quinta-feira, 30 de maio de 2013

Enfim, Diplomado!

Colocando, finalmente, os pés no chão, volto a publicar neste espaço. Vivi uma experiência fantástica, minha formatura. Agora, sou graduado em Letras - Português. Entre tantos momentos maravilhosos, tive o prazer de ser o orador da turma. Eis o...

DISCURSO P/ FORMATURA DO CURSO DE LETRAS

Magnífico Sr. Reitor, aqui representado pela Sra. Diretora do Polo Novo Hamburgo, Tereza Dela Pace, professoras, colegas, familiares e demais aqui presentes, boa noite! Finalmente, é chegado o grande dia. Três anos, muitas provas e noites brigando contra o tempo, a conexão ou a plataforma congestionada (todo mundo deixando para postar na última hora), inúmeras idas e vindas a Novo Hamburgo e cinco gravidezes depois (é, senhoras e senhores, esse curso foi muito fértil, em todos os sentidos, mas, enfim...), aqui estamos nós.

Gostaria de poder dizer: “Tamo junto!” Porém, uma das primeiras coisas que aprendemos foram os níveis de linguagem. “Tamo junto” pode não estar errado, dentro do processo comunicativo, mas é inapropriado para o contexto. Por isso, em respeito a este ato solene, limito-me a dizer: “Como é bom partilhar este momento de intensa alegria com as senhoras e senhores, estimados colegas”. Entretanto, quando sairmos daqui e formos festejar com nossos parentes e amigos, poderemos dizer: “Que tri viver isso com vocês!”

Lembram-se, colegas, nosso primeiro dia de aula? Fizemos uma apresentação e externamos nossas expectativas. Uns diziam, quase chorando: “Não quero lecionar para os ‘maiorzinhos’.” Outros, ao contrário, preferiam não lidar com os anos iniciais. Um de nós, inclusive (este que vos fala), queria ser escritor. Como é bom relembrar isso agora. Será que mantivemos nossos ideais? Ou construímos novos planos? Seja como for, nós, que estamos vivenciando este momento, continuamos com uma meta. Estar aqui é cumprir a primeira etapa. Vamos relembrar o que aconteceu?

O curso foi bom, mas nos deu uma tremenda dor de cabeça. Há quem ainda trema ao simples pronunciamento da palavra “latim”. Umas e outros sofreram com o uso da crase e dos porquês. A linguística vai deixar alguns sem dormir direito por mais uns dias. E o novo acordo ortográfico? O trema se foi e não deixa saudade. Mas como saber, agora, o que se escreve junto ou separado? Vai hífen, não vai? Fora outras disciplinas. Eu, por exemplo, já deixei de orar, antes das refeições e de dormir, porque fico me perguntando: “Seria esta uma oração coordenada? Sindética ou assindética? Ou seria subordinada substantiva objetiva direta e/ou indireta?” Ah, como a vida era simples...

Não pensem, entretanto, que estou me queixando. Creio representar a turma quando digo que estamos realizando um sonho. A maioria, inclusive, já lecionava antes de iniciar o curso. Pensando bem, somos uns doidos. Só nós mesmos para pleitearmos a profissão de educadoras e educadores em um país onde a educação e a cultura não são valorizadas. Fazer o quê? Diz o ditado popular – e isso também é um saber: “o que é do gosto, é regalo da vida”.

Um ciclo termina, outro se inicia. O canudo é uma conquista mas também uma responsabilidade. Ao sair daqui, teremos a missão de levar o saber a nossos alunos. Aliás, desculpem-me... ato falho! Já se foi o tempo em que os alunos (do latim: os “sem luz”) deveriam recorrer ao mestre, detentor da sabedoria. Ouso dizer que a graduação em Letras nos trouxe uma grande e boa notícia: um novo conceito está surgindo. Educadores não portam luz; geram conhecimento. Quem se apropriar dessa novidade, sobreviverá aos desafios de lecionar no terceiro milênio.

Isso não quer dizer que o professor deve deixar de ensinar. Pelo contrário. O educador deve reaprender a lecionar, preocupado com o que o educando aprende, não só para passar de ano, mas para a vida. E o professor de Letras deve, sim, ensinar a ler. Mas, junto com as palavras, o educando precisa aprender a ler o mundo, a vida, a sociedade em que vive. Esse não é só o papel da Literatura, mas de qualquer conteúdo programático de um bom professor, uma boa professora de Língua Portuguesa. Que me perdoem os desafetos de Paulo Freire, mas não posso deixar de citá-lo: “Não basta ler mecanicamente ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”.

