segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

TRAGÉDIA EM SANTA MARIA: HORA DA PROFECIA

Santa Maria/RS, 27 de janeiro de 2013. Ninguém irá se esquecer dessa data tão cedo! Quer dizer... é o que se espera! Mais de 230 mortes desnecessárias e perfeitamente evitáveis. Mas... por que aconteceram?

Sabem que, apesar de comovido, eu não havia pensado no assunto a fundo ainda. Mas hoje, vendo minha esposa chorar, percebi o quanto somos acomodados e alienados. Em seu desabafo, pura denúncia profética: “Todo mundo crucificando o gurizinho (sim, ele também é um jovenzinho) que iniciou o incêndio, mas ninguém fica revoltado com o funcionário público preguiçoso ou corrupto (e, aqui, não estamos falando de todos, mas de uma parcela que, de fato, o é) que faz vistas grossas para o alvará vencido, ou assina uma licença sem saber o que, de fato, está assinando! Ninguém se lembra do bombeiro que não interditou um lugar sem as mínimas condições de segurança! Cambada de hipócrita! São muito mais culpados do que os músicos, que, no fim das contas, queriam só divertir a turma”.

Ouvi tudo calado. Não chorei, mas devo ter corado de vergonha. Até então, tudo o que eu tinha lido/ouvido a respeito se limitava a cartinhas de solidariedade, reflexões sobre o que a morte e a dor teriam a nos ensinar, além de análises muito supérfluas, sempre buscando culpados entre os que estavam na boate naquela noite. O que mais me irritou foi um texto falando que Deus quis fazer uma festa(?) no Céu e, por isso, levou a gurizada, deixando-nos na saudade. Ora, a quem poderia servir esse tipo de pensamento? Foi Vontade de Deus, então!? Mas que bando de covardes somos nós! Enquanto culpamos Deus, os verdadeiros responsáveis continuam decidindo nossas vidas.

Meu Deus, que ótima oportunidade de sermos profetas de verdade! Ok, as cartinhas de solidariedade são legais, demonstram nosso interesse (ou o tamanho dele, pelo menos)... Mas cadê a coragem de denunciar todo um sistema responsável pelo extermínio de jovens? Esses morreram asfixiados ou queimados, mas quantos morrem lentamente, com “pílulas coloridas” amplamente distribuídas nas raves? Quantos morrem lentamente, todos os dias, embaixo de um viaduto, aparentemente invisíveis? Esses mesmos, que morreram em Santa Maria, teriam sido vítimas de um suborninho aqui, uma propininha ali, essas coisas que “agilizam” a liberação das atividades de um estabelecimento? Cadê a coragem profética de denunciar essas práticas que só visam o lucro? E não estou falando dos seguranças, que fecharam as portas com medo da gurizada sair sem pagar o ingresso. Mais gananciosos são os membros do cartel do entretenimento, para os quais não importam as pessoas, mas o que elas estão dispostas a pagar por diversão. Esses criam necessidades, determinam o que realmente é divertido, não nos dando a chance de decidirmos o que realmente queremos. Mais uma vez... são outros os que decidem por nós. Até quando?

Não chora, meu amor! Ou melhor, se vai chorar, saiba que estou aqui, solidário ao seu sofrimento. Agradeço por abrir meus olhos. Se ninguém mais quiser denunciar as maldades dessa sociedade corrupta e hipócrita, falemos nós! Um dia, alguém nos escutará!

domingo, 23 de dezembro de 2012

A Greve dos Coveiros

Passado um longo e maravilhoso inverno, estou de volta ao mundo virtual. O lado bom dessa ausência foi poder curtir a casa nova. Ruim mesmo foi essa sensação de estar desconectado.

Pra quem estava acostumado a "voar", ter que reaprender a utilizar uma conexão quase discada está sendo complicado. Estou ensaiando postar alguma coisa aqui faz dias, mas é desanimador esperar as páginas e outros conteúdos carregarem.

O presente vídeo, porém, vale a pena. Foi o resultado do meu último estágio. Trabalhei literatura com jovens do 3º ano do Ensino Médio. A peça a seguir é uma interpretação livre do capítulo 66 da segunda parte do livro Incidente em Antares, de Érico Veríssimo. O título do esquete é "A Greve dos Coveiros".

