quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Como emagreci 39 kg

E assim começa 2014, ano onde a grande novidade é a retomada de projetos antigos. Da reativação dos blogs à preparação para duas novas especializações, tudo passa pelo mais do mesmo, que estava, digamos assim, em standby.

Também pudera! Os últimos anos vinham sendo de construção/reforma da casa, conclusão do curso de Letras, adaptação à realidade de pai, à vida de funcionário público e às novas dimensões de meu corpo. Atividades muito prazerosas, indubitavelmente, mas que pouco tempo deixavam para projetos como aprofundar o trabalho com a leitura popular da Bíblia ou pegar mais intimidade com a viola, por exemplo.

Este ano, porém, já começou bem diferente. É a primeira vez, em mais de 10 anos, que entro magro no verão. Todo mundo pergunta o que eu fiz! É incrível... Mesmo as/os que mantêm aquele discurso de valorizar e incluir a pessoa, independente de cor, sexo ou peso, querem a receita. E não é pra menos! Aos 109 kg, eu sofria com fadigas, pressão alta, refluxo, azia e dores nas costas (fora o desespero de não conseguir me agachar para amarrar o cadarço do sapato). Hoje, com 72 kg, estou bem mais disposto, ágil e – o mais importante – saudável. Claro que tenho outro probleminha agora: engordar. A nutri disse que preciso ganhar pelo menos 4 kg de massa magra, e que só vou conseguir isso com exercícios físicos e mudando minha dieta. Tudo bem! Já estava fazendo musculação mesmo... Só falta voltar com os carboidratos e açúcares. O melhor de tudo é que aprendi minha lição: não posso mais nem com o cheiro de frituras e comidas gordurosas. Ano novo, novos hábitos! Projeto emagrecer: um antigo sonho que finalmente se torna realidade.

Como consegui? Bom, preciso dizer que não fiz cirurgia, não tomei remédio, nem passei fome. Mas vamos com calma! Primeiro, gostaria de dizer que, depois de três anos sem poder viajar, visitei papai, mamãe, irmãos, tios, vovô, vovó. Muita festa, muita comida, muito violão, muita possatice. Delicioso estar em família. Melhor ainda foi, pela primeira vez, D. Elvira (minha mãe) ter reunido todos os netos. Isso porque, desta vez, consegui levar a Giovanna (filha mais velha, que mora em Curitiba) com o resto da “troupe”. Pra completar, me esbaldei de tanto duetar com o meu par preferido: Barbara Lucas. Voltei de SP muito animado, querendo retomar esse antigo desejo de cantar com a minha “Réi”.

Ah, dei um gás no livro que estou escrevendo. É um romance policial. Uma novela, pra falar bem a verdade. Estava paradinho. Mas já me empolguei e, agora, as coisas se encaminham para os finalmentes. Se vou publicar, é outra história. Claro que quero! Não sei se depende só de mim. É outro desejo antigo: discutir realidades juvenis através da literatura. A primeira obra já está quase pronta, acabada... Outras virão? Sei lá! Um passo de cada vez!

Também é importante dizer: no último finde, teve Assembleia do CEBI-RS. Muito bacana esse reencontro. Apesar de não ter deixado de promover hermenêuticas bíblicas juvenis (minha paixão), alguns desgostos pessoais (por exemplo: ficar impedido de fazer o DABAR e ser escanteado no projeto de estudos bíblicos virtuais cuja iniciativa foi minha) mantiveram-me distante dos espaços institucionais. Consequentemente, tornaram-se raras as oportunidades tanto de assessoria quanto de formação. Agora, entretanto, fui eleito para compor a coordenação estadual, e a coisa já começou a mudar de figura. É tão bom se aprofundar naquilo que a gente gosta e acredita! Continuo muito chateado com a instituição, mas não posso negar o poder transformador da leitura popular da Bíblia. Quero mergulhar nesse mundo do Cristo subversivo e do Deus que caminha com seu povo cada vez mais!

Se você tiver paciência, preciso contar mais um detalhe importante, antes de irmos ao que interessa: quero ingressar, no fim do ano, em duas especializações. Ambas são alimentos da alma: Mestrado em Literatura e DABAR. A primeira é uma paixão recente. Desde que me formei em Letras, decidi que esse é o meu caminho. Ano passado, o foco era passar no Concurso do Magistério Estadual. Bom, passei! Só falta ser chamado. Agora, posso seguir em frente! Quanto ao DABAR, curso de especialização em leitura popular da Bíblia (uma espécie de pós-graduação em Teologia), é sonho antigo, que não tem mais desculpa para não acontecer, agora que tenho o diploma na mão.

Bom, era isso! Pelo visto, tem muita coisa boa pra acontecer em 2014, muitos projetos. Tudo, porém, fruto de algo que venho cultivando de longa data. O quê? Hã? Ah, sim... O que tudo isso tem a ver com o tema dessa postagem? Exceto pelo terceiro parágrafo, não muita coisa! Melhor seria ter dado o seguinte título: “Hora da retomada!” Mas fala sério! Se assim fosse, você teria lido até aqui?

domingo, 15 de dezembro de 2013

Juventudes – Tolerância e Solidariedade num Mundo Pluralista

Alguém aí duvida que estamos num mundo plural? A diversidade é um fator essencialmente humano. Temos velhos e crianças, negros e amarelos, homens e mulheres (homos ou heteros), cristãos e muçulmanos, ditadores e democratas, apolíticos e ateus, dominantes e dominados. Epa, dominantes e dominados? Sim, dominantes e dominados! Sendo assim, é possível dizer que vivemos num mundo pluralista?

