).

Em geral, a juventude é tão ágil, esperta, sedutora, indomável, que muitos a chamam de “espírito de liberdade”. Lindo título, mas nada mais contraditório do que um espírito de liberdade aprisionado. Enquanto grupos adultocêntricos determinam que tipo de liberdade querem para as/os jovens, mantêm as características próprias – e indesejáveis – das juventudes (a saber: espírito revolucionário, questionador, aberto à novidade) sob controle.

Por outro lado, há quem chame a juventude por outros nomes. Nas missões de “paz”, ela é o pelotão de frente, a primeira a “morrer pela pátria”. No tráfico de drogas, ou ela é usuária, ou traficante. No jogo do poder, ela é ingênua demais para assumir cargos importantes; mas é útil como massa de manobra. No trânsito, parece até que só ela é imprudente. Trabalho??? Só na Igreja e demais instituições onde seja necessário alguém para carregar bancos. Obviamente, sem remuneração. Para os demais cargos, seja em que instituição for, não há vagas. Isso porque dizem que ela é desprovida de experiência.

Diante desse quadro, arriscamos dizer que há um desejo de apropriação muito forte dos aspectos juvenis geradores de força e poder, mas ao mesmo tempo um medo muito grande de que os jovens descubram ter esse poder. Afinal, a juventude privilegiada continua sendo burguesa, bonita, saudável, exemplar... Exemplar? Isso mesmo!!! Os jovens da TV são exemplos de comportamento, ou seja: absolutamente dóceis ao comando dos adultos e controlados pelos pais, professores e superiores hierárquicos.

Quem sai desse padrão, é facilmente transformado em irresponsável, delinquente, marginal. Uma turma de jovens brancos, parados numa esquina, bem vestidos, não transmite nenhuma insegurança à população. Agora, basta dois jovens negros, com roupa de motoqueiro (provavelmente trabalhando), parados, conversando, para que a vizinha da frente ligue imediatamente para a vizinha do outro lado da rua e comunique a “atividade suspeita”.

Em casa, o filho resolve torcer para um time diferente daquele preferido pelo pai, ou a filha resolve seguir uma carreira que não foi planejada pela mãe. Qual a atitude da maioria dos pais? Muitas pessoas têm que fazer terapia para se livrar da “culpa” de ter decepcionado os pais, quando na verdade estavam procurando seu próprio caminho.

Se em casa, com uma carga emocional muito forte, a relação entre adultos e jovens já é tensa, o que dizer das relações sociais onde o adulto não tem vínculo afetivo com o jovem? É o chefe que orienta a estagiária, o sargento que manda no soldado, a professora que educa o aluno etc. Quem está sempre em condição inferior?

Há um padrão a ser seguido! Como bem lembrava Renato Russo, vocalista de uma banda de rock muito querida pelas/os jovens da década de 80, há uma pergunta a ser respondida: “O que você vai ser quando você crescer?” Ninguém quer saber da/o jovem o que ela/e é agora!

O/a leitor/a pode dizer que estamos falando o óbvio; e estamos! Mas vejamos alguns dados:

“Pesquisa recentemente divulgada pela Unesco no Brasil mostra que em 2002 a taxa de homicídios na população jovem foi de 54,5 para cada 100 mil, contra 21,7 para o restante da população. E o que é mais grave: enquanto as taxas referentes ao resto da população tem se mantido relativamente estáveis desde 1980, no segmento juvenil pulou de 30 naquele ano para os 54,5 de hoje”.[3]

Haverá alguma ligação entre esses números e as obviedades às quais estamos nos referindo?

Aliás, os jovens, em especial os mais pobres, estão associados à violência, segundo o veredito popular. Hollywood mostra isso muito bem, em seus filmes de gangues. O congresso brasileiro também, na medida em que está prestes a reduzir a maioridade penal, de 18 para 16 anos, no intuito de diminuir a criminalidade no país. Não é isso o mesmo que dizer que a culpa da violência é dos jovens?

Mas será que essa violência é gratuita, uma iniciativa dos próprios jovens, ou serve aos interesses de alguém? Haveria algum grupo manipulando a massa juvenil para que se mantenha em “pé-de-guerra”? Afinal, muitos dos atos são em grupo, entre facções, entre torcidas organizadas, entre grupos rivais, alguns armados de paus e pedras, outros possuindo uma verdadeira artilharia pesada. Seriam os próprios jovens os patrocinadores dessa violência, desse armamento, dessa verdadeira guerrilha urbana?

Alguns dirão que o verdadeiro vilão, o causador disso tudo, é a droga. Mas quem é essa tal de droga? Alguém aí já apertou a mão dela, já conversou pessoalmente com ela? Como ela vai parar na mão do traficante? Por que a fiscalização, a investigação, o trabalho de inteligência e segurança e todos os mecanismos de combate à droga são tão ineficazes? Estaria alguém fazendo vistas grossas para o trânsito dessa mercadoria? A troco de quê?

Diante disso, é preciso perguntar: É da índole jovem o ser violenta/o? Ou então: A violência é exclusividade dos jovens? Provocados a responder, diremos que não! Mas então por que a maioria dos presos é jovem? E por que a maioria dos jovens presos é de afro-descendentes? E por que a quase totalidade dos presos é pobre?

As outras duas grandes preocupações dos jovens (além da violência) são a sexualidade e o trabalho. Mães solteiras, HIV-AIDS, camisinha, aborto... Primeiro emprego, experiência comprovada, estágio não (ou mal) remunerado... Não vamos nos alongar na discussão de mais esses itens. Voltaríamos a falar de obviedades. Basta dizer que, apesar de serem óbvias, as situações de exploração, exclusão, marginalização e criminalização das/os jovens continuam, são evidentes e, muitas vezes, endossadas por pessoas “esclarecidas” como nós. Com alguma freqüência, pessoas que se dizem libertadoras, acusam as/os jovens de omissão, comodismo, apatia, inexperiência, violência, irresponsabilidade... E alegam que a culpa dos desvios dessa geração se deve à sua total alienação política, social e religiosa.