Espero que gostem! À turma 2332 do CAIC Madezatti e à "Sora" Adriana Cristianetti, um especial agradecimento. Primeiro, vocês foram maravilhosos. Segundo, sem o apoio e a participação de vocês, eu nunca teria chegado ao final dessa etapa gloriosa.

O curso de Letras está chegando ao fim, mas o trabalho está só começando... Ser professor vai ser uma ótima oportunidade de lutar pela/com a juventude, minha bandeira desde 1992.




Obs.: Ah, sim... BOAS FESTAS e um ótimo 2013!

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

QUANDO O DISCURSO VAI PRO BURACO

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O causo a seguir é uma adaptação de um dos esquetes do curso de Teatro e Bíblia, realizado no Rio Grande do Sul, voltado especialmente para o público juvenil, mas já adaptado, em diversas ocasiões, para outros grupos. Espero que gostem...
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Estavam todas e todos a postos. O Presidente, Bíblia em punho, daria início à reunião. Não havia quem não admirasse o modo do Seu Zé interpretar as Escrituras. E ele dizia:
– Fazer justiça ao órfão, defender a causa da viúva, amados irmãos e irmãs, é socorrer os pobres, os marginalizados de hoje...
Várias cabeças balançando em sinal de aprovação. E ele prosseguia:
– Bem, pessoal! Hoje, retomamos o projeto social da nossa Igreja. Cumpre a nós continuar defendendo os órfãos e as viúvas do nosso tempo. Chamei vocês aqui porque tem trabalho pra todo mundo...
No meio da conversa, eis que entra D. Sílvia, a cara entre assustada e aflita. Todos percebem sua angústia. Alguém puxa uma cadeira:
– Sente-se, minha senhora! Quer um copo d’água?
– Não, obrigada! Eu só vim porque tenho um problema e me disseram que vocês poderiam ajudar.
Seu Zé olha pro céu, agradece a Javé, o Deus dos pobres, que enviou aquela mulher para confirmar que a Obra é de Seu agrado.
– Pois a senhora veio ao lugar certo. Como é o seu nome?
– Sílvia! Eu vim aqui porque tem um buraco na minha rua. Já falei com a prefeitura, com a agência de saneamento, as companhias de luz e telefone, e nada! Ninguém tá nem aí! E olhe que é ano eleitoral...
– Pois olhe... É até melhor assim. Ficar devendo favor pra político é um atraso de vida. Mas me diga, D. Sílvia, a senhora trabalha?
– Faço meus bicos...
– A senhora sabia que estamos iniciando um grupo de ação social aqui na Igreja? Desenvolvemos vários trabalhos muito legais que podem envolver toda a família. Hoje, por exemplo, faremos uma oficina de panificação.
– Hum...
– Como é a vida lá na sua rua? O pessoal é bem pobre, né!
– É, mas...
– Quantos filhos a senhora tem?
– Oito.
– Oito? Sabia que temos um trabalho específico para as crianças? Inclusive, nos dias de celebração, elas ficam com algumas gentis senhoras da comunidade que adoram contar historinhas bíblicas.
– Mas eles são grandinhos...
– Bom, então os mais velhos podem participar do grupo de jovens. Pelo menos, enquanto estão na Igreja, sabemos que não estão em más companhias, metidos em algum problema...
– Epa, peraí só um minutinho! Meus filhos não são muito de Igreja, vá lá... Mas nunca se envolveram com drogas ou coisa pior. Eles são trabalhadores, somos gente honesta...
– Calma, D. Sílvia, é modo de falar... É que esses jovens de hoje andam tão carentes de orientação...
– Não os meus filhos, isso eu lhes asseguro.
– Ok, ok, não precisa se zangar! Olha só... Que tal a senhora vir participar aqui com a gente. Temos um monte de outras coisas bacanas pra fazer. Às quartas é dia de entregar cestas básicas para as famílias carentes.
– Hum, tem um pessoal lá perto de casa que está mesmo precisando...
– Então, viu que legal! A senhora pode ajudá-los.
Seu Renato achou melhor reforçar o argumento do Seu Zé:
– E, certamente, a senhora vai se sentir bem por isso.
Seu Zé, que já havia falado sobre fazer o bem sem esperar recompensa, emenda:
– Claro, ajudar os outros sempre faz a gente se sentir melhor. Mas fazer o bem aos pobres é, antes de tudo, dever evangélico.
D. Sílvia, tentando assimilar tanta informação, limita-se a um aceno de cabeça, como quem está ponderando sobre o assunto. Sentindo a hesitação, Seu Zé faz outra proposta:
– E que tal o grupo das merendeiras? Elas fazem um sopão para reforçar o lanche que as crianças mais carentes ganham na escola. O que sobra, eu e alguns amigos aqui da comunidade distribuímos, junto com cobertas, para esquentar a noite dos moradores de rua.
– Olha, parece interessante... Mas vem cá! E o buraco lá da minha rua?
D. Olívia, que até aquele momento estava de espectadora, não se conteve:
– Ih, dona! Tando aqui com a gente, a senhora nem vai mais lembrar que o buraco existe.
D. Sílvia agradeceu e foi-se embora. Dizem que fundou uma associação de moradores do bairro. Continua brigando com a prefeitura por causa de outros buracos. O grupo de ação social? Vai muito bem! Hoje, a oficina é de tricô e crochê.

