quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Bíblia e Saúde

Buenas... Começa a quaresma, período em que a ICAR realiza sua Campanha da Fraternidade. Este ano, o tema é saúde. A convite da revista Redemoinho, escrevi o artigo abaixo, sempre “daquele jeito”, com linguagem ecumênica e em busca de uma hermenêutica juvenil. Espero suas participações, pois elas certamente enriquecerão e farão dessa reflexão um grande trabalho em mutirão. Com vocês...

SAÚDE E PAZ
“Que a saúde se difunda sobre a terra.”
(Eclo 38,8)

1.      Saúde: ausência ou essência?
Numa reunião de grupo de jovens, foi feita a seguinte pergunta: “O que é saúde?”. Surgiram algumas respostas interessantes, mas a maioria relacionou o assunto à ausência de doença. De certa forma, isso reflete o senso comum. É como se a saúde fosse resultado de um conjunto de medidas preventivas com uma pitadinha de sorte (considerando que algumas doenças são hereditárias, congênitas, adquiridas involuntariamente, ou simplesmente “aparecem”). Com tantos avanços da medicina, possibilitando cada vez mais se chegar à longevidade em plenas condições de se viver a vida com autonomia e dignidade; da estética, atrelando a boa aparência (exigência do Mercado) a condicionamento físico e hábitos saudáveis; da psicologia, tratando adequadamente estresse, ansiedade, depressão e outros problemas que antes eram considerados leves indisposições ou “falta do que fazer”; com tudo o que fazem essas e outras ciências, é de se perguntar: será somente isso? Saúde é ausência de doença? Os avanços vêm para evitar a morte, ou melhorar a qualidade de vida?
O dicionário[1] parece confirmar o senso comum:saúde: sf (lat salute) 1 Bom estado do organismo, cujas funções fisiológicas se vão fazendo regularmente e sem estorvos de qualquer espécie. 2 Qualidade do que é sadio ou são. (...) 7 Bem-estar físico, econômico, psíquico e social (conceito moderno).” Porém, recorrendo à etimologia, encontramos:
A palavra saúde vem de salus. Salus é uma palavra latina que significa, ao mesmo tempo, saúde e salvação. Inclui alma e corpo, espírito e matéria; não separa as coisas. Por isso, quando a Bíblia fala em salvação (salus), convém lembrar a origem bem material desta palavra, a saber, a saúde. A palavra hebraica para indicar a saúde vem da raiz shlm que significa ficar inteiro. Daí vem a palavra shalom, isto é, paz.[2]
Salvação, corpo e alma, ficar inteiro, paz. São significados que parecem estar mais relacionados à qualidade de vida do que à ausência de alguma coisa. Chama particular atenção o fato de salvação e saúde terem o mesmo radical. Ainda hoje deparamo-nos com devoções que separam os planos, desprezando o físico e idealizando o espiritual. Herança, ainda, do dualismo grego. Porém, tendo as duas palavras o mesmo radical, saúde e salvação devem ambas inspirar cuidados com o corpo e a alma. Isto é ficar inteiro, ou melhor, ser por inteiro. Isto é a paz.
2.      Obstáculos para a Paz
Partindo desse princípio, passemos a questionar o que impede a nossa saúde de acontecer por inteiro, plenamente, isto é, o que nos impede de obter a paz. Segundo o Mapa da Violência 2011:
as epidemias e doenças infecciosas, que eram as principais causas de morte entre os jovens há cinco ou seis décadas, foram progressivamente substituídas pelas denominadas “causas externas” de mortalidade, principalmente acidentes de trânsito e homicídios. (...) em 2008, quase 3/4 da mortalidade juvenil deve-se a causas externas (ou também, causas violentas, como costumam ser denominadas). E, como já tivemos oportunidade de expor ao longo do trabalho, o principal responsável por essas taxas são os homicídios.[3]
Logo, devemos concluir que as doenças não são tão preocupantes, no universo juvenil, quanto a violência. Diariamente há jovens que, quando não perdem a vida, ficam mutiladas/os, inválidas/os, traumatizadas/os, sendo vítimas (e também promotoras/es, em muitos casos) de acidentes de trânsito, brigas de gangues, assaltos, estupros, desentendimentos, confrontos com a polícia... Outras/os são contaminadas/os por DSTs, em relações consentidas ou forçadas, ou AIDS/HIV, pelo sexo ou pela partilha de agulhas contaminadas. Isso sem contar os males causados direta e indiretamente pelas drogas.
Não negamos, com isso, que os casos de doença também estão assombrando as/os jovens. Infarto, câncer, AVC, doenças respiratórias, coronárias, problemas anteriormente relacionados aos idosos, mas que hoje assolam todas as faixas etárias. Isso, porém, também é culpa da violência. Uma violência mais silenciosa, mas não menos destruidora. A exploração, as consequências extremadas de um capitalismo insaciável, que acelera cada vez mais os processos, faz as pessoas trabalharem mais, correrem mais, cuidarem-se menos. São os males do nosso século: estresse, depressão, ansiedade...
Outro grande mal do século é o sedentarismo. Como se fosse uma atualização do Mito da Caverna, de Platão, encontramos indivíduos vendo a vida passar na tela de um computador. Seu trabalho e seu lazer estão no mesmo ambiente virtual. Mas aí já estamos falando de uma classe mais restrita de pessoas (pelo menos por enquanto, já que a tendência de um futuro próximo é a virtualização de todas as relações humanas). Voltemos, então, aos problemas de saúde causados pela violência.
O governo tem proporcionado espaços para as discussões sobre políticas públicas para