Bom, colegas, não quero assustá-los. Hoje é dia de festa. Sei que todos estão cientes do que nos aguarda. Semana passada, houve um concurso do Estado para o Magistério. Espero, sinceramente, que continuemos juntos, dessa vez como profissionais. Festa hoje, festa sempre. Festa não é sinônimo de irresponsabilidade, mas de alegria. Lecionar deve ser um ato de extrema alegria, senão vamos continuar contribuindo para o descaso cultural e sistêmico com a educação. Só nós podemos mudar o mundo. E faremos isso mudando as pessoas, a começar por nós mesmos. Desejo, às senhoras e senhores, sucesso!

Por fim, peço que todos baixem suas cabeças, pois faremos uma oração... coordenada assindética aditiva: “Vim, vi, venci!” Muito obrigado!

Ulbra – Canoas, 25 de maio de 2013.

domingo, 7 de abril de 2013

PÁSCOA: PACTO PELA VIDA


Não é de hoje que a Tradição, servindo à ideologia dominante, busca relativizar a dimensão sociopolítica do Evangelho. Nesta época de Páscoa, em especial, onde a liturgia atinge o seu ápice, beiram a heresia os esforços para negar o teor subversivo da mensagem de Cristo. As celebrações são pietistas, e as relações, intimistas. O individualismo e a falta de compromisso ditam as regras. Mas será esta a celebração que Deus quer?

A Páscoa, do hebraico Pessach (= passagem), é uma festa “emprestada” da cultura de alguns dos grupos fundadores das tribos de Israel. Sua origem pode estar entre os pastores semi-nômades, que imolavam um cordeiro e usavam o sangue para marcar os pórticos de entrada e saída do antigo acampamento, acreditando assim aprisionarem os maus espíritos para que não os seguissem na busca por novos pastos. Ou pode ter nascido entre os camponeses cananeus, que também possuíam um rito de passagem. Na festa da colheita, trocavam a farinha velha por uma nova. O fermento, porém, era um pedaço da antiga. Antes de “contaminar” a massa nova, comiam-se os pães ázimos (não levedados), celebrando-se assim a renovação da vida. Tempos depois, recontando a história da fuga dos hebreus, os autores bíblicos adicionaram e fundiram as duas tradições, indicando que a saga do Êxodo era a grande passagem da escravidão para a liberdade. Diante disso, não é à toa que os evangelhos apontem essa data para a ressurreição de Cristo. Assim, querem dizer que a Morte não tem a palavra definitiva, mas é só a passagem para uma nova vida, ou melhor, para a Vida, sempre nova e eterna. Seja como for, independente de cultura ou religião, a ideia é de movimento, ação, mudança.

Este é justamente o problema da Tradição: mudar vai contra o seu princípio fundamental, que é o de manter tudo do jeito como está. Mudanças são perigosas, principalmente para quem está no poder. E o que é melhor para tornar inofensivo um movimento revolucionário do que distorcê-lo? Por exemplo, dentre os ensinamentos do “lava-pés”, escolhe-se exaltar a humildade de Cristo. Ora, eis aí um termo ambíguo. É possível ser humilde e continuar explorando os outros. Tem muito empresário que anda de sandália, mas é rico às custas do trabalho de seus operários (que não usam sandálias por opção, mas pela necessidade). E o que dizer do tradicionalíssimo “Deus morreu por ti, no teu lugar”? Quem não se consumir pela culpa (por exemplo, canta-se na via-sacra: “A morrer crucificado, teu Jesus é condenado, por teus crimes[?], pecador...”) pode chegar ao outro extremo, que é o de não se comprometer com nada. Afinal, o que resta fazer quando o próprio Deus já expiou definitivamente nossos pecados numa cruz? Seja como for, as coisas ficam sempre no campo do individualismo e da subjetividade, que é a melhor maneira de impedir qualquer alteração da realidade.