Mas será este mesmo o retrato da juventude atual? Será mesmo esta uma geração de alienados? Vejamos outros números[4]:

As estatísticas (da pesquisa já citada da Unesco) mostram que os jovens estão identificados com os ideais de solidariedade, respeito às diferenças e igualdade de oportunidades (esse tipo de preocupação combina com perfis violentos?). 83% se posicionam politicamente (alienados/as?). 84% dos jovens acreditam que podem mudar o mundo (acomodados/as?).

Não podemos deixar de registrar também estes números: Embora 84% dos jovens acreditem que podem mudar o mundo, somente 22% fazem ou querem fazer alguma coisa. Seria isto sinal de comodismo, ou há outras causas?

“A resposta está, provavelmente, na pobreza de grande parte dos jovens brasileiros. Pelos dados da pesquisa do Projeto Juventude, 42% dos jovens vivem em famílias com renda de até dois salários mínimos e outros 31% em famílias com dois a cinco salários mínimos de renda... Por mais que os jovens nesta situação acreditem que a juventude pode mudar as coisas, eles sabem que têm que cuidar antes da própria sobrevivência, evitando serem tragados pela violência criminosa ou mergulhando nela, como tentativa menos pior.”[5]

“A juventude deseja ajudar o mundo a mudar e pensa em fazê-lo menos mediante a militância política do que pela ação direta. Mas a maior parte dela, antes de poder contribuir para a mudança, tem de ser ajudada... O que o “Perfil da Juventude Brasileira” deixa entrever é que os jovens brasileiros irão à luta por um Brasil melhor desde que obtenham as bases materiais mínimas de sobrevivência. Esta deveria ser a prioridade zero de qualquer programa público para a juventude, porque o futuro do país pode vir a depender dele.”[6]

Como podemos perceber, as/os jovens não são acomodadas/os, nem desinformadas/os. Eles são pressionados pelo sistema a deixar de lado suas reivindicações para providenciar o seu sustento, ou contribuir no sustento da família, ou ainda garantir o sustento de seus dependentes.

E no campo do Sagrado?

Também não é verdade dizer que falta religiosidade aos jovens de hoje. Vejamos:

Segundo pesquisas[7], podemos perceber o aumento da diversidade religiosa (de 99% de jovens católicos em 1890 para 73,6% em 2003), dos crentes sem religião e a centralidade da Bíblia na espiritualidade da juventude. Isso mostra que, longe de ser uma geração descompromissada religiosamente, trata-se antes de jovens preocupados/as com uma fé para além das instituições e em busca do sagrado.

Sabendo que fora das instituições não há como controlar um grupo – na medida em que esse grupo não se vê obrigado a seguir as regras institucionais – muitos líderes religiosos tendem a também marginalizar esses jovens, chamá-los de tolos, ingênuos, infiéis... Em vez de entender a rebeldia (que parece, mas nunca é gratuita), mais uma vez o adulto racionaliza e elege o jovem como problema. Também... Quem manda questionar as convenções milenarmente estabelecidas?

Eis uma ótima discussão a ser feita em nossas comunidades: Até onde os jovens são descompromissados com as liturgias, as festas, o bingo, o dízimo e os demais eventos da comunidade? E até onde sua rebeldia revela a discordância com o modelo vigente de evangelização de nossas igrejas?

Mas vamos, enfim, partir para a constatação que mais nos interessa no presente artigo: a centralidade da Bíblia na espiritualidade juvenil.

E por falar em Bíblia...

E a Bíblia? Será que ela pode ajudar as juventudes a se libertarem de todas essas amarras da sociedade? Se olharmos a leitura tradicional e as/os jovens na Bíblia, não! Esse, inclusive, pode ser o principal motivo de historicamente as juventudes terem reservas quanto à Palavra de Deus. Além de ser um instrumento dos adultos para castrar, impor limites aos anseios juvenis, as personagens jovens mencionadas na Bíblia são pessoas inexperientes, ou vítimas indefesas, dependentes da intervenção/libertação dos adultos, ou ainda guerreiros (notem o termo no masculino) que se tornam heróis mais por encarnarem os valores e os costumes adultos do que pelos seus feitos.

É certo dizer que o conceito de “juventude” é uma construção sociológica recente (como vimos acima) e, consequentemente, um termo desconhecido da época redacional da Bíblia. Mas isso não quer dizer que as pessoas não se organizassem em grupos. Lá, como cá, esses grupos se reuniam por afinidades, como classe social e faixa etária.

Vejamos alguns exemplos do Primeiro Testamento:

Em 1Rs 12,1-16 temos as causas da divisão do Império salomônico. O jovem Roboão ouvira as reclamações do povo, que considerava pesado o fardo imposto por seu pai, Salomão. Os anciãos aconselharam o rapaz a ser inteligente: ceder agora para reinar tranqüilo depois. Mas o conselho não agradou a Roboão, que instituiu novos conselheiros: seus colegas de infância (v. 8). Esses lhe disseram: “Torne o jugo ainda mais pesado do que fizera teu pai, que eles se curvarão”. Agora sim estava do jeito que Roboão queria; e foi o que ele fez. Com muita ironia, dizia ele que seu dedo mínimo era mais grosso do que os rins de seu pai. Resultado: “Voltemos às nossas tendas, Israel! Cuida da tua casa, Davi!” (v. 16).