Perguntinha complicada... O cara começa afirmando que o mundo é plural e, pouco depois, quer saber se ele é pluralista. Não é tudo a mesma coisa? Não, oras! Ser plural é ter, por definição, mais de uma possibilidade. Por outro lado, ser pluralista é mais que admitir a existência do diferente; é querer e promover a diversidade.

Então voltemos à pergunta: Vivemos num mundo pluralista? Bom, se aceitamos a existência de dominantes e dominados, admitamos também que aos primeiros só interessam suas próprias diferenças. Quem não pertence à elite, ou aceita as regras, ou é varrido pra debaixo do tapete. E parece que tem muita gente com medo de se misturar à poeira, pois compramos direitinho as ideias plantadas pelos nossos opressores. Assim, passamos a aceitar o diferente como errado, inferior.

Um exemplo simples: A Paz mundial. Qual é a tua ideia de Paz? Um lugarzinho afastado, no alto da serra, passarinhos cantando, o barulho da água correndo, ninguém brigando com ninguém? Ah, tá... Tira o alto da serra, os passarinhos cantando e o barulho da água, mas deixa ninguém brigando com ninguém. Que maravilha! Todo mundo se entendendo, uma comunidade sem partidos políticos, uma só religião, homens que se comportam como homens, mulheres que se comportam como mulheres, velhos e crianças respeitando seu papel na sociedade... Resumindo: Tudo correndo conforme o combinado, certo!? Pois bem... Lamento informar, mas isso não é Paz; é uma ditadura!

E o que são as elites dominantes senão um bando de ditadores? Eles ditam a moda, o uso correto da língua, a opinião da grande mídia, os comportamentos social, econômico e sexual, as boas maneiras e os bons costumes, toda a nossa cultura, enfim. É a padronização, isto é, a uniformização, prática comum até em movimentos auto-denominados ecumênicos. Quer ser bem sucedida ou sucedido, seja assim, e pronto!

Então, o que fazer!? Deixar que impere a violência, que os povos se matem? Pra começo de conversa, não há violência maior do que impor aos outros um único modo de ser, pensar, orar e agir. Isso não é harmonia, mas o auge da intolerância. O diferente não é digno sequer de solidariedade porque não deve ser incentivado. Ora, a supressão de outras culturas, outras opiniões, outras crenças, outros modos de ver o mundo, isso sim é deixar que impere a violência, é matar, isto é, extinguir as vozes discordantes.

Ao lado das mulheres, uma das principais vítimas desse sistema excludente são os jovens. Ambos são cooptados pelo padrão ditado por homens brancos, ricos e adultos. Logo, ser jovem e mulher ao mesmo tempo não é lá uma situação muito confortável. Negra e pobre, então... Mas vamos nos concentrar nas juventudes, foco desta reflexão.

Está em voga a discussão em torno da maioridade penal. Querem maior sinal de intolerância e falta de solidariedade do que isso? Responsabilizar um grupo pela criminalidade e violência do país porque é composto por jovens – e, nas entrelinhas, negros e pobres, pois para estes é que os presídios são construídos. A coisa funciona mais ou menos assim: eu ponho você à margem da sociedade por não preencher os requisitos necessários para estar entre os “eleitos”, e se você se rebelar, sofrerá as consequências. Dito de outra forma: eu crio os monstros e os alimento para, no tempo oportuno, colocá-los numa arena e proporcionar pão e circo aos meus súditos. Enquanto a população sacia sua fome de “justiça”, ninguém questiona as verdadeiras causas (e causadores) da violência.

Percebem quem deveria estar preso nessa história? Enquanto isso, os presídios vão ficando superlotados, não dos mentores, mas das vítimas de um sistema violento. Uma vez punidos, quantos se regeneram? Não acontece o contrário? A pessoa entra como ladrão de galinha e sai como membro de quadrilha organizada. É isso que queremos? Cada vez mais jovens especializados no crime? Quando vamos questionar as razões para os crimes de colarinho branco serem tratados de forma infinitamente mais branda do que o roubo de um par de chinelos? Até quando vamos dar razão a quem decide jogar sobre os jovens sua própria culpa?

Ok, apontar os culpados, por si só, não resolve. No fundo, sabemos quem eles são. Entretanto, de modo geral, a população se sente impotente para lutar contra seus verdadeiros opressores. Mas é desejo de todas e de todos vivermos num mundo melhor. E isso não é de hoje. Em seu livro, o profeta Joel narra sua imagem de um mundo perfeito: “Depois disso, derramarei o meu espírito sobre toda carne. Vossos filhos e filhas profetizarão, vossos anciãos terão sonhos, vossos jovens terão visões. Até sobre os escravos e sobre as escravas, naqueles dias, derramarei o meu espírito” (Jl 3,1 – Bíblia católica; Jl 2,28 – Bíblia protestante). Homens e mulheres, livres e escravos, profetizando em pé de igualdade. Anciãos, consultados normalmente por sua capacidade de ver, isto é, analisar a realidade, sonharão. Pessoas jovens, consideradas sonhadoras (Ingênuas? Aéreas? Inexperientes?), serão capazes de ver. Que mundo perfeito... Mas conta com duas diferenças em relação ao nosso. Primeiro, isso é fruto do Espírito de Javé. Segundo, não adianta cruzar os braços e ficar esperando; é preciso lutar: “Forjai de vossas relhas espadas, e de vossas podadeiras lanças. Que o fraco diga: ‘Eu sou um herói!’” (Jl 4,10). Ou seja: Apontar os culpados não resolve, mas descobrir quem são é passo fundamental para mudarmos a realidade.