Como romper com este ciclo, isto é, como realizar a passagem de uma vida alienada para um pacto de compromisso com a Vida? Penso que o primeiro passo é buscar entender os gestos de Jesus. A atitude de lavar os pés, segundo Ele mesmo explicou (Jo 13,12-17), é sinal de que o cristão deve estar a serviço. É possível ser humilde e individualista ao mesmo tempo, mas não dá pra servir a si mesmo. Um outro se faz necessário nessa relação, do qual devemos cuidar. Sim, mas... e aquela “cláusula” que nos impede de agir (= Jesus morreu por nós...)? Paulo diz que: “livres do pecado, vos tornastes servos da JUSTIÇA(Rm 6,18). A carta de Pedro vai no mesmo sentido: “Sobre o madeiro, (Jesus) levou os nossos pecados em seu próprio corpo, a fim de que, mortos para os nossos pecados, vivêssemos para a JUSTIÇA (1Pd 2,24). Vários outros textos nos remetem ao compromisso de, redimidos pela cruz, buscarmos o direito dos pobres (órfãos, viúvas, doentes...). Segundo o profeta Isaías (cf. Is 1,17; 58,6-8), isto é buscar a Justiça. Só mesmo uma leitura de conveniência para ignorar essa importante premissa, complementar à velha máxima de que Cristo morreu em nosso lugar. Portanto, resumindo, nossa missão é servir à próxima, ao próximo, buscando a Justiça e o Direito. Esse, no fim das contas, é o real significado da Páscoa.

Por isso, quando formos celebrar a festa maior das cristãs e dos cristãos, devemos saber em que implica, necessariamente, desejar uma boa Páscoa. Convido você a tornar clara sua mensagem. Se pactuar com o que vai escrito por estas linhas, externe às pessoas o que realmente deseja quando lhes diz “Feliz Páscoa”. A vizinha pode entender isso como uma saudação cordial, aquilo que se deve dizer nessas ocasiões, algo sem outro sentido além de cumprir um rito social. Seu sobrinho pode achar que você deseja vê-lo ganhar muito chocolate. A pessoa amada pode estar pensando que você quer celebrar essa data ao lado dela por muitos anos. Bom, “Feliz Páscoa” pode ser isso também. Mas não pode deixar de ser passagem. Um tempo de mudança, de conversão. Um tempo de repensar nossas relações e o que temos feito uns pelos outros. Só assim nossas saudações, trocas de presentes e festas com direito a macarronada na casa da “nonna” farão sentido.

terça-feira, 12 de março de 2013

Roteiro Bíblia e Juventudes: Saindo do Anonimato



O roteiro a seguir foi utilizado numa oficina da PJ-ICAR, mas poderá ser utilizado por grupos de jovens de todas as denominações.


Seminário de abertura dos 40 anos da PJ
São Leopoldo/RS – 09 e 10 de março de 2013

OFICINA DE BÍBLIA E JUVENTUDES
(ASSESSOR: José Luiz Possato Jr.)

PERGUNTA: Como se faz uma Leitura Popular e Juvenil da Bíblia?

Exercício => Ler Ex 18,1-12 - 1 Jetro, sacerdote de Madiã e sogro de Moisés, ficou sabendo de tudo o que Javé havia feito com Moisés e com seu povo Israel: como Javé havia retirado Israel do Egito. 2 Quando Moisés mandou sua mulher Séfora de volta, Jetro, sogro de Moisés, recebeu-a 3 junto com os dois filhos. Um deles se chamava Gérson, porque Moisés dissera: “Sou imigrante em terra estrangeira”. 4 O outro se chamava Eliezer, porque: “o Deus de meu pai é minha ajuda e libertou da espada do Faraó”. 5 Acompanhado da mulher e filhos de Moisés, Jetro foi encontrar-se com ele no deserto onde estava acampado, junto à montanha de Deus. 6 Informaram a Moisés: “Sua mulher e seus dois filhos estão aí juntamente com seu sogro Jetro”. 7 Moisés saiu para receber o sogro, inclinou-se diante dele e o abraçou. Os dois se cumprimentaram e entraram na tenda. 8 Moisés contou ao sogro tudo o que Javé tinha feito ao Faraó e aos egípcios, por causa dos israelitas. Contou também as dificuldades que tinham enfrentado pelo caminho e das quais Javé os havia libertado. 9 Jetro ficou alegre por todos os benefícios que Javé tinha feito a Israel, libertando-o do poder egípcio. 10 E disse: “Seja bendito Javé, que libertou vocês do poder dos egípcios e do Faraó. Ele arrancou este povo do poder do Egito. 11 Agora eu sei que Javé é o maior de todos os deuses, pois quando eles tratavam vocês com arrogância, Javé libertou o povo do domínio egípcio”. 12 Depois, Jetro, sogro de Moisés, ofereceu a Deus um holocausto e sacrifícios. Aarão e todos os anciãos de Israel foram e fizeram a refeição com ele na presença de Deus. (versão Ed. Pastoral online)