O texto é uma crítica ao sistema monárquico, assim como muitos outros textos dos livros de Reis. A proposta de resistência fica bem clara no v. 16: “Já tivemos uma experiência monárquica, quando habitávamos o Egito; e não foi nada boa. Voltemos ao período das tendas, ao Israel tribal, à novidade que liberta.” Apesar de ser uma ótima proposta, o que aconteceu com a divisão do Império salomônico não foi o fim do sistema monárquico. Em pouco tempo, também as tribos do Norte foram submetidas a novo regime monárquico. Entretanto, o que chama atenção, dentro do que estamos analisando, é que a decisão de endurecer ainda mais a opressão sobre o povo não foi exclusiva do rei, mas de um grupo de jovens. Claro que sua condição juvenil não foi o fator determinante para essa manobra desastrada; pesou antes o poder da coroa. Todavia, o que queremos ressaltar é que, embora não existisse “juventude” enquanto conceito, havia sim grupos de jovens. Alguns, com poder de decidir o rumo de uma nação.

Outro grupo juvenil é o das vítimas indefesas, dependentes da intervenção/libertação dos adultos, como as mães solteiras, as jovens estupradas. É o caso de Diná, estuprada por Siquém (Gn 34,1-2). Diz a história que Siquém se apaixona por Diná, depois de tê-la violentado, e os irmãos e o pai dela fingem permitir o casamento, mas depois passam todos da casa de Siquém ao fio da espada (Gn 34,1-31). Nessa história trágica, os sentimentos de Diná são o que menos importa. Ela se enamorou de Siquém? Aprovou a barbárie que cometeram seus irmãos? Foi consultada sobre como se sentia?

Bem é verdade que outros jovens são tidos como heróis na Bíblia: Daniel e seus companheiros, os três jovens que desafiam Nabucodonosor e são jogados numa fornalha, mas não morrem queimados (Dn 3), os sete filhos que preferem a morte a comer carne oferecida aos ídolos (2Mc 7), Ester, Rute, Tobias, José e os reis Davi e Salomão, entre outros. Mas por que se tornaram heróis? Por serem jovens conscientizados, politizados, ativos na sociedade, ou por defenderem os valores morais e os princípios propostos por uma elite política, sacerdotal, patriarcal, adultocêntrica?

Davi, por exemplo! Por que motivo foi considerado um jovem exemplar? Aliás, Davi é muito mais elogiado pelos feitos da juventude do que pelos decretos reais de sua idade adulta. Mas que feitos são esses? Ora, Davi foi um herói de guerra (1Sm 17)! Sua grande glória foi ter matado um homem (Golias). Aí sua reputação ganhou força para levá-lo a derrubar Saul e se tornar o rei e futuro imperador de Israel.

Olhemos os heróis de guerra de hoje. Quem são eles, senão pessoas que na juventude abriram mão de seus ideais para defender a pátria, cuja soberania foi ameaçada por disputas de poder, embates provocados por líderes nacionais, senhores de 60, 70 anos de idade, ou mais? Davi teria matado Golias porque é próprio do jovem o ato de matar? Tudo bem... O jovem é capaz de matar... Mas Davi o matou por seus interesses juvenis? Não foi Saul que marchou contra os filisteus (1Sm 17,2)? Por que não foi Saul o autor do disparo? Ele estava lá! Não teria ele próprio oferecido sua armadura para proteger Davi (1Sm 17,38)?

Aqui cabe um parêntese, sobre a manipulação da força juvenil. Para animar seus soldados, nas duas guerras mundiais (principalmente na segunda), os EUA criaram super-heróis. Eram jovens com super-poderes, que enfrentavam as forças do mal (traduzindo: os que estavam do outro lado das trincheiras), usando somente uma capa e uma máscara. Os feitos heróicos de Davi, jovem e franzino, vencendo Golias, tinham a mesma função. Já na corte salomônica foram escritas histórias para justificar as expedições violentas dos exércitos de Davi e Salomão, cuja motivação única era expandir o seu reinado e torná-lo um império. É desse tempo a primeira redação do livro de Josué[8]. Ora, mostrando que a expansão era vontade de Javé e que a principal força de guerra vinha dos mais jovens, Davi conseguia manter seu exército poderoso e motivado. Quem sofria com isso? O povo como um todo, é claro! Mas quem ia para a frente de batalha? E tinham que ir... Era a vontade de Javé.

Sobre a visão negativa das juventudes, há um livro em especial, que não encontramos na Bíblia Hebraica, o Eclesiástico, ou Sirácida. O livro foi escrito originariamente em hebraico, no auge da dominação grega, por Jesus Ben Sirac, que vendo a cultura de seu povo ser suplantada pelo helenismo, resolveu escrever uma defesa dos costumes judaicos. Tendo se perdido o texto original, o que chegou até nós foi uma tradução para o grego, feita pelo neto do autor com o intuito de fazer perseverarem na Lei os judeus da diáspora (Eclo, prólogo, vv. 34-35).

O elogio ao sacerdote Simão II (penúltimo da linhagem sadoquita), em Eclo 51,1-21, e a identificação da sabedoria (tema do livro) com a Lei de Moisés (Eclo 24,23-29), aliados à importância dada ao Templo e ao culto (Eclo 7,29-31; 50,1-21), levam-nos a crer que o autor pertenceu à elite sacerdotal de Jerusalém.

Para se opor às escolas filosóficas, principais promotoras da cultura helênica, implantadas pelos gregos em todas as suas províncias, os judeus criaram escolas onde as/os jovens aprenderiam a tradição do judaísmo. É bem provável que Jesus Ben Sirac tivesse sua própria escola (Eclo 51,23). A iniciativa era válida e necessária para reavivar a consciência histórica do povo, mas carregava infelizmente as limitações da elite sacerdotal, como a xenofobia, o patriarcalismo e o conservadorismo extremado[9].