Como mudar? A concretização da profecia de Joel se dá em Pentecostes (At 2,1-12). O Espírito Santo, em forma de línguas de fogo, desce sobre todos os que estavam reunidos (portanto, não somente sobre os Apóstolos) e eles (e elas?) começam a falar em outras línguas. Os ouvintes, provenientes de diversas nações (e culturas e religiões, consequentemente), conseguem compreendê-los. Mais que isso: ficam maravilhados. O resultado já sabemos: o cristianismo se espalha pelo mundo. Porém, será que, com isso, vem junto a mensagem daquele dia? O texto não fala de conversões em massa. Aliás, não registra uma conversão sequer. Fala das línguas dos ouvintes, mas não de quais línguas eram faladas sob inspiração divina. Ora, então que mensagem é essa que deixa a todos maravilhados? Em Babel, o projeto de uma única língua, uma única cidade, uma única torre “capaz de tocar o céu” caiu por terra, e os homens (e mulheres), apesar de falar uma língua só, não mais se entendiam (Gn 11,7). Então, que línguas são essas que os homens (e mulheres) de diversas nações são capazes de entender? Não seria a linguagem do amor? Não seria o amor capaz de respeitar as diferenças e propor, em vez da uniformidade, a unidade? Não seria a unidade capaz de gerar tolerância e solidariedade entre os povos? Jovens tendo visões e anciãos sonhando não seriam um sinal dessa unidade? Conseguiríamos, portanto, mudar essa realidade de exclusão dos que não se enquadram no padrão uniformizador das elites se acolhêssemos os diferentes (jovens, negros, pobres, mulheres, estrangeiros, bêbados, prostitutas, moradores de rua...) da maneira como são? Em vez de mudá-los, não seria melhor perguntar por que não são aceitos? Visto assim, será que é muito difícil mudar?


Se queremos a Paz, preparemo-nos para a Paz. Temos que cobrar, sim, das autoridades, fazer com que respeitem nossos direitos. Mas precisamos ter ciência de que nossa luta não é só nossa. Jesus acolhia bêbados e prostitutas, mas não se tem notícia de que era bêbado e prostituto. Abraçava leprosos, mas não se tem notícia de que tenha morrido por causa da lepra. Acolher o outro não é tornar-se semelhante a ele, senão na luta por um mundo mais justo e fraterno, tolerante e solidário. Não deveria ser esta a proposta dos movimentos ecumênicos? Não seria este o papel do autêntico ecumenismo (não o uniformizador, mas o pluralista, gerador de unidade)? Estejamos atentas e atentos a isto: Os jovens querem viver! Os idosos querem viver! As mulheres querem viver! Os negros querem viver! Ora, quem é capaz de impedir isso? Esse, senhoras e senhores, é o verdadeiro inimigo.

sábado, 5 de outubro de 2013

São Francisco, um livro e a Perfeita Alegria

Estou escrevendo um livro, um romance. Chique, né!? Que experiência maravilhosa! Bom, e ontem foi dia de São Francisco, mas eu não consegui postar nada. Por isso, hoje, querendo dedicar algumas palavras ao homem cuja espiritualidade inspira a muitos, inclusive a mim -- e aproveitando o ensejo para divulgar meu ensaio --, resolvi divulgar um trecho da obra. Mas, antes, um pequeno esclarecimento: trata-se de uma carta onde um rapaz, que está num programa de proteção a testemunhas, comunica-se com seu amigo padre. O tema da história é segredo, pelo menos por enquanto. Mas tenham certeza de que tenho em vista a luta do povo e dos jovens enquanto escrevo. Então, sem mais delongas, segue um pedacinho do filho que ainda não pari totalmente:

Santa Maria, 03 de outubro de 2010.
Fraterno irmão,                    
A Paz e o Bem!          
Amanhã a gente comemora o dia do Chicão. Como eu gostaria de estar aí. O pessoal aqui é bem bacana, mas dia de São Francisco, pra eles, é um dia normal como todos os outros. Fazem falta nossas festas...
Nesses dias de exílio, faz bem meditar a Perfeita Alegria, tema tão caro ao Poverello d’Assisi. Levei anos para entender que não se trata de uma atitude passiva, um conformismo, como se o que nos acontece fosse fruto de um destino inevitável. Antes, é um estado de espírito ao qual só chegam aquelas e aqueles que gozam de plena liberdade. A Perfeita Alegria, meu irmão, consiste em não permitir que pessoas mal intencionadas e fatos desagradáveis abalem nossos ânimos, nossa fé.
Custei para chegar a essa conclusão. De início, eu pensava: “Se Francisco foi tão revolucionário, tão defensor dos pobres, como pode pensar que devíamos ficar alegres mesmo diante da pior desgraça, da pior injustiça?” Acontece, meu caro, que eu confundia alegria com gratidão. Ora, uma coisa é aceitar que o mal existe; outra é conformar-se, resignar-se, tomá-lo por inevitável vontade de Deus. Vista dessa forma, a mensagem do Irmão de Assis passou a fazer todo sentido para mim.
E como preciso exercitar a Perfeita Alegria nesse tempo de aflição... Não nasci para ser vigiado, guardado a sete chaves, impedido de estar no meio do povo. Os últimos já são os oito meses mais longos de toda a minha vida. Espero, do fundo de minh’alma, que termine logo o julgamento – e os meus agressores sejam penalizados – para que possa voltar à minha terrinha. Entretanto, como são da Brigada Militar, estou prevendo que tudo acabará em pizza, e eu terei que ficar, ad eternum, em Santa Maria.
Enfim... Chega de aborrecê-lo com as noias do meu ócio degenerativo. Vou voltar ao “amaro farniente”. Ademais, sei que estás ocupadíssimo com os jovens e as questões de tua Paróquia. Dê-me notícia de teus afazeres. Um abraço!
Atenciosamente,                    
Irmão Beto!               

terça-feira, 3 de setembro de 2013

JOVENS, EU VI!

O texto abaixo foi extraído do meu antigo blog "osperegrinos". Há tempos, tenho o propósito de migrar meus textos de lá pra cá, mas... Enfim, uma hora tinha que começar. O que ora segue está revisto e atualizado.

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Meninas e meninos, eu vi! Foi nos idos invernais de 2010, lá em Brasília/DF, mesma terra onde profetizou e morreu Gisley, jovem e padre assessor da juventude. Morreu não... Foi assassinado! Aliás, como acontece com a maioria dos profetas. O fato é que eu vi, e isso aconteceu mais ou menos um ano depois da partida dele.

Por um tempo, eu via – estarrecido – mãos juvenis capazes de matar, sem questionar muito por quais lentes me foi possível ter esta visão. Porém, a partir de novas experiências e à luz de uma nova lente, vi também histórias juvenis tecendo vida, ainda que timidamente, dispersas, isoladas e confusas. E vi que a juventude não tinha uma só, mas várias faces, um caos a ser ordenado.

Era madrugada e havia um jardineiro. Mas não precipitemos os fatos. Convém dizer, antes, que eu não vi sozinho. Havia mais gente lá! Enxergamos primeiramente um túmulo e, então, entramos. Deveríamos avistar um corpo, mas o sepulcro estava vazio. Tomados de espanto, preocupamo-nos mais com a profanação de um cenário de morte do que com a possibilidade da vida, de uma nova criação, um novo jardim. Foi preciso que uma mulher gritasse “Onde ele está?” para despertarmos. Não fosse isso, quanto tempo mais ficaríamos lá dentro, contemplando o nada, confinando nossa gente a um espaço destinado à morte?

Então, vi jovens de diversos grupos saindo de suas catacumbas pessoais, umas e outros logo se acomodando a novas tumbas, mas a grande maioria saindo à procura de uma habitação de vivos. Todos procurando o caminho certo, sem conseguir, todavia, encontrá-lo. Por sorte, conosco caminhava Madalena, que forçou a vista para enxergar alternativas à realidade nua e crua e deu-nos a Boa Notícia: “Eu vi o Senhor!” Diante da novidade, percebemos que não bastava sairmos de nossas covas. Precisávamos aprender a enxergar por nós mesmos, treinar nosso olhar. Além disso, era preciso saber, ainda, o que – ou a quem – procurávamos.

Já falei que vimos um jardineiro? Melhor dizendo: não vimos, não; mas ele estava lá! Conseguimos vislumbrar o jardim, mas nos esquecemos de que, para estar tão bonito, era necessário alguém que o cultivasse. Cabisbaixos, ignoramos a presença de um homem que nos observava. Somente Madalena, inconformada, dirigiu-se a ele, perguntando se tinha levado o corpo do Senhor para outro lugar. Qual não foi sua surpresa ao descobrir que aquele à sua frente não era um jardineiro comum, mas o responsável pela beleza do Jardim da Criação, ou seja, o amado a quem ela tanto procurava? Nesse momento, amanheceu e Madalena pode vê-lo claramente.

Teimávamos em não acreditar nos fatos. Lamentávamos a morte, em vez de perguntar por que mataram o Mestre. Ele fora executado como criminoso político, isso nós sabíamos. Mas por que, se ele falava de um Reino que nem deste mundo era? Tínhamos muito medo de fazer esta pergunta. Entretanto, quando amanheceu, fomos às ruas. Por que Ele morreu? Por que morrem os jovens? Quem está nos matando? Por que estão fazendo isso? Quando percebemos que a morte dele não tinha sido acidental, deduzimos não terem, também as demais, acontecido por acaso. E isso – essa grande descoberta – certamente vai incomodar quem está querendo nos matar, sufocar, silenciar, tornar invisíveis. Entretanto, não sem uma boa dose de coragem, decidimos enfrentar esses assassinos, uma vez que, igual à Madalena, “vimos o Senhor”.