Questões:
1)   Que personagens aparecem no texto?
2)   Quem são os protagonistas? Algum/a deles é jovem?
3)   No v.6, quem é anunciado primeiro a Moisés?
4)   Quem entra com Moisés na tenda? O que fazem lá dentro?
5)   O que acontece com Séfora e os filhos no fim da história?
6)   Em que momento/s a juventude é deixada do lado de fora da tenda, isto é, fica excluída do núcleo de tomada de decisões?
7)   Quando Jesus é questionado por uma estrangeira (Mt 15,21-28), a postura decidida da mulher faz com que ela seja notada, isto é, saia da marginalidade. Que outros trechos podem ser citados nesse sentido?
8)   Como esses textos nos ajudam no processo de empoderamento juvenil?

Mateus 15,21-28 - 21 Jesus saiu daí e foi para a região de Tiro e Sidônia. 22 Nisso, uma mulher cananeia, que morava nessa região, gritou para Jesus: “Senhor, filho de Davi, tem piedade de mim. Minha filha está sendo cruelmente atormentada por um demônio.” 23 Mas Jesus nem lhe deu resposta. Então os discípulos se aproximaram e pediram: “Manda embora essa mulher porque ela vem gritando atrás de nós.” 24 Jesus respondeu: “Eu fui mandado somente para as ovelhas perdidas do povo de Israel.” 25 Mas a mulher, aproximando-se, ajoelhou-se diante de Jesus e começou a implorar: “Senhor, ajuda-me.” 26 Jesus lhe disse: “Não está certo tirar o pão dos filhos e jogá-lo aos cachorrinhos.” 27 A mulher disse: “Sim, senhor, é verdade; mas também os cachorrinhos comem as migalhas que caem da mesa de seus donos.” 28 Diante disso, Jesus lhe disse: “Mulher, é grande a sua fé! Seja feito como você quer.” E, desde esse momento, a filha dela ficou curada.

Ajudando a reflexão:
A reunião de um grupo de homens numa tenda, com o intuito de fazer memória da intervenção divina e honrá-la por meio de rituais e sacrifícios, indica-nos com toda certeza que este é um texto de tradição sacerdotal. Portanto, trata-se de um escrito do pós-Exílio, onde o poder interno, tanto político quanto religioso, está centrado no Templo de Jerusalém. O domínio econômico e militar é exercido por um imperador estrangeiro, não necessariamente o Faraó egípcio, mas certamente um opressor indesejado. Nesse momento crítico, a memória do Êxodo ajuda a animar a caminhada.
Porém, na luta por libertação, de alguma forma, há sempre o risco de se reproduzir os mecanismos da opressão. Assim, as mulheres e crianças (e podemos incluir aí os jovens), mesmo que insistam em se fazer presentes (depois de Moisés ter despachado Séfora e os filhos para a casa do sogro, ela bate novamente à “porta” de sua tenda), são impedidos de participar das decisões.
Essa dominação histórica atravessa os séculos até chegar aos tempos de Jesus e encontrar uma mulher cananeia que questiona a estrutura e, com isso, muda a crença e a trajetória do próprio Cristo. O texto de Mateus, escrito para judeus da diáspora provavelmente, mostra o momento exato em que o Evangelho se abre aos não-judeus, usando nada mais simbólico do que uma mulher estrangeira, ou seja, uma personagem duplamente excluída pela sociedade judaica da época.
Chama atenção a postura dos discípulos: “Manda embora essa mulher porque ela vem gritando atrás de nós” (v.23b). Lendo as entrelinhas, é possível entender o seguinte: “Manda essa mulher embora porque a gritaria é grande e já desperta os olhares dos demais. Mulher, criança e jovem têm que saber se pôr no seu devido lugar. Que palhaçada é essa de ficar fazendo reivindicações? Já pensou se a moda pega?” São tão próximos de Jesus que sofrem a tentação de querê-lo só pra si. Não entendem que a Boa nova é para todos os povos.
O próprio Jesus entende que a preferência é dos israelitas. Compara a mulher a um cachorrinho, digno apenas do que “cai da mesa”. Porém, a reação dela o desarma completamente. Em vez de protestar, ela procura demonstrar que nem o direito às migalhas está sendo respeitado. Derrotado, não resta outra coisa além de atender ao pedido.
É interessante, ainda, notar o movimento de aproximação da mulher. Ela começa a narrativa gritando. Ou seja, está tão longe (ou abafada?) que não é fácil escutá-la. Porém, a insistência é tanta que começa a incomodar. Já não sendo possível ignorá-la, nada mais impede que ela se coloque de joelhos aos pés de Jesus. O desfecho é lindo, digno de um retrato. Mas um quadro imóvel não faria jus ao que realmente está em jogo nesta cena: quando os espaços não são dados; devem ser conquistados.
Hoje, olhando a realidade de nossas jovens e nossos jovens, urge perguntar: Quais são os seus espaços? A quais elas e eles têm direito? Estão sendo respeitados? O jovem participa das decisões políticas do nosso país? O que é preciso fazer para sair da invisibilidade? Buscar respostas para estas questões – e outras a elas relacionadas – é fundamental para definirmos o norte da nossa caminhada.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