sábado, 25 de agosto de 2012

ONDE MORA O JOÃO-DE-BARRO


Que maravilha é poder viver o sonho da casa própria. O meu, por exemplo, já está quase realizado. Quer dizer... A primeira etapa do sonho já está quase pronta. Quando for entregue a chave (e que demora, meu Deus!), a residência ainda vai ser mais da Caixa Econômica do que minha. Mas, mesmo assim, que deliciosa espera, como é divertido namorar a obra, visitá-la, ver os seus progressos, ficar irritado com a demora, cobrar uma melhoria, enfim, ocupar-se com o que é (ou ainda vai ser) seu.

Agora vejam vocês! A casa, por enquanto, é da CEF. Entretanto, quem está pagando o IPTU sou eu. Tudo bem... Em breve, terei o direito de morar no que ainda não é totalmente meu. Mas, pensando na serventia do IPTU, além da coleta do lixo, alguém sabe me dizer que benefícios mais eu terei? Interessante pagar um imposto que me dá direito de morar no que é meu, não acham!? Ah, mas que papo de doido! Que tolo sou eu por pensar que imposto implica em benefícios. Imposto, o nome já diz, é uma imposição. Sendo assim, impõe quem pode, do verbo “Poder”, obedece quem tem juízo. Se fosse pra dar retorno, chamar-se-ia Investimento, não é mesmo!? Mas existem problemas maiores...

Certa vez, participei de um curso de lideranças cristãs. Lá pelas tantas, me saíram com a seguinte pergunta: “Qual a diferença entre a construção da casa do João-de-Barro e a nossa?” Anos depois, segui reproduzindo o curso, sempre fazendo a mesma pergunta. Porém, somente agora entendo a genial sacada da comparação. O que é necessário pra que o João-de-Barro more no que é seu?

De fato, são muitas as diferenças. A começar pelo fato de que a ave é brutal e machista. Se a fêmea o trai, é trancafiada no ninho, deixada para morrer. O ser humano resolve a questão na justiça. Quer dizer... Salvo casos extremos, onde a parte ofendida picota o traidor e o coloca em malas de viagem. Mas enfim... Normalmente busca-se uma alternativa legal para o problema.

Questões idílicas à parte, as diferenças não param por aí, mas (desculpem o irresistível trocadilho) vamos por partes. Embora alguém tenha me dito, certa vez, que viu um João-de-Barro roubando(?) cimento de uma construção, até onde se sabe, esses passarinhos costumam construir suas casas com barro. Nossa espécie, teoricamente mais evoluída, aprendeu a utilizar, além do cimento e do barro, uma série de materiais como madeira, gesso, piche, tapume, palha, lajota, pedra etc. Além disso, eles têm um só modelo de fabricação, utilizado para uma única finalidade. Nós, ao contrário, fazemos construções quadradas, redondas, triangulares, mistas, empilhadas, isoladas, muradas, improvisadas, bem planejadas etc. Normalmente, não usamos o mesmo espaço para dormir, trabalhar, comer, evacuar, relaxar, rezar, prosear, estudar, malhar, gozar... Na maioria das vezes, ninguém confunde um banheiro com uma cozinha, uma academia com um escritório e assim por diante.