Abrindo-se nossos olhos, vi a juventude se organizando em mutirão. Cada qual preservando sua identidade. Cada qual voltando para seu lugar de origem. Mas todos dispostos a manter a unidade. Percebemos, finalmente, que com grupos pequenos, agindo em rede, derrotaremos o opressor. Assim, vi os grupos trocarem juras de comunhão e fraternidade, prometendo multiplicar esse encontro, essa experiência em suas bases.

Enfim, meninas e meninos, foram essas – além de outras, a serem contadas em outro momento – as coisas que eu vi. As juventudes, dispersas em meio à escuridão da madrugada, ansiosas pelo sol prestes a despontar, perceberam na Bíblia uma ótima ferramenta para ver e seguir a Cristo, o Jardineiro. O encontro, em local e situação inesperados, porém livres das amarras institucionais, só foi possível porque deram-lhes novas lentes, as da Hermenêutica Juvenil.

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[*] Texto inspirado em Jo 20,1-18 e no Seminário Nacional de Bíblia e Juventudes, acontecido em Brasília/DF, de 16 a 18/07/10, promovido pelo CEBI, em parceria com a CAJU, a REJU, o FALE e a Trilha Cidadã, entidades religiosas que trabalham com juventudes do meio ecumênico.



sábado, 24 de agosto de 2013

ENTREVISTA COM JESUS

– Olá, telespectadores do canal 10, ouvintes da Rádio Confiante e internautas que nos acompanham pela WebTV. Eu sou Johnson Ares e este é mais um... “Conhece a Ti mesmo”. O convidado de hoje é considerado, no mundo ocidental, um Deus. Ele é alto, forte, cabeludo, barbudo... Calma, meninas, não é o Thor! Produção, alguém tira essas histéricas daqui? Bem, voltando... Foram escritas várias biografias sobre ele, das quais quatro são as mais lidas. E ele vem aqui, hoje, para falar um pouquinho mais sobre si mesmo. Pode entrar, Jesus!
(Aplausos e musiquinha... A um aceno de John, tudo se aquieta)
– Jesus, Emanuel, Jeoshuá, Cristo... São tantos nomes, fora os títulos: Mestre, Senhor, Estrela da Manhã, Bom Pastor, Nazareno, Filho do Homem... Como quer ser chamado?
– Olha, John! De fato, são muitos nomes... Mas pode me chamar de Jesus. É simples, é o mais conhecido... Gosto dele!
– Jesus, das quatro biografias mais conhecidas, isto é, dos Evangelhos, qual te retrata melhor?
– Todos e nenhum ao mesmo tempo. Quero dizer, nenhum deles conta as coisas como realmente aconteceram, mas todos cumpriram seu objetivo, que era dar um sentido teológico à minha morte e ressurreição.
– Quer dizer que nada do que está escrito ali aconteceu de verdade?
– Claro que tudo aquilo aconteceu. Os escritos formam uma fotografia, uma imagem dos acontecimentos. Como você sabe, os retratos não mostram toda a cena, mas somente aquilo que seus autores querem destacar.
– Entendi... E qual dos teus retratos mais te agrada?
– Todos são muito bonitos. Mas eu acho um muito engraçado, uma vez que me pintaram de galinha.
– Galinha?
(John solta uma gargalhada, a plateia o acompanha)
– Sim, tá lá em Mt 23,37 e Lc 13,34.
– Arequê, pega uma Bíblia pra mim!
(Um japonesinho sai correndo e logo volta, trazendo uma caixa. John tira um livro de dentro dela e começa a folheá-lo)
– Ah, entendi! Mas nunca vi essa imagem nos vitrais e quadros das Igrejas.
– Fazer o quê, John? Também gosto daquela cena em que sou uma mulher varrendo o chão até encontrar a moeda perdida (Lc 15,8-10), mas nem os artistas da Renascença, com todos seus avanços, ousaram me pintar assim.
– Sim, mas nem eu ouso te imaginar como uma mulher...
– Bobagem! Sendo verdadeira pessoa humana, eu não tinha como vir assexuado. Mas tanto faz como tanto fez se eu viesse como homem ou mulher.
– Vejam vocês! Mas por que você veio a este mundo, afinal de contas? Você já sabia que ia morrer numa cruz?
– Gosto de falar por imagens, John! Vocês, brasileiros, têm um cara que soube definir muito bem, numa imagem, minha missão na Terra. Frei Carlos Mesters, conhece? Pois é, ele escreveu um livro chamado: “Com Jesus na Contramão”. É bem isso mesmo! O plano de Deus tava todo do avesso, e eu vim para restaurá-lo.
– Como assim? Plano de Deus? Você é terrorista?
(Agora é a vez de Jesus soltar uma gargalhada)
– Esse é o discurso do atual império. Me admira que vocês ainda reproduzam o pensamento dos EUA. Quando eles combatiam os comunistas, eu era comunista. Agora que combatem os terroristas, sou terrorista.
– Perdão! Não queria ofendê-lo! É que...
– Não, não me ofendeu! O que me irrita é a propaganda difamatória, mas isso não é culpa sua; você apenas a reproduz.
– Bom, vamos falar de coisa boa. Arequêêêêêêêêê... Traz uma água pra nós!
(Sai o japonesinho correndo, mas Jesus continua respondendo à pergunta anterior, sem esperá-lo voltar)