TRAGÉDIA EM SANTA MARIA: HORA DA PROFECIA

Santa Maria/RS, 27 de janeiro de 2013. Ninguém irá se esquecer dessa data tão cedo! Quer dizer... é o que se espera! Mais de 230 mortes desnecessárias e perfeitamente evitáveis. Mas... por que aconteceram?

Sabem que, apesar de comovido, eu não havia pensado no assunto a fundo ainda. Mas hoje, vendo minha esposa chorar, percebi o quanto somos acomodados e alienados. Em seu desabafo, pura denúncia profética: “Todo mundo crucificando o gurizinho (sim, ele também é um jovenzinho) que iniciou o incêndio, mas ninguém fica revoltado com o funcionário público preguiçoso ou corrupto (e, aqui, não estamos falando de todos, mas de uma parcela que, de fato, o é) que faz vistas grossas para o alvará vencido, ou assina uma licença sem saber o que, de fato, está assinando! Ninguém se lembra do bombeiro que não interditou um lugar sem as mínimas condições de segurança! Cambada de hipócrita! São muito mais culpados do que os músicos, que, no fim das contas, queriam só divertir a turma”.

Ouvi tudo calado. Não chorei, mas devo ter corado de vergonha. Até então, tudo o que eu tinha lido/ouvido a respeito se limitava a cartinhas de solidariedade, reflexões sobre o que a morte e a dor teriam a nos ensinar, além de análises muito supérfluas, sempre buscando culpados entre os que estavam na boate naquela noite. O que mais me irritou foi um texto falando que Deus quis fazer uma festa(?) no Céu e, por isso, levou a gurizada, deixando-nos na saudade. Ora, a quem poderia servir esse tipo de pensamento? Foi Vontade de Deus, então!? Mas que bando de covardes somos nós! Enquanto culpamos Deus, os verdadeiros responsáveis continuam decidindo nossas vidas.

Meu Deus, que ótima oportunidade de sermos profetas de verdade! Ok, as cartinhas de solidariedade são legais, demonstram nosso interesse (ou o tamanho dele, pelo menos)... Mas cadê a coragem de denunciar todo um sistema responsável pelo extermínio de jovens? Esses morreram asfixiados ou queimados, mas quantos morrem lentamente, com “pílulas coloridas” amplamente distribuídas nas raves? Quantos morrem lentamente, todos os dias, embaixo de um viaduto, aparentemente invisíveis? Esses mesmos, que morreram em Santa Maria, teriam sido vítimas de um suborninho aqui, uma propininha ali, essas coisas que “agilizam” a liberação das atividades de um estabelecimento? Cadê a coragem profética de denunciar essas práticas que só visam o lucro? E não estou falando dos seguranças, que fecharam as portas com medo da gurizada sair sem pagar o ingresso. Mais gananciosos são os membros do cartel do entretenimento, para os quais não importam as pessoas, mas o que elas estão dispostas a pagar por diversão. Esses criam necessidades, determinam o que realmente é divertido, não nos dando a chance de decidirmos o que realmente queremos. Mais uma vez... são outros os que decidem por nós. Até quando?

Não chora, meu amor! Ou melhor, se vai chorar, saiba que estou aqui, solidário ao seu sofrimento. Agradeço por abrir meus olhos. Se ninguém mais quiser denunciar as maldades dessa sociedade corrupta e hipócrita, falemos nós! Um dia, alguém nos escutará!

domingo, 23 de dezembro de 2012

A Greve dos Coveiros

Passado um longo e maravilhoso inverno, estou de volta ao mundo virtual. O lado bom dessa ausência foi poder curtir a casa nova. Ruim mesmo foi essa sensação de estar desconectado.

Pra quem estava acostumado a "voar", ter que reaprender a utilizar uma conexão quase discada está sendo complicado. Estou ensaiando postar alguma coisa aqui faz dias, mas é desanimador esperar as páginas e outros conteúdos carregarem.