Outra comparação (que eu, particularmente, considero bem romântica) diz respeito ao meio ambiente. O João-de-Barro se molda às condições do solo (matéria-prima), da árvore (ou poste), do clima etc. O ser humano, ao contrário, transforma o meio em que vive. Até aí, vá lá... O problema é ver, nisso (e alguns cursistas, mais beatos, chegavam a forçar essa conclusão), o chamado de Deus para dominar a criação e subjugá-la. Uma cosmovisão muito bonita, não fosse o que o ser humano faz com a natureza em nome de uma interpretação fundamentalista da Bíblia. Certamente, não foi para passar com patrolas por cima de animais, ou destruir ecossistemas, ou alterar profundamente as condições climáticas que o Criador colocou-nos no topo da criação.

Houve quem quisesse enaltecer o espírito naturalmente(?) cooperativo da espécie humana. O João-de-Barro trabalha sozinho e com o próprio bico. Meu pai até que tentou erguer nossa casa sem ajuda, mas precisou da família para carregar tijolo, água e cimento, limpar as ferramentas ao final do dia etc. Todo esse material feito por outras mãos, diga-se de passagem. Além disso, como não dominava a técnica do reboco, teve que contratar um pedreiro para o acabamento. Outras pessoas também fazem assim, ou trabalham em mutirão, ou contratam uma empreiteira ou um pedreiro. O fato é que ninguém constrói sozinho.

Enfim... Dá pra viajar um monte nas diferenças e semelhanças entre o ser humano e os animais. Mas ninguém – nem eu (não com a intensidade de hoje, pelo menos) – parecia sequer desconfiar que estava no meio de uma palestra chamada “Dignidade da Pessoa Humana”. Ora, a grande diferença está aí. Todo João-de-Barro tem onde morar; isso ninguém discute. Já, o ser humano, para viver com dignidade, precisa conquistar: o direito de morar, comer, vestir-se; o direito à saúde, educação, trabalho, lazer etc. Ah, sim... E acesso à internet. Quem não tem e-mail, hoje, simplesmente não existe.

E como conquistar um direito, hoje e em qualquer época da civilização humana? Tendo poder e/ou influência. No maldito sistema atual (a saber: o capitalismo neoliberal), é preciso ter (capital) para ser. O dinheiro determina quem pode e quem influencia. Quem não tem, mora na rua, de aluguel, em ocupações clandestinas, casas abandonadas... Isto é, depende de quem tem (caso do aluguel), ou do governo (planos habitacionais), ou dá seu jeito.

É triste, mas alguns têm de mais, outros de menos (ou nada). Estes últimos têm sua dignidade ferida, uma vez que não possuem direito sequer ao seu próprio pedaço de chão. Isso é muito mais grave e merece muito mais atenção do que o material com que joões-de-barro e pessoas constroem suas habitações. Não seria bom se, como as aves, pudéssemos habitar esta terra simplesmente pelo fato de termos nascido?

No fim das contas, quando Jesus fala sobre os lírios do campo e as aves do céu (Mt 6,25-34), está fazendo a mesma reflexão. Há quem veja nisso um conselho do Mestre para cruzarmos os braços e ficarmos esperando as coisas caírem do céu. Cristo fala, de fato, para não nos preocuparmos, mas com coisas mesquinhas, de forma egoísta. É fato que quem garante para si o sustento, via de regra, pouco se importa com quem passa necessidade. E quem luta pelo seu pedaço de pão, assim que o consegue, dá as costas para os que, até então, eram companheiros de labuta. Mas a proposta é justamente para que sejamos o oposto disso.

O texto fala para, antes de tudo, buscarmos o Reino de Deus e a sua Justiça. Essa é a garantia de que todas e todos viverão com dignidade. O Reino é um eterno mutirão, onde há moradia para todas e todos. Portanto, o desejo de Jesus é que subvertamos a lógica do sistema capitalista. Em vez do acúmulo, a partilha. Em vez do egoísmo, a fraternidade. Em vez da exploração, a cooperação. Em vez da dominação, o serviço.