– Como homem, eu não sabia que ia morrer numa cruz. Quero dizer, não foi um teatro. Não conduzi as coisas pra chegarem a esse ponto, como querem acreditar alguns pretensos teólogos por aí. Eu fui assassinado porque denunciei um esquema de corrupção.
– Corrupção? Pode nos dar nomes?
– Na verdade, é toda uma classe corrupta. Confira o que aconteceu em Mc 7,5-13; 11,15-18; 14,1-2.53-64.15,1-15.
– Não entendi muito bem, Jesus! Se o Sinédrio te condenou por se considerar Filho de Deus, por que os sacerdotes te apresentaram a Pilatos sob a acusação de se denominar Rei dos Judeus?
– Veja como esses senhores são artistas da enganação. A blasfêmia aos deuses dos povos dominados não significava nada para o imperador romano. Mas, lendo Jo 19,12-16, fica fácil entender que César não gostava muito da ideia de haver outros reis além dele.
(Johnson Ares bebe a água trazida por Arequê. Sente que deve interromper a entrevista, mas está inexplicavelmente curioso para saber o restante da História)
– Jesus, tô vendo aqui, na sua biografia escrita por Lucas, que os sacerdotes também te acusaram de subverter o povo, incitando-o a não pagar imposto a César (Lc 23,2). Fale um pouco mais sobre isso.
– É para que você veja a maldade das nossas lideranças políticas, John. Viviam reclamando do rigor com que o império nos oprimia, mas na frente de um oficial romano davam uma de quem estava a favor dos impostos. É como nos dias de hoje, onde um candidato, para se eleger, critica quem está no poder. Só que, uma vez eleito, o cidadão se torna ainda pior que seu antecessor.
– Mas você subvertia mesmo o povo?
(Dessa vez, um tom de preocupação na voz de Johnson Ares)
– John, eu te disse antes que eu vim para restaurar o Plano do meu Pai, que tava do avesso. Então eu te pergunto: quem é o subversivo nessa história?
– Interessante... Mas pode nos dar exemplos daquilo que você fazia que deixava os fariseus tão irritados?
– Pra começar, eu fiquei do lado dos considerados impuros: Prostitutas (Mt 21,31-32), pecadores (Mc 2,15), leprosos (Lc 17,11-19), hereges (Mc 7,24-30), endemoninhados (Mc 1,23-26), mulheres (Lc 8,1-3), crianças (Mt 19,13-15), doentes (Mc 1,32), enfim... O povo pobre em geral (Lc 6,20-26). Mostrei a eles que não eram os ritos que os salvariam, mas a prática do Amor (Jo 13,34-35; Mt 10,25-28) e da Justiça (Mt 5,6.10; 6,33).
– Por isso que você ensinava fora do Templo e da cidade?
– Na verdade, não tive muita escolha. Optar pelos pobres é viver à margem, nas periferias (Mc 1,40-45; Lc 4,29).
– E você se arrepende disso? Quer dizer... Não conheço muita gente disposta a fazer o que você fez.
– Aí é que você se engana, John! Tudo começou com quatro pescadores (Mc 16,20). Claro, depois ampliei para um número mais simbólico, nomeando os doze apóstolos (Mc 13,3-19), só pra lembrar do projeto das doze tribos.
– Doze tribos?
– Sim, as tribos que formaram o povo de Israel. Um projeto sem reis, baseado na partilha e na Justiça. Fazendo memória do projeto que nasceu lá no Êxodo, consegui fazê-los formar pequenos grupos, que persistem até hoje, de forma organizada, lutando por outro mundo possível.
– Grupos organizados? Perdão, mas quanto mais ouço, mais te vejo como um... Bem, escutei aqui o Jesus...
(A plateia faz um sonoro “aaaaaahhhhh...”)
– Sim, eu também gostei, mas vamos encerrando antes que...
Nisso, entra a polícia e dá voz de prisão a Jesus. Johnson Ares vai junto por deixar esse homem falar tanta besteira e por tanto tempo no ar. E assim termina a entrevista, mas não sem antes causar um reboliço no cenário internacional. O FBI quer explicações das atividades suspeitas desse que todos pensavam ter morrido. As relações entre o Brasil e o império norte-americano estremecem. Nossa presidente não tem outra alternativa, a não ser entregar o suposto terrorista à CIA. Se tudo correr bem, em poucos dias o caso será esquecido, a menos que Jesus ressuscite novamente, na luta do povo.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

QUEM TÁ NA RUA É PRA...

E o caldeirão, ou melhor, a panela de pressão popular está em ebulição. O movimento que começou com jovens estudantes (cabe aqui o reconhecimento, já que eles sempre são vistos como irresponsáveis ou desinteressados), devido ao aumento das passagens de ônibus, foi o estopim de uma série de protestos por todo o Brasil. Dizem que o gigante deitado em berço esplêndido finalmente acordou. Deve ser verdade, pois parece movimentar-se de modo bem desorientado, como quem acabou de sair da cama. Os gritos da rua são fortes, mas dispersos, cada manifestante expressando o sentimento que lhe convém, sem um tema comum que dê sentido aos protestos. Sobra vontade de lutar, falta um elo norteador.
 