Como as escolas filosóficas priorizavam as/os jovens, teoricamente mais suscetíveis à inculturação dos costumes gregos, estas/es mereceram severas reprimendas do autor. Vejamos alguns exemplos[10]:

ü  Eclo 9,5: Não fites uma jovem, para não ser pego na armadilha quando ela espiar (ou, como diz na nota de rodapé: “para não ser punido com ela”);
ü  Eclo 30,11-12: Não lhe dês liberdade na juventude e não feches os olhos diante de suas tolices. Obriga-o a curvar a espinha na sua juventude, bate-lhe nos flancos enquanto ainda é menino; do contrário, uma vez obstinado, te desobedecerá e tu experimentará o sofrimento.
ü  Eclo 32,7: Fala, ó jovem, se te é necessário, se fores interrogado ao menos duas vezes.

Ser jovem, no período retratado pelo Primeiro Testamento, realmente não era fácil. Até mesmo Eclesiastes, ou Qohelet, um livro revolucionário em vários sentidos, tem lá suas ressalvas:

ü  Ecl 11,10: Afasta do teu coração o desgosto, e o sofrimento do teu corpo, pois juventude e cabelos negros são vaidade.

E no Segundo Testamento?

Será que a situação das juventudes melhora quando Jesus entra em cena? Vemos Jesus curando alguns deles: Ressuscita a filha de Jairo, chefe da sinagoga (Mc 5,21-24.35-43); ressuscita também o filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17). Ele mesmo aparece, aos 12 anos, debatendo de igual para igual com os Doutores da Lei (assuntos juvenis?). Tem o jovem rico, que cumpria as leis, mas não tinha capacidade de se desfazer do dinheiro. Mas ele só é jovem em um dos evangelistas (Mt 19,16-22); nos demais, é um adulto que observa a lei desde a juventude (Mc 10,17-22; Lc 18,18-23). Em todas as situações, o jovem precisa ser salvo, liberto, ajudado. Difícil é encontrar um/a jovem, explicitamente mencionado em sua condição de jovem, sendo protagonista.

Em Atos, nas cartas e no Apocalipse, a situação não muda muito. O tratamento destinado à juventude continua o mesmo. Com uma boa vontade tremenda podemos deduzir que Maria era jovem quando concebeu Jesus (a Bíblia não diz), que alguns dos discípulos de Jesus eram muito moços quando Ele os chamou (segundo a tradição, João teria 18 anos). Mas ser jovem parece não ter tido muita importância na compilação dos relatos.

Teriam os autores bíblicos ignorado a importância da juventude? Há um rito judeu – o bar mitzvá – pelo qual todo menino judeu passa (ainda hoje), aos 12/13 anos. É o rito de passagem da infância direto para a idade adulta. Sendo assim, à época da redação, não existiria a juventude como categoria social, mas somente como fase biológica. A partir dos 13 anos e 1 dia, o menino era um homem. Por isso fala-se de Jesus aos 12 anos; aos 12 anos também é curada a filha de Jairo. Ambos estão no período da passagem, estão se preparando para ser adultos.

Quando se diz, declaradamente, nos textos bíblicos, que a pessoa é moça, nova, de pouca idade, é porque se quer enfatizar a pouca experiência, a ingenuidade, a falta de discernimento de tal pessoa. Ou então, como nos casos dos jovens heróis, é para mostrar que Deus pode suscitar atos de bravura mesmo em pessoas ainda imaturas para a vida pública. Ou ainda para encorajar outros jovens a cometer atos de bravura pelo seu país (nada diferentes das propagandas das Forças Armadas hoje).

Por uma leitura juvenil da Bíblia

Fica evidente que, se procurarmos a/o jovem na Bíblia, vamos reforçar os preconceitos de nossa sociedade, ou iremos adotar uma postura de salvadores de uma geração à deriva. Assim sendo, contribuiremos para manter a filha de Jairo (= jovem) deitada, dada como morta, amordaçada, infantilizada, mantida sob controle, totalmente dependente, à espera da intervenção salvadora dos adultos.

Mas se, em vez disso, deixarmos que a própria juventude se interesse pela Bíblia, apodere-se dos textos, produza uma hermenêutica juvenil, qual será o resultado? Mais do que isso... Também nós, adultos, podemos nos esforçar, principalmente se julgamos fazer uma leitura libertadora da Bíblia, por ler os textos acolhendo também a prespectiva juvenil. Se, por exemplo, retomarmos 1Rs 12,1-16 e percebermos que, apesar de Roboão e seus conselheiros serem jovens, o que representavam era uma volta ao antigo, ao velho, ao sistema monárquico egípcio, enquanto as tribos do norte (haveria jovens entre eles? somente jovens?) queriam o novo, a novidade do sistema tribal, estaremos contribuindo para uma leitura juvenil.

Aliás, estaremos proporcionando uma leitura que ultrapasse a dicotomia jovem-adulto, que em vez de promover as juventudes, acirra ainda mais os ânimos e o antagonismo entre gerações. Sim, este é um risco! Para se libertar de uma leitura adultocêntrica, as juventudes podem inconscientemente reproduzir o sistema excludente e deixar as/os adultos de lado. É preciso que ambos se libertem.

Lemos acima que a Bíblia, apesar dos pesares, é central na espiritualidade das juventudes. Que tipo de leitura elas estarão fazendo? Pelo que vimos, o interesse certamente não se deve à identificação com as/os jovens que aparecem nos textos.

Em nossas experiências, vemos que as juventudes não aceitam as interpretações tradicionais das Escrituras. Estão sempre em busca de alternativas para ligar os textos à sua realidade, mesmo que muitas vezes façam uma verdadeira ginástica mental para alcançar seus objetivos; criatividade não lhes falta.

Sendo assim, por que não recriar as relações, libertar sim as/os jovens do peso da discriminação, mas também nos libertar, como adultos, do peso do preconceito, da falta de misericórdia que nos impede de reconhecer o amadurecimento como um processo a percorrer, feito por etapas, e que as juventudes podem ser inexperientes por terem percorrido um trecho menor, mas com certeza têm muito a oferecer, com seu dinamismo e santa rebeldia?