Se isso não acontece, pelos menos duas devem ser as nossas práticas. Uma é a denúncia de um sistema injusto. Outra é a luta por um mundo melhor. Por isso, mesmo feliz com minha nova aquisição, não posso, não quero me esquecer de quem não tem onde “reclinar a cabeça”, assim como reafirmar a luta para que todas/os tenham vida, e a tenham em abundância.

domingo, 22 de julho de 2012

SOBRE BLOGs E FUTEBOL


Mais um canal que se vai! A partir de hoje, tenho oficialmente um blog só. Eu adorava a aparência do meu espaço de reflexões futebolísticas. Mas parece que só a torcida do Corinthians concordava comigo. É uma pena...

O nome não era inspirado na obra homônima de Dom Paulo Evaristo Arns à toa. Assim como o santo Bispo (este, sim, merece o título com inicial maiúscula), que em seu livro discute futebol, política e religião a partir de seu time do coração, a proposta do blog “corintiano-gracasadeus” era partir da paixão por um clube, transcendendo-a e rompendo com o senso comum (e alienante) sobre esse esporte tão popular. Mas o tiro saiu pela culatra. Fazer o quê?

Enfim... Pelo menos, agora centralizo tudo aqui em “opedaletra”. Tá, tudo bem... Costumo postar também no blog da minha filhota mais nova, a Bruna. Mas, lá, o espaço é dela. Aqui, mais do que nunca, será o espaço para expressar realmente tudo o que eu penso. Falando nisso, vamos à reflexão de hoje. Futebolística, por sinal.

ACABAR COM O FUTEBOL

Vamos acabar com o futebol? Afinal, é um esporte que aliena o povo. Enquanto você torce pelo seu time, a classe política deste país trama suas maracutaias. É a versão mais moderna possível do “pão e circo” (sem pão, aliás, que a farinha está pela hora da morte). Tem sido assim desde a Copa de 70. Enquanto a massa fica parada, na frente da TV, os que lutam por um mundo melhor são perseguidos, torturados e exterminados. Depois do escândalo da arbitragem, em 2005, que revelou uma prática de resultados arranjados; dos investimentos da MSI no Corinthians, cujo objetivo era a lavagem de dinheiro da máfia russa; das transferências milionárias de jogadores (que interesses movem tanta grana?); depois de tudo isso, alguém ainda pode levar a sério o futebol profissional?

Aproveitemos o ensejo e acabemos com a internet. Ok, ok... Não vamos radicalizar! Eliminemos somente as redes sociais: o facebook, por exemplo. Enquanto você fica aí postando banalidades, sacaneando os amigos, cantando guriazinhas de perfil com “fotinho de Orkut”, discutindo os direitos dos animais, marcando o churrascão da gente diferenciada, grupos de extermínio continuam atuando impunemente pelas praças, esquinas e viadutos. Ativista virtual, abre teu olho! É muito fácil criticar por trás de um teclado.

Pensando bem, a cerveja também podia entrar na dança. Tudo bem que é um artigo indispensável nas reuniões informais de muitos grupos ditos libertários, progressistas. Há quem defenda que os verdadeiros encontros fraternos são os etílicos. Quanta bobagem... É ou não é verdade que, em boa parte dos casos de violência, a bebida alcoólica é o grande vilão? Beber sem moderação? Quem acredita nisso? Seja decretado o fim da cerveja estupidamente gelada já!

E o sexo? Fala sério... Tanta promiscuidade, tantas doenças, tanta mãe solteira, tantos jovens se iniciando cada vez mais cedo, sem proteção, sem se importar com as consequências... Vamos acabar com essa prática espúria urgentemente!

O quê? Peguei pesado? O problema não está no sexo, mas no ato inconsciente e/ou irresponsável? A prática sexual é saudável e prazerosa? A internet é boa porque encurta distâncias, propaga melhor as ideias, socializa lutas e resistências? A bebida alegra o coração e é inofensiva em doses controladas?

Mas, mas... Será que, por causa de alguns beneficiozinhos, vale a pena manter essas práticas alienantes?

Ah, entendi... Acabar com o sexo nem pensar! Como? Você já se imaginou sem sexo, mas não abre mão da cerveja? O quê??? Não abre mão das amizades virtuais? Ah, sim... Mas com o meu futebol, um dos meus momentos mais intensos de lazer, você quer acabar, né!?