 
O terreno é fértil para manipuladores. Grupos organizados, especialistas em manter a população sob controle, foram aos poucos se infiltrando, fazendo muito barulho e, aproveitando-se de um cenário real de injustiça e corrupção (existentes desde sempre, apesar da extrema-direita insistir que tenham sido inventadas pelo PT), tornaram gradualmente uníssono um desejo: “Fora, Dilma!” É a tentativa de reproduzir o movimento dos caras-pintadas, que culminou no impeachment do Collor. Lutam por tirar as bandeiras esquerdistas de cena, alegando que as manifestações devem ser apartidárias, mas fazem convenientemente o jogo da oposição ao Governo Federal. Isso é tão óbvio que chega a ser impressionante como a maioria dos participantes não percebe e entra no embalo.
 
 
Há dois meses, dois encontros de Bíblia e Juventudes – um em São Leopoldo, outro em Santana do Livramento – falavam também de um povo que clamava no deserto. Estávamos, ainda, sob os efeitos dolorosos da tragédia em Santa Maria. Líamos com grande expectativa o primeiro capítulo do Evangelho de Marcos. O povo indo atrás de João Batista, buscando o seu batismo como alternativa aos ritos purificantes (e excludentes) do Templo em Jerusalém. Jesus sendo batizado e recebendo sua missão no Rio Jordão. A formação do primeiro grupo de discípulos, a prisão de João e o início da missão de Cristo. É inevitável comparar aquelas reflexões ao que está acontecendo agora.

 
São Leopoldo, 6 e 7 de abril de 2013

 
Cada encontro tratou de um tema diferente. O de São Léo falou sobre Políticas Públicas para a Juventude. Em Livramento, onde os participantes estavam notavelmente mais sensibilizados com a tragédia da Boate Kiss, já que lá perderam parentes e amigos, o assunto foi o cuidado com a vida e a construção de relações solidárias. O pano de fundo em ambos, porém, era a violência e o extermínio de jovens. Por isso, percebendo que, conforme Mc 1,14, Jesus abraçara sua missão somente após a prisão de João Batista, perguntávamos: “Que Joões ainda precisam ser presos, isto é, o que falta acontecer para tomarmos uma atitude?” O questionamento foi um senhor chacoalhão para os participantes, que se sentiam acomodados. Entretanto, nem a previsão mais otimista daria conta de que, sessenta dias depois, o povo tomaria as ruas.

 
Santana do Livramento, 13 de abril de 2013

 
A coincidência dos fatos é tão grande que, certamente, muitos dos presentes aos encontros lançaram-se porta afora, certos de que o momento havia chegado. Porém, é preciso calma e muito discernimento para não sermos arrastados pelas primeiras impressões. Os mais atentos provavelmente se lembraram de duas coisas:
 
 
1º) Qual a missão de Jesus e de que fonte Ele a recebeu? Os versículos 11 e 12 de Marcos são retirados de Is 42,1, onde se lê: “Vejam o meu servo, (...) nele tenho o meu agrado. Eu coloquei sobre ele o meu espírito, para que promova o direito entre as nações”. Ora, o direito, segundo o mesmo Isaías, era fazer justiça aos pobres (órfãos, viúvas, estrangeiros etc.). Hoje, quem são os pobres e quem está a favor deles? Que dizem essas pessoas ou grupos sobre as manifestações? Eles tomam parte nisso? De que forma? Essa última questão nos remete ao segundo ponto, que é...
 
 
2º) De que maneira Jesus organizou sua revolução? As pessoas punham seus camelos na estrada e protestavam contra tudo e contra todos? Parece que não... Primeiro, o Nazareno anunciou a chegada de um novo tempo e exigiu mudança de atitude (v.15). Depois, formou grupos pequenos (vv. 16 a 20). Por fim, demonstrou que o espírito do grupo deveria ser de doação e serviço ao próximo (v. 21 em diante).
 
 
Por mais que as massas o procurassem – e Ele dedicasse algum tempo a atendê-las – Jesus sempre recusou a popularidade fácil (vv. 35 a 39). Ele sabia que multidão desordenada logo vira rebanho, ajuntamento sem capacidade de reflexão, guiado apenas pelo cajado de um pastor. Organizando seus seguidores em pequenos grupos (como os doze apóstolos, o círculo de mulheres, o núcleo de Betânia etc.), em apenas três anos, Cristo mudou definitivamente o mundo.
 
 
Pensando agora, sob esse novo olhar, será que fazem tanto sentido assim essas manifestações? Pelo que estamos lutando mesmo? O gigante acordou? Que gigante é esse? Será um monstro devorador de criancinhas? Em São Paulo, prefeito e governador disseram que baixaram as passagens, mas terão que subir outros impostos (PT e PSDB juntos... fim dos tempos?). Abasteci hoje meu carro e fui surpreendido com o aumento de R$ 0,20/litro da gasolina. Será que o gigante põe medo em nossas autoridades? Sabemos exatamente o que queremos? Estamos atingindo nossos objetivos assim? Haveria outra forma? O que isso exigiria de nós? Estamos dispostos?
 
 
O caminho é longo e não se resolve em alguns confrontos com a polícia militar. O lado bom é que, de uma hora para outra, todos se interessaram por assuntos como o funcionamento dos impostos, os royalties do pré-sal, a tal de PEC 37... Os movimentos sociais estão com a faca e o queijo na mão. Esta é a nossa melhor chance de mobilizar a nação. Vamos para as ruas, sim, mas de forma organizada. Lutemos para que o Brasil realmente seja de todas e de todos.

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Enfim, Diplomado!