Talvez falte orientação – e aí nós adultos podemos ajudar –, mas não nos esqueçamos de que eles também possuem necessidades específicas, sonhos, ideais, uma realidade própria. E que é com essas propriedades que devemos ir com eles às Escrituras, para juntos trazermos de lá luzes que transformarão definitivamente as estruturas e dignificarão a vida, não só do jovem urbano, mas das juventudes em geral.

É assim que entendemos a parábola do Pai Misericordioso (Lc 15,11-32). O filho mais novo representa a juventude, rebelde, teimosa, sem medo de arriscar. O filho mais velho são os adultos, superiores, estáveis, prudentes. Ambos estão errados, um por não querer a graça de estar diante do Pai, o outro por achar que só ele tem direito, que estar na plenitude é viver como ele, cultivar os valores dele. E o Pai abraça a ambos, faz festa para todos. A parábola não diz se os irmãos se deram as mãos. Será que não está a nosso cargo fazer o final da história?

Concluindo: “É de sonho e de pó...”

Queremos concluir falando de utopias. Falemos de dois jovens do Primeiro Testamento: José (filho de Jacó) e Daniel (profeta do livro de mesmo nome). O que eles têm em comum? A capacidade de decifrar os sonhos.

José vai parar no Egito porque seus irmãos ficam com inveja e ódio dele e de seus sonhos (Gn 37). Por causa de uma armadilha, José vai parar na cadeia (Gn 39). Faz amizade com os colegas de cela e interpreta seus sonhos (Gn 40). Um dos colegas é liberto do cativeiro e volta à função de funcionário do faraó, que também tem um sonho. Ninguém consegue explicar que sonho é este, mas o funcionário se lembra de José e sugere ao faraó que consulte o prisioneiro; é o que faz o faraó (Gn 41). José não só explica o sonho como acaba se tornando o vice-rei, ou primeiro-ministro de então.

Pena que deste dom de interpretar sonhos José se aproveite para escravizar todos os povos da região, inclusive seu pai e irmãos (Gn 47,13-26). Mas uma coisa não podemos negar: através dos sonhos, José sabia muito bem ler a realidade. Ironicamente, os jovens são acusados de sonhar acordados, ou de ser sonhadores. Há, inclusive, um ditado que diz: “Enquanto o jovem sonha, o adulto se mantém acordado”. Mas não foi através dos sonhos que José viu a realidade?

Vamos para Daniel (Dn 2). Enquanto o faraó, na história de José, parecia ser bem benevolente, tanto que se dispôs a ouvir um preso, Nabucodonosor não parece nada amigável. Ele tem um sonho e quer que os sábios adivinhem o que ele sonhou. Como ninguém da corte consegue fazer isso, Nabucodonosor manda matar todos os magos e adivinhos da Babilônia. Daniel pergunta ao chefe da guarda real o que está acontecendo e este explica a situação. Daniel pede uma audiência e promete adivinhar o sonho do rei, fazendo questão de dizer que isso não era habilidade dele, mas ação do Deus de Israel. Ele consegue adivinhar o sonho do rei e este se prostra, convencido de que Javé é o Deus verdadeiro, o único Deus.

Ora, o Nabucodonosor histórico nunca fez isso, mas interessa perceber que também Daniel decifra sonhos. E que com isso ele consegue transformar a realidade. Esta é a função dos sonhos, das utopias. Não se trata de viver alienado, mas de projetar um futuro melhor e seguir em busca dele. Embora os dois casos citados mostrem a habilidades individuais de interpretar os sonhos, obviamente José e Daniel são símbolos de um povo. Então são sonhos que se sonha junto. É preciso sonhar, é preciso ter utopias. São elas que transformam a realidade. E a realidade de nossas juventudes só irá mudar quando não tivermos medo nem vergonha de sonhar; e sonhar alto.

Uma dedicatória

Por fim, queremos dedicar este artigo a todas as tribos juvenis, mas especialmente ao Padre Gisley, Assessor Nacional do Setor Juventude da CNBB e líder do movimento “Juventude em Marcha contra a Violência”, morto dia 15 de junho deste ano, por 4 jovens que queriam roubar seu automóvel, um deles com menos de 18 anos...

É irônico que uma liderança engajada na luta contra a redução da maioridade penal tenha morrido assim. Mas o pior é que o fato virou argumento a favor dos reducionistas. Oremos para que os nossos jovens consigam se desvencilhar desta armadilha e que a morte de Padre Gisley não tenha sido em vão.



[1] POSSATO JR., José Luiz: Entreter ou controlar?. Disponível em; http://osperegrinos.blogspot.com/2009/08/entreter-ou-controlar.html. Acesso em: 02/09/2009.
[2] Ver Intr. de DICK, Hilário. Gritos Silenciados, mas Evidentes – Jovens Construindo Juventude na História, pág. 13 a 27. Ed. Loyola, São Paulo, Brasil, 2003.
[3] Citado no artigo de SINGER, Paul: A Juventude como Coorte. Ver em: ABRAMO, Helena Wendel e MARTONI BRANCO, Pedro Paulo: Retratos da Juventude Brasileira, pág. 29. Ed. Fundação Perseu Abramo, São Paulo, Brasil, 2005.
[4] Os dados foram extraídos do artigo de SINGER, Paul: A Juventude como Coorte, op. cit., pág. 27 a 35. Os parênteses são nossos.
[5] Citado no artigo de SINGER, Paul, op. cit., pág. 35 – 1º parágrafo.
[6] Citado no artigo de SINGER, Paul, op. cit., pág. 35 – 4º parágrafo.
[7] Confira o artigo de RODRIGUES, Solange dos Santos: Nova Trindade – Busca, Fé e Questionamento. In: Revista Ciência & Vida – Sociologia: Especial sobre Juventude Brasileira, ano1 nº 2, pág. 64 a 73. Ed. Escala, São Paulo, Brasil, 2009.
[8] Ver: BOHN GASS, Ildo. Uma Introdução à Bíblia – Formação do Império de Davi e Salomão. Ed. CEBI, São Leopoldo, Brasil, 2003.
[9] Ver: BOHN GASS, Ildo. Uma Introdução à Bíblia – Período Grego e Vida de Jesus. Ed. CEBI, São Leopoldo, Brasil, 2005.
[10] Utilizamos a tradução da BÍBLIA JERUSALÉM.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Como emagreci 39 kg

E assim começa 2014, ano onde a grande novidade é a retomada de projetos antigos. Da reativação dos blogs à preparação para duas novas especializações, tudo passa pelo mais do mesmo, que estava, digamos assim, em standby.