Pois, então, permita que eu lhe diga, com todo respeito... “NEM A PAU, JUVENAL!!!”

Futebol também é saúde, também é uma atividade prazerosa, também pode aproximar as pessoas. Não é o esporte que torna as pessoas boas ou más. Antes, é o caráter delas que torna a prática saudável ou não. Existem esquemas, corrupção? Foi no futebol que surgiram essas práticas? Os campeonatos alienam? Como os imperadores antigos conseguiam dominar seus súditos antes dessa interessante criação dos ingleses? Incita a violência? O que dizer do MMA de Anderson Silva? E as gangues rivais, que marcam encontros pela internet unicamente com o intuito de se confrontarem?

Já deu pra entender, né!? A falta de engajamento político, de compromisso com o bem-estar social, a violência e a corrupção, tudo é uma questão cultural. O fim do futebol só fará mudar o foco do problema, pois não afetará as causas.

Ninguém fica mais ou menos ativista porque torce para um time. Ainda que surjam discussões apaixonadas sobre uma partida ou resultado, quem tem consciência política continuará lutando por aquilo em que acredita. Já, quem não é de luta, ficará indiferente antes, durante e depois de seu time entrar em campo.

Então, da próxima vez que quiser acabar com alguma coisa, vamos acabar com a fome, a miséria, a violência, o descaso com a saúde pública, a falta de saneamento básico e outras condições necessárias para que as pessoas possam levar uma vida digna. Eu tô junto!!! Mas não mexa no meu futebol.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Da Idolatria Institucionalizada


Há tempos que quero falar sobre um assunto um tanto delicado. Entretanto, a faculdade, o estágio, o trabalho, a família, os deveres de casa, a preguiça de me meter em polêmicas... vocês entendem, né!? Pois bem... Só que hoje, enfim, “ganhei” um dia pra parar, descansar, um feriado. São apenas 24 horas, mas o tempo é suficiente para umas palavrinhas.

Aliás, devo corrigir uma informação dada há instantes. Segundo os mais beatos, não se trata de um feriado, mas do Corpus Christi, dia de guarda. Diz o Código de Direito Canônico (Cân 1247, Catecismo da Igreja Católica §2042) que faltar à missa, hoje, é pecado grave. Peço a Deus que me perdoe. Se tiver um tempinho, assim que puder, irei me confessar...

Sei que deveria estar cumprindo minha obrigação, mas não posso ficar calado diante de outros pecados gravíssimos. Sinto-me no dever evangélico de denunciar a idolatria em todos os cantos, inclusive dentro da Igreja. O dia de hoje é um belo exemplo de como as igrejas preferem se apegar àquilo que as separa, em vez de se unirem em prol do bem maior, isto é, da promoção do verdadeiro cristianismo na face da terra.

Qual o verdadeiro cristianismo? Bom, se consultarmos os Evangelhos, veremos que Cristo não se preocupava com ritos, mas com a vida das pessoas. Hoje tem muita gente que também se preocupa com a vida alheia, mas é para fofocar. O cristianismo autêntico, porém, é aquele que pergunta: Por que tanta gente morre sem comida, sem teto, sem uma vida digna, enquanto alguns vivem na fartura? Mas enfim... Voltemos ao tema desta reflexão.

É cada vez mais crescente o discurso do amor à Igreja acima de tudo. Na verdade, não vai ser surpresa nenhuma quando, em vez do Cristo, aparecerem cruzes com um Pedro dependurado. Tenho observado, horrorizado, que a preocupação maior é pelo zelo à Igreja, não ao Evangelho e aos ensinamentos de Jesus. Há uma campanha escandalosa de amor à Igreja pela Igreja, e não pelo que ela deveria significar. Sinceramente? Os argumentos em “defesa da fé” estão cada vez mais parecidos com campanhas publicitárias, sinal de que o catolicismo sente seu “mercado” invadido e tenta recuperá-lo.