Colocando, finalmente, os pés no chão, volto a publicar neste espaço. Vivi uma experiência fantástica, minha formatura. Agora, sou graduado em Letras - Português. Entre tantos momentos maravilhosos, tive o prazer de ser o orador da turma. Eis o...

DISCURSO P/ FORMATURA DO CURSO DE LETRAS

Magnífico Sr. Reitor, aqui representado pela Sra. Diretora do Polo Novo Hamburgo, Tereza Dela Pace, professoras, colegas, familiares e demais aqui presentes, boa noite! Finalmente, é chegado o grande dia. Três anos, muitas provas e noites brigando contra o tempo, a conexão ou a plataforma congestionada (todo mundo deixando para postar na última hora), inúmeras idas e vindas a Novo Hamburgo e cinco gravidezes depois (é, senhoras e senhores, esse curso foi muito fértil, em todos os sentidos, mas, enfim...), aqui estamos nós.

Gostaria de poder dizer: “Tamo junto!” Porém, uma das primeiras coisas que aprendemos foram os níveis de linguagem. “Tamo junto” pode não estar errado, dentro do processo comunicativo, mas é inapropriado para o contexto. Por isso, em respeito a este ato solene, limito-me a dizer: “Como é bom partilhar este momento de intensa alegria com as senhoras e senhores, estimados colegas”. Entretanto, quando sairmos daqui e formos festejar com nossos parentes e amigos, poderemos dizer: “Que tri viver isso com vocês!”

Lembram-se, colegas, nosso primeiro dia de aula? Fizemos uma apresentação e externamos nossas expectativas. Uns diziam, quase chorando: “Não quero lecionar para os ‘maiorzinhos’.” Outros, ao contrário, preferiam não lidar com os anos iniciais. Um de nós, inclusive (este que vos fala), queria ser escritor. Como é bom relembrar isso agora. Será que mantivemos nossos ideais? Ou construímos novos planos? Seja como for, nós, que estamos vivenciando este momento, continuamos com uma meta. Estar aqui é cumprir a primeira etapa. Vamos relembrar o que aconteceu?

O curso foi bom, mas nos deu uma tremenda dor de cabeça. Há quem ainda trema ao simples pronunciamento da palavra “latim”. Umas e outros sofreram com o uso da crase e dos porquês. A linguística vai deixar alguns sem dormir direito por mais uns dias. E o novo acordo ortográfico? O trema se foi e não deixa saudade. Mas como saber, agora, o que se escreve junto ou separado? Vai hífen, não vai? Fora outras disciplinas. Eu, por exemplo, já deixei de orar, antes das refeições e de dormir, porque fico me perguntando: “Seria esta uma oração coordenada? Sindética ou assindética? Ou seria subordinada substantiva objetiva direta e/ou indireta?” Ah, como a vida era simples...

Não pensem, entretanto, que estou me queixando. Creio representar a turma quando digo que estamos realizando um sonho. A maioria, inclusive, já lecionava antes de iniciar o curso. Pensando bem, somos uns doidos. Só nós mesmos para pleitearmos a profissão de educadoras e educadores em um país onde a educação e a cultura não são valorizadas. Fazer o quê? Diz o ditado popular – e isso também é um saber: “o que é do gosto, é regalo da vida”.

Um ciclo termina, outro se inicia. O canudo é uma conquista mas também uma responsabilidade. Ao sair daqui, teremos a missão de levar o saber a nossos alunos. Aliás, desculpem-me... ato falho! Já se foi o tempo em que os alunos (do latim: os “sem luz”) deveriam recorrer ao mestre, detentor da sabedoria. Ouso dizer que a graduação em Letras nos trouxe uma grande e boa notícia: um novo conceito está surgindo. Educadores não portam luz; geram conhecimento. Quem se apropriar dessa novidade, sobreviverá aos desafios de lecionar no terceiro milênio.

Isso não quer dizer que o professor deve deixar de ensinar. Pelo contrário. O educador deve reaprender a lecionar, preocupado com o que o educando aprende, não só para passar de ano, mas para a vida. E o professor de Letras deve, sim, ensinar a ler. Mas, junto com as palavras, o educando precisa aprender a ler o mundo, a vida, a sociedade em que vive. Esse não é só o papel da Literatura, mas de qualquer conteúdo programático de um bom professor, uma boa professora de Língua Portuguesa. Que me perdoem os desafetos de Paulo Freire, mas não posso deixar de citá-lo: “Não basta ler mecanicamente ‘Eva viu a uva’. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”.

Bom, colegas, não quero assustá-los. Hoje é dia de festa. Sei que todos estão cientes do que nos aguarda. Semana passada, houve um concurso do Estado para o Magistério. Espero, sinceramente, que continuemos juntos, dessa vez como profissionais. Festa hoje, festa sempre. Festa não é sinônimo de irresponsabilidade, mas de alegria. Lecionar deve ser um ato de extrema alegria, senão vamos continuar contribuindo para o descaso cultural e sistêmico com a educação. Só nós podemos mudar o mundo. E faremos isso mudando as pessoas, a começar por nós mesmos. Desejo, às senhoras e senhores, sucesso!

Por fim, peço que todos baixem suas cabeças, pois faremos uma oração... coordenada assindética aditiva: “Vim, vi, venci!” Muito obrigado!

Ulbra – Canoas, 25 de maio de 2013.