Também pudera! Os últimos anos vinham sendo de construção/reforma da casa, conclusão do curso de Letras, adaptação à realidade de pai, à vida de funcionário público e às novas dimensões de meu corpo. Atividades muito prazerosas, indubitavelmente, mas que pouco tempo deixavam para projetos como aprofundar o trabalho com a leitura popular da Bíblia ou pegar mais intimidade com a viola, por exemplo.

Este ano, porém, já começou bem diferente. É a primeira vez, em mais de 10 anos, que entro magro no verão. Todo mundo pergunta o que eu fiz! É incrível... Mesmo as/os que mantêm aquele discurso de valorizar e incluir a pessoa, independente de cor, sexo ou peso, querem a receita. E não é pra menos! Aos 109 kg, eu sofria com fadigas, pressão alta, refluxo, azia e dores nas costas (fora o desespero de não conseguir me agachar para amarrar o cadarço do sapato). Hoje, com 72 kg, estou bem mais disposto, ágil e – o mais importante – saudável. Claro que tenho outro probleminha agora: engordar. A nutri disse que preciso ganhar pelo menos 4 kg de massa magra, e que só vou conseguir isso com exercícios físicos e mudando minha dieta. Tudo bem! Já estava fazendo musculação mesmo... Só falta voltar com os carboidratos e açúcares. O melhor de tudo é que aprendi minha lição: não posso mais nem com o cheiro de frituras e comidas gordurosas. Ano novo, novos hábitos! Projeto emagrecer: um antigo sonho que finalmente se torna realidade.

Como consegui? Bom, preciso dizer que não fiz cirurgia, não tomei remédio, nem passei fome. Mas vamos com calma! Primeiro, gostaria de dizer que, depois de três anos sem poder viajar, visitei papai, mamãe, irmãos, tios, vovô, vovó. Muita festa, muita comida, muito violão, muita possatice. Delicioso estar em família. Melhor ainda foi, pela primeira vez, D. Elvira (minha mãe) ter reunido todos os netos. Isso porque, desta vez, consegui levar a Giovanna (filha mais velha, que mora em Curitiba) com o resto da “troupe”. Pra completar, me esbaldei de tanto duetar com o meu par preferido: Barbara Lucas. Voltei de SP muito animado, querendo retomar esse antigo desejo de cantar com a minha “Réi”.

Ah, dei um gás no livro que estou escrevendo. É um romance policial. Uma novela, pra falar bem a verdade. Estava paradinho. Mas já me empolguei e, agora, as coisas se encaminham para os finalmentes. Se vou publicar, é outra história. Claro que quero! Não sei se depende só de mim. É outro desejo antigo: discutir realidades juvenis através da literatura. A primeira obra já está quase pronta, acabada... Outras virão? Sei lá! Um passo de cada vez!

Também é importante dizer: no último finde, teve Assembleia do CEBI-RS. Muito bacana esse reencontro. Apesar de não ter deixado de promover hermenêuticas bíblicas juvenis (minha paixão), alguns desgostos pessoais (por exemplo: ficar impedido de fazer o DABAR e ser escanteado no projeto de estudos bíblicos virtuais cuja iniciativa foi minha) mantiveram-me distante dos espaços institucionais. Consequentemente, tornaram-se raras as oportunidades tanto de assessoria quanto de formação. Agora, entretanto, fui eleito para compor a coordenação estadual, e a coisa já começou a mudar de figura. É tão bom se aprofundar naquilo que a gente gosta e acredita! Continuo muito chateado com a instituição, mas não posso negar o poder transformador da leitura popular da Bíblia. Quero mergulhar nesse mundo do Cristo subversivo e do Deus que caminha com seu povo cada vez mais!

Se você tiver paciência, preciso contar mais um detalhe importante, antes de irmos ao que interessa: quero ingressar, no fim do ano, em duas especializações. Ambas são alimentos da alma: Mestrado em Literatura e DABAR. A primeira é uma paixão recente. Desde que me formei em Letras, decidi que esse é o meu caminho. Ano passado, o foco era passar no Concurso do Magistério Estadual. Bom, passei! Só falta ser chamado. Agora, posso seguir em frente! Quanto ao DABAR, curso de especialização em leitura popular da Bíblia (uma espécie de pós-graduação em Teologia), é sonho antigo, que não tem mais desculpa para não acontecer, agora que tenho o diploma na mão.

Bom, era isso! Pelo visto, tem muita coisa boa pra acontecer em 2014, muitos projetos. Tudo, porém, fruto de algo que venho cultivando de longa data. O quê? Hã? Ah, sim... O que tudo isso tem a ver com o tema dessa postagem? Exceto pelo terceiro parágrafo, não muita coisa! Melhor seria ter dado o seguinte título: “Hora da retomada!” Mas fala sério! Se assim fosse, você teria lido até aqui?

domingo, 15 de dezembro de 2013

Juventudes – Tolerância e Solidariedade num Mundo Pluralista

Alguém aí duvida que estamos num mundo plural? A diversidade é um fator essencialmente humano. Temos velhos e crianças, negros e amarelos, homens e mulheres (homos ou heteros), cristãos e muçulmanos, ditadores e democratas, apolíticos e ateus, dominantes e dominados. Epa, dominantes e dominados? Sim, dominantes e dominados! Sendo assim, é possível dizer que vivemos num mundo pluralista?