O presente vídeo, porém, vale a pena. Foi o resultado do meu último estágio. Trabalhei literatura com jovens do 3º ano do Ensino Médio. A peça a seguir é uma interpretação livre do capítulo 66 da segunda parte do livro Incidente em Antares, de Érico Veríssimo. O título do esquete é "A Greve dos Coveiros".

Espero que gostem! À turma 2332 do CAIC Madezatti e à "Sora" Adriana Cristianetti, um especial agradecimento. Primeiro, vocês foram maravilhosos. Segundo, sem o apoio e a participação de vocês, eu nunca teria chegado ao final dessa etapa gloriosa.

O curso de Letras está chegando ao fim, mas o trabalho está só começando... Ser professor vai ser uma ótima oportunidade de lutar pela/com a juventude, minha bandeira desde 1992.




Obs.: Ah, sim... BOAS FESTAS e um ótimo 2013!

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

QUANDO O DISCURSO VAI PRO BURACO

------------------------------------
O causo a seguir é uma adaptação de um dos esquetes do curso de Teatro e Bíblia, realizado no Rio Grande do Sul, voltado especialmente para o público juvenil, mas já adaptado, em diversas ocasiões, para outros grupos. Espero que gostem...
------------------------------------
Estavam todas e todos a postos. O Presidente, Bíblia em punho, daria início à reunião. Não havia quem não admirasse o modo do Seu Zé interpretar as Escrituras. E ele dizia:
– Fazer justiça ao órfão, defender a causa da viúva, amados irmãos e irmãs, é socorrer os pobres, os marginalizados de hoje...
Várias cabeças balançando em sinal de aprovação. E ele prosseguia:
– Bem, pessoal! Hoje, retomamos o projeto social da nossa Igreja. Cumpre a nós continuar defendendo os órfãos e as viúvas do nosso tempo. Chamei vocês aqui porque tem trabalho pra todo mundo...
No meio da conversa, eis que entra D. Sílvia, a cara entre assustada e aflita. Todos percebem sua angústia. Alguém puxa uma cadeira:
– Sente-se, minha senhora! Quer um copo d’água?
– Não, obrigada! Eu só vim porque tenho um problema e me disseram que vocês poderiam ajudar.
Seu Zé olha pro céu, agradece a Javé, o Deus dos pobres, que enviou aquela mulher para confirmar que a Obra é de Seu agrado.
– Pois a senhora veio ao lugar certo. Como é o seu nome?
– Sílvia! Eu vim aqui porque tem um buraco na minha rua. Já falei com a prefeitura, com a agência de saneamento, as companhias de luz e telefone, e nada! Ninguém tá nem aí! E olhe que é ano eleitoral...
– Pois olhe... É até melhor assim. Ficar devendo favor pra político é um atraso de vida. Mas me diga, D. Sílvia, a senhora trabalha?
– Faço meus bicos...
– A senhora sabia que estamos iniciando um grupo de ação social aqui na Igreja? Desenvolvemos vários trabalhos muito legais que podem envolver toda a família. Hoje, por exemplo, faremos uma oficina de panificação.
– Hum...
– Como é a vida lá na sua rua? O pessoal é bem pobre, né!
– É, mas...
– Quantos filhos a senhora tem?
– Oito.
– Oito? Sabia que temos um trabalho específico para as crianças? Inclusive, nos dias de celebração, elas ficam com algumas gentis senhoras da comunidade que adoram contar historinhas bíblicas.
– Mas eles são grandinhos...
– Bom, então os mais velhos podem participar do grupo de jovens. Pelo menos, enquanto estão na Igreja, sabemos que não estão em más companhias, metidos em algum problema...
– Epa, peraí só um minutinho! Meus filhos não são muito de Igreja, vá lá... Mas nunca se envolveram com drogas ou coisa pior. Eles são trabalhadores, somos gente honesta...
– Calma, D. Sílvia, é modo de falar... É que esses jovens de hoje andam tão carentes de orientação...
– Não os meus filhos, isso eu lhes asseguro.
– Ok, ok, não precisa se zangar! Olha só... Que tal a senhora vir participar aqui com a gente. Temos um monte de outras coisas bacanas pra fazer. Às quartas é dia de entregar cestas básicas para as famílias carentes.
– Hum, tem um pessoal lá perto de casa que está mesmo precisando...
– Então, viu que legal! A senhora pode ajudá-los.
Seu Renato achou melhor reforçar o argumento do Seu Zé:
– E, certamente, a senhora vai se sentir bem por isso.
Seu Zé, que já havia falado sobre fazer o bem sem esperar recompensa, emenda:
– Claro, ajudar os outros sempre faz a gente se sentir melhor. Mas fazer o bem aos pobres é, antes de tudo, dever evangélico.
D. Sílvia, tentando assimilar tanta informação, limita-se a um aceno de cabeça, como quem está ponderando sobre o assunto. Sentindo a hesitação, Seu Zé faz outra proposta:
– E que tal o grupo das merendeiras? Elas fazem um sopão para reforçar o lanche que as crianças mais carentes ganham na escola. O que sobra, eu e alguns amigos aqui da comunidade distribuímos, junto com cobertas, para esquentar a noite dos moradores de rua.
– Olha, parece interessante... Mas vem cá! E o buraco lá da minha rua?
D. Olívia, que até aquele momento estava de espectadora, não se conteve:
– Ih, dona! Tando aqui com a gente, a senhora nem vai mais lembrar que o buraco existe.
D. Sílvia agradeceu e foi-se embora. Dizem que fundou uma associação de moradores do bairro. Continua brigando com a prefeitura por causa de outros buracos. O grupo de ação social? Vai muito bem! Hoje, a oficina é de tricô e crochê.