Lendo as Escrituras, vemos como Cristo tem aversão aos cultos vazios. Lembremo-nos de como Ele recorre ao profeta Oséias (Os 6,6) para afirmar que Deus prefere misericórdia a sacrifícios (Mt 9,13), isto é, promoção da vida em vez de auto-promoção. Recordemos, também, quando Jesus, observando os ritos do Templo, exalta o publicano arrependido (Lc 18,9-14) e a viúva (Lc 21,1-4), desprezando o falatório dos fariseus e a esmola dos ricos.

E hoje, quando vemos e ouvimos padres e bispos dizendo que a salvação está na sacristia, no seio da Igreja Católica Apostólica Romana, disponível somente aos frequentadores de missa, não é a mesma coisa!? Talvez outras denominações repitam o mesmo, enaltecendo sua fé, embora não usem de tanta pompa e circunstância. Mas falo da ICAR porque é meu chão, é meu berço. E porque só ela é capaz de fazer um feriado em honra de um “milagre” diante do qual se enxerga como a única religião eleita por Deus.

Ok, ok... Outras religiões também se veem como “Portas de Salvação”. Mas alguma delas se impõe com tanta ostensividade como a nossa, que enfeita as ruas, paralisa toda uma nação e desfila com seu Deus numa caixinha, obrigando mesmo os não-católicos a contemplarem seu rito (sendo, de alguma forma, obrigados a participar, mesmo que seja protestando)? Alguém irá me lembrar da “Marcha para Cristo”... Mas a “marcha” de Corpus Christi vem desde quando?

Não condeno todas as marchas. Por exemplo, o que têm em comum a marcha contra a violência e extermínio de jovens, as romarias da água e da terra e o grito dos excluídos, a parada gay e a recente marcha das vadias? Todas são manifestações em favor da vida. Por outro lado, o que têm em comum o Corpus Christi, o desfile de 7 de setembro e a marcha para Cristo? Todos são eventos de massa com o único objetivo de auto-promoção.

O feriado de hoje, como bem se sabe, tem o objetivo de declarar a ICAR como única e verdadeira, “confirmada” por um milagre. Dizem que esta é a prova irrefutável da instituição da Igreja por ninguém menos que o Deus-Filho. Supondo que seja verdade, a verdadeira comemoração de Corpus Christi deveria conter a seguinte reflexão: “Bom, se a hóstia virou verdadeira carne, se o vinho se transformou em verdadeiro sangue, então não está na hora de vivermos o que Cristo ensinou?” Alguém ouve esse tipo de questionamento por aí? Não, o que se houve é: “Irmãs e irmãos, eis a prova irrefutável de que nós somos o povo eleito de Deus”. Quanta honra...

E o que muda, de fato, se houve milagre ou não? Debatendo a Salvação, Tiago defende que esta vem pelas obras (Tg 2,14.18); Paulo, pela fé (Ef 2,8-10); sobre a Igreja, nenhuma palavra. E por quê? Porque ambos morrem judeus, assim como Pedro e o próprio Jesus Cristo. Basta ver que este foi condenado como judeu, enquanto aquele fez seu primeiro milagre na porta do Templo. O que estava fazendo lá? O texto diz que ele e outro discípulo estavam indo lá para orar, isto é, cumprir um preceito judeu (At 3,1-10). Não é curioso que os “fundadores do cristianismo” tenham continuado judeus?

O termo “cristão”, aliás, aparece na Bíblia somente em textos escritos após a década de 70 d.C. E por quê? Estudiosos da Bíblia, como Carlos Mesters, defendem que, até então, admitiam-se judeus nazarenos (apelido dado aos seguidores de Jesus) nas sinagogas. Somente após a destruição de Jerusalém e do Templo é que estes foram expulsos e começaram a se organizar separadamente dos “puros judeus”.

O catolicismo só se organizou, como Igreja, com a hierarquia feudal que mantém até hoje, quando se tornou a religião oficial do império. Isso irrita muito padre e muito bispo, mas é necessário que se diga. A Igreja oficial mantém, hoje, os mesmos moldes e padrões do império romano. Antes de 330 d.C., era considerada uma seita clandestina. Aliás, uma não... várias. Pra começo de conversa, havia cristãos vindos do judaísmo e cristãos vindos do mundo helênico. Dizer que, no início, a Igreja era una é falta de responsabilidade com a História e falta de entendimento do que Cristo veio fazer na terra. Em nenhum trecho evangélico está escrito “eu vim instituir uma só Igreja”. Por outro lado, é frequente lermos: “Eu vim para os doentes”; “Eu vim para que todos tenham vida”; “Vamos às outras margens, pois para isso é que Eu vim” etc. Será que as outras religiões, tendo ou não seus milagres, não seguem os ensinamentos de Cristo?