Perguntinha complicada... O cara começa afirmando que o mundo é plural e, pouco depois, quer saber se ele é pluralista. Não é tudo a mesma coisa? Não, oras! Ser plural é ter, por definição, mais de uma possibilidade. Por outro lado, ser pluralista é mais que admitir a existência do diferente; é querer e promover a diversidade.

Então voltemos à pergunta: Vivemos num mundo pluralista? Bom, se aceitamos a existência de dominantes e dominados, admitamos também que aos primeiros só interessam suas próprias diferenças. Quem não pertence à elite, ou aceita as regras, ou é varrido pra debaixo do tapete. E parece que tem muita gente com medo de se misturar à poeira, pois compramos direitinho as ideias plantadas pelos nossos opressores. Assim, passamos a aceitar o diferente como errado, inferior.

Um exemplo simples: A Paz mundial. Qual é a tua ideia de Paz? Um lugarzinho afastado, no alto da serra, passarinhos cantando, o barulho da água correndo, ninguém brigando com ninguém? Ah, tá... Tira o alto da serra, os passarinhos cantando e o barulho da água, mas deixa ninguém brigando com ninguém. Que maravilha! Todo mundo se entendendo, uma comunidade sem partidos políticos, uma só religião, homens que se comportam como homens, mulheres que se comportam como mulheres, velhos e crianças respeitando seu papel na sociedade... Resumindo: Tudo correndo conforme o combinado, certo!? Pois bem... Lamento informar, mas isso não é Paz; é uma ditadura!

E o que são as elites dominantes senão um bando de ditadores? Eles ditam a moda, o uso correto da língua, a opinião da grande mídia, os comportamentos social, econômico e sexual, as boas maneiras e os bons costumes, toda a nossa cultura, enfim. É a padronização, isto é, a uniformização, prática comum até em movimentos auto-denominados ecumênicos. Quer ser bem sucedida ou sucedido, seja assim, e pronto!

Então, o que fazer!? Deixar que impere a violência, que os povos se matem? Pra começo de conversa, não há violência maior do que impor aos outros um único modo de ser, pensar, orar e agir. Isso não é harmonia, mas o auge da intolerância. O diferente não é digno sequer de solidariedade porque não deve ser incentivado. Ora, a supressão de outras culturas, outras opiniões, outras crenças, outros modos de ver o mundo, isso sim é deixar que impere a violência, é matar, isto é, extinguir as vozes discordantes.

Ao lado das mulheres, uma das principais vítimas desse sistema excludente são os jovens. Ambos são cooptados pelo padrão ditado por homens brancos, ricos e adultos. Logo, ser jovem e mulher ao mesmo tempo não é lá uma situação muito confortável. Negra e pobre, então... Mas vamos nos concentrar nas juventudes, foco desta reflexão.

Está em voga a discussão em torno da maioridade penal. Querem maior sinal de intolerância e falta de solidariedade do que isso? Responsabilizar um grupo pela criminalidade e violência do país porque é composto por jovens – e, nas entrelinhas, negros e pobres, pois para estes é que os presídios são construídos. A coisa funciona mais ou menos assim: eu ponho você à margem da sociedade por não preencher os requisitos necessários para estar entre os “eleitos”, e se você se rebelar, sofrerá as consequências. Dito de outra forma: eu crio os monstros e os alimento para, no tempo oportuno, colocá-los numa arena e proporcionar pão e circo aos meus súditos. Enquanto a população sacia sua fome de “justiça”, ninguém questiona as verdadeiras causas (e causadores) da violência.

Percebem quem deveria estar preso nessa história? Enquanto isso, os presídios vão ficando superlotados, não dos mentores, mas das vítimas de um sistema violento. Uma vez punidos, quantos se regeneram? Não acontece o contrário? A pessoa entra como ladrão de galinha e sai como membro de quadrilha organizada. É isso que queremos? Cada vez mais jovens especializados no crime? Quando vamos questionar as razões para os crimes de colarinho branco serem tratados de forma infinitamente mais branda do que o roubo de um par de chinelos? Até quando vamos dar razão a quem decide jogar sobre os jovens sua própria culpa?

Ok, apontar os culpados, por si só, não resolve. No fundo, sabemos quem eles são. Entretanto, de modo geral, a população se sente impotente para lutar contra seus verdadeiros opressores. Mas é desejo de todas e de todos vivermos num mundo melhor. E isso não é de hoje. Em seu livro, o profeta Joel narra sua imagem de um mundo perfeito: “Depois disso, derramarei o meu espírito sobre toda carne. Vossos filhos e filhas profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, vossos jovens terão visões. Até sobre os escravos e sobre as escravas, naqueles dias, derramarei o meu espírito” (Jl 3,1 – Bíblia católica; Jl 2,28 – Bíblia protestante). Homens e mulheres, livres e escravos, profetizando em pé de igualdade. Anciãos, consultados normalmente por sua capacidade de ver, isto é, analisar a realidade, sonharão. Pessoas jovens, consideradas sonhadoras (Ingênuas? Aéreas? Inexperientes?), serão capazes de ver. Que mundo perfeito... Mas conta com duas diferenças em relação ao nosso. Primeiro, isso é fruto do Espírito de Javé. Segundo, não adianta cruzar os braços e ficar esperando; é preciso lutar: “Forjai de vossas relhas espadas, e de vossas podadeiras lanças. Que o fraco diga: ‘Eu sou um herói!’” (Jl 4,10). Ou seja: Apontar os culpados não resolve, mas descobrir quem são é passo fundamental para mudarmos a realidade.