sábado, 25 de agosto de 2012

ONDE MORA O JOÃO-DE-BARRO


Que maravilha é poder viver o sonho da casa própria. O meu, por exemplo, já está quase realizado. Quer dizer... A primeira etapa do sonho já está quase pronta. Quando for entregue a chave (e que demora, meu Deus!), a residência ainda vai ser mais da Caixa Econômica do que minha. Mas, mesmo assim, que deliciosa espera, como é divertido namorar a obra, visitá-la, ver os seus progressos, ficar irritado com a demora, cobrar uma melhoria, enfim, ocupar-se com o que é (ou ainda vai ser) seu.

Agora vejam vocês! A casa, por enquanto, é da CEF. Entretanto, quem está pagando o IPTU sou eu. Tudo bem... Em breve, terei o direito de morar no que ainda não é totalmente meu. Mas, pensando na serventia do IPTU, além da coleta do lixo, alguém sabe me dizer que benefícios mais eu terei? Interessante pagar um imposto que me dá direito de morar no que é meu, não acham!? Ah, mas que papo de doido! Que tolo sou eu por pensar que imposto implica em benefícios. Imposto, o nome já diz, é uma imposição. Sendo assim, impõe quem pode, do verbo “Poder”, obedece quem tem juízo. Se fosse pra dar retorno, chamar-se-ia Investimento, não é mesmo!? Mas existem problemas maiores...

Certa vez, participei de um curso de lideranças cristãs. Lá pelas tantas, me saíram com a seguinte pergunta: “Qual a diferença entre a construção da casa do João-de-Barro e a nossa?” Anos depois, segui reproduzindo o curso, sempre fazendo a mesma pergunta. Porém, somente agora entendo a genial sacada da comparação. O que é necessário pra que o João-de-Barro more no que é seu?

De fato, são muitas as diferenças. A começar pelo fato de que a ave é brutal e machista. Se a fêmea o trai, é trancafiada no ninho, deixada para morrer. O ser humano resolve a questão na justiça. Quer dizer... Salvo casos extremos, onde a parte ofendida picota o traidor e o coloca em malas de viagem. Mas enfim... Normalmente busca-se uma alternativa legal para o problema.

Questões idílicas à parte, as diferenças não param por aí, mas (desculpem o irresistível trocadilho) vamos por partes. Embora alguém tenha me dito, certa vez, que viu um João-de-Barro roubando(?) cimento de uma construção, até onde se sabe, esses passarinhos costumam construir suas casas com barro. Nossa espécie, teoricamente mais evoluída, aprendeu a utilizar, além do cimento e do barro, uma série de materiais como madeira, gesso, piche, tapume, palha, lajota, pedra etc. Além disso, eles têm um só modelo de fabricação, utilizado para uma única finalidade. Nós, ao contrário, fazemos construções quadradas, redondas, triangulares, mistas, empilhadas, isoladas, muradas, improvisadas, bem planejadas etc. Normalmente, não usamos o mesmo espaço para dormir, trabalhar, comer, evacuar, relaxar, rezar, prosear, estudar, malhar, gozar... Na maioria das vezes, ninguém confunde um banheiro com uma cozinha, uma academia com um escritório e assim por diante.