Alguém poderá me perguntar: você continua católico? Sim, continuo! Por quê? Ora, porque é meu berço, porque me criei dentro dessa religião, porque o problema não é a comunidade, mas a instituição, talvez por um pouco de comodidade... enfim, uma série de fatores. Porém, isso não me impede (pelo contrário: é o que me motiva), justamente por amar a Igreja, mas ainda mais o Cristo, de dizer estas palavras. Enquanto a Igreja Católica Apostólica Romana e todas as outras denominações cristãs continuarem sendo anti-ecumênicas e não entenderem que são servas de Cristo e servas do povo (segundo afirmou o próprio Jesus, no “lava-pés” – Jo 13,14-15), nunca iniciaremos a instauração do Reino de Deus na terra. E, assim sendo, defender as instituições continuará sendo idolatria.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Sobre a Produção Textual de uma Crônica

Atenção, colegas professoras e professores de Língua Portuguesa! Segue sugestão de aula, aplicada hoje na turma onde estou estagiando (2º ano do Ensino Médio - EEEM Caic Madezatti).

Obs.: Os jovens deveriam criar um final para a crônica. O que segue abaixo, em amarelo, é o final que eu criei. Mostrei para a turma, após todos entregarem seus trabalhos. Serviu para descontrair. Mas é só uma sugestão...

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EXERCÍCIO DE PRODUÇÃO TEXTUAL
(Gênero: Crônica)

O texto abaixo foi adaptado de uma produção em sala de aula de estudantes do 2º ano (Ensino Médio). O exercício consiste em escrever um final para a crônica. Mas atenção: que o final seja o mais inusitado possível. A ideia é trabalhar a criatividade.


CRÔNICA SOBRE O INTERNETÊS

Ontem à noite, como de costume, estava navegando pelas redes sociais. Entre tantas postagens, vi uma bem interessante sobre o grenal. Resolvi compartilhar com os amigos de um chat, sem imaginar que iniciaria uma discussão:
– Timinho de fdp!
– Vcs vão perder!
– Entaum vamu vê!
Enquanto o bate-boca seguia, eu pensava: Por que será que se fala tão errado na internet?
Na escola, sempre tirava notas baixas em português. Era um tal de escrever/falar “discursão”, “enterte”, “pra mim fazer”, “partilera”, “eu truxe”, “tu vai” (ou pior: “tu vai í lá”)... Tinha até um professor que ironizava quando eu erguia a mão: “Aonde mim vai agora?” Resultado: cresci intolerante a tudo o que foge da língua padrão.
Um desses meus colegas de chat quis me convencer, outro dia, que o importante é se comunicar. Falou, inclusive, para eu pesquisar o tal de INTERNETÊS. Joguei no Google e vi que existem até grupos de discussão sobre isso. Um “professor” disse que não existe jeito certo ou errado de escrever. O que existe são linguagens apropriadas para cada momento. Papo furado.
Não me levem a mal, eu não gosto de tudo certinho, não sou nenhum CDF. Mas é que levei tanto xingão na escola... e agora vem alguém me dizer que é certo escrever “pq” em vez de “porque”? Não, eu não consigo aceitar tanta abreviatura, palavras escritas de forma errada e gírias forçadas. Quando eu sair daqui...
Esperem! Tem alguém batendo na porta:
– Pois não? Ah, sim, Doutor! Entre!!!
– Professor, está tudo bem?
– Tudo, Doutor! Mas o Sr. parece preocupado. O que houve?
– Teremos que transferi-lo, professor! Lamento, mas como não houve melhora...
– Eu não sou louco, Doutor! Por favor, me ajude...
*E, assim, transferiram para outro sanatório o professor que enlouqueceu quando recebeu um novo livro didático, onde se dizia que não existe uma linguagem correta; o que existe são linguagens apropriadas para cada situação do dia-a-dia. A propósito, o internetês é uma delas.