Como mudar? A concretização da profecia de Joel se dá em Pentecostes (At 2,1-12). O Espírito Santo, em forma de línguas de fogo, desce sobre todos os que estavam reunidos (portanto, não somente sobre os Apóstolos) e eles (e elas?) começam a falar em outras línguas. Os ouvintes, provenientes de diversas nações (e culturas e religiões, consequentemente), conseguem compreendê-los. Mais que isso: ficam maravilhados. O resultado já sabemos: o cristianismo se espalha pelo mundo. Porém, será que, com isso, vem junto a mensagem daquele dia? O texto não fala de conversões em massa. Aliás, não registra uma conversão sequer. Fala das línguas dos ouvintes, mas não de quais línguas eram faladas sob inspiração divina. Ora, então que mensagem é essa que deixa a todos maravilhados? Em Babel, o projeto de uma única língua, uma única cidade, uma única torre “capaz de tocar o céu” caiu por terra, e os homens (e mulheres), apesar de falar uma língua só, não mais se entendiam (Gn 11,7). Então, que línguas são essas que os homens (e mulheres) de diversas nações são capazes de entender? Não seria a linguagem do amor? Não seria o amor capaz de respeitar as diferenças e propor, em vez da uniformidade, a unidade? Não seria a unidade capaz de gerar tolerância e solidariedade entre os povos? Jovens tendo visões e anciãos sonhando não seriam um sinal dessa unidade? Conseguiríamos, portanto, mudar essa realidade de exclusão dos que não se enquadram no padrão uniformizador das elites se acolhêssemos os diferentes (jovens, negros, pobres, mulheres, estrangeiros, bêbados, prostitutas, moradores de rua...) da maneira como são? Em vez de mudá-los, não seria melhor perguntar por que não são aceitos? Visto assim, será que é muito difícil mudar?


Se queremos a Paz, preparemo-nos para a Paz. Temos que cobrar, sim, das autoridades, fazer com que respeitem nossos direitos. Mas precisamos ter ciência de que nossa luta não é só nossa. Jesus acolhia bêbados e prostitutas, mas não se tem notícia de que era bêbado e prostituto. Abraçava leprosos, mas não se tem notícia de que tenha morrido por causa da lepra. Acolher o outro não é tornar-se semelhante a ele, senão na luta por um mundo mais justo e fraterno, tolerante e solidário. Não deveria ser esta a proposta dos movimentos ecumênicos? Não seria este o papel do autêntico ecumenismo (não o uniformizador, mas o pluralista, gerador de unidade)? Estejamos atentas e atentos a isto: Os jovens querem viver! Os idosos querem viver! As mulheres querem viver! Os negros querem viver! Ora, quem é capaz de impedir isso? Esse, senhoras e senhores, é o verdadeiro inimigo.

sábado, 5 de outubro de 2013

São Francisco, um livro e a Perfeita Alegria

Estou escrevendo um livro, um romance. Chique, né!? Que experiência maravilhosa! Bom, e ontem foi dia de São Francisco, mas eu não consegui postar nada. Por isso, hoje, querendo dedicar algumas palavras ao homem cuja espiritualidade inspira a muitos, inclusive a mim -- e aproveitando o ensejo para divulgar meu ensaio --, resolvi divulgar um trecho da obra. Mas, antes, um pequeno esclarecimento: trata-se de uma carta onde um rapaz, que está num programa de proteção a testemunhas, comunica-se com seu amigo padre. O tema da história é segredo, pelo menos por enquanto. Mas tenham certeza de que tenho em vista a luta do povo e dos jovens enquanto escrevo. Então, sem mais delongas, segue um pedacinho do filho que ainda não pari totalmente:

Santa Maria, 03 de outubro de 2010.
Fraterno irmão,                    
A Paz e o Bem!          
Amanhã a gente comemora o dia do Chicão. Como eu gostaria de estar aí. O pessoal aqui é bem bacana, mas dia de São Francisco, pra eles, é um dia normal como todos os outros. Fazem falta nossas festas...
Nesses dias de exílio, faz bem meditar a Perfeita Alegria, tema tão caro ao Poverello d’Assisi. Levei anos para entender que não se trata de uma atitude passiva, um conformismo, como se o que nos acontece fosse fruto de um destino inevitável. Antes, é um estado de espírito ao qual só chegam aquelas e aqueles que gozam de plena liberdade. A Perfeita Alegria, meu irmão, consiste em não permitir que pessoas mal intencionadas e fatos desagradáveis abalem nossos ânimos, nossa fé.
Custei para chegar a essa conclusão. De início, eu pensava: “Se Francisco foi tão revolucionário, tão defensor dos pobres, como pode pensar que devíamos ficar alegres mesmo diante da pior desgraça, da pior injustiça?” Acontece, meu caro, que eu confundia alegria com gratidão. Ora, uma coisa é aceitar que o mal existe; outra é conformar-se, resignar-se, tomá-lo por inevitável vontade de Deus. Vista dessa forma, a mensagem do Irmão de Assis passou a fazer todo sentido para mim.
E como preciso exercitar a Perfeita Alegria nesse tempo de aflição... Não nasci para ser vigiado, guardado a sete chaves, impedido de estar no meio do povo. Os últimos já são os oito meses mais longos de toda a minha vida. Espero, do fundo de minh’alma, que termine logo o julgamento – e os meus agressores sejam penalizados – para que possa voltar à minha terrinha. Entretanto, como são da Brigada Militar, estou prevendo que tudo acabará em pizza, e eu terei que ficar, ad eternum, em Santa Maria.
Enfim... Chega de aborrecê-lo com as noias do meu ócio degenerativo. Vou voltar ao “amaro farniente”. Ademais, sei que estás ocupadíssimo com os jovens e as questões de tua Paróquia. Dê-me notícia de teus afazeres. Um abraço!
Atenciosamente,                    
Irmão Beto!