Outra comparação (que eu, particularmente, considero bem romântica) diz respeito ao meio ambiente. O João-de-Barro se molda às condições do solo (matéria-prima), da árvore (ou poste), do clima etc. O ser humano, ao contrário, transforma o meio em que vive. Até aí, vá lá... O problema é ver, nisso (e alguns cursistas, mais beatos, chegavam a forçar essa conclusão), o chamado de Deus para dominar a criação e subjugá-la. Uma cosmovisão muito bonita, não fosse o que o ser humano faz com a natureza em nome de uma interpretação fundamentalista da Bíblia. Certamente, não foi para passar com patrolas por cima de animais, ou destruir ecossistemas, ou alterar profundamente as condições climáticas que o Criador colocou-nos no topo da criação.

Houve quem quisesse enaltecer o espírito naturalmente(?) cooperativo da espécie humana. O João-de-Barro trabalha sozinho e com o próprio bico. Meu pai até que tentou erguer nossa casa sem ajuda, mas precisou da família para carregar tijolo, água e cimento, limpar as ferramentas ao final do dia etc. Todo esse material feito por outras mãos, diga-se de passagem. Além disso, como não dominava a técnica do reboco, teve que contratar um pedreiro para o acabamento. Outras pessoas também fazem assim, ou trabalham em mutirão, ou contratam uma empreiteira ou um pedreiro. O fato é que ninguém constrói sozinho.

Enfim... Dá pra viajar um monte nas diferenças e semelhanças entre o ser humano e os animais. Mas ninguém – nem eu (não com a intensidade de hoje, pelo menos) – parecia sequer desconfiar que estava no meio de uma palestra chamada “Dignidade da Pessoa Humana”. Ora, a grande diferença está aí. Todo João-de-Barro tem onde morar; isso ninguém discute. Já, o ser humano, para viver com dignidade, precisa conquistar: o direito de morar, comer, vestir-se; o direito à saúde, educação, trabalho, lazer etc. Ah, sim... E acesso à internet. Quem não tem e-mail, hoje, simplesmente não existe.

E como conquistar um direito, hoje e em qualquer época da civilização humana? Tendo poder e/ou influência. No maldito sistema atual (a saber: o capitalismo neoliberal), é preciso ter (capital) para ser. O dinheiro determina quem pode e quem influencia. Quem não tem, mora na rua, de aluguel, em ocupações clandestinas, casas abandonadas... Isto é, depende de quem tem (caso do aluguel), ou do governo (planos habitacionais), ou dá seu jeito.

É triste, mas alguns têm de mais, outros de menos (ou nada). Estes últimos têm sua dignidade ferida, uma vez que não possuem direito sequer ao seu próprio pedaço de chão. Isso é muito mais grave e merece muito mais atenção do que o material com que joões-de-barro e pessoas constroem suas habitações. Não seria bom se, como as aves, pudéssemos habitar esta terra simplesmente pelo fato de termos nascido?

No fim das contas, quando Jesus fala sobre os lírios do campo e as aves do céu (Mt 6,25-34), está fazendo a mesma reflexão. Há quem veja nisso um conselho do Mestre para cruzarmos os braços e ficarmos esperando as coisas caírem do céu. Cristo fala, de fato, para não nos preocuparmos, mas com coisas mesquinhas, de forma egoísta. É fato que quem garante para si o sustento, via de regra, pouco se importa com quem passa necessidade. E quem luta pelo seu pedaço de pão, assim que o consegue, dá as costas para os que, até então, eram companheiros de labuta. Mas a proposta é justamente para que sejamos o oposto disso.

O texto fala para, antes de tudo, buscarmos o Reino de Deus e a sua Justiça. Essa é a garantia de que todas e todos viverão com dignidade. O Reino é um eterno mutirão, onde há moradia para todas e todos. Portanto, o desejo de Jesus é que subvertamos a lógica do sistema capitalista. Em vez do acúmulo, a partilha. Em vez do egoísmo, a fraternidade. Em vez da exploração, a cooperação. Em vez da dominação, o serviço.

Se isso não acontece, pelos menos duas devem ser as nossas práticas. Uma é a denúncia de um sistema injusto. Outra é a luta por um mundo melhor. Por isso, mesmo feliz com minha nova aquisição, não posso, não quero me esquecer de quem não tem onde “reclinar a cabeça”, assim como reafirmar a luta para que todas/os tenham vida, e a tenham em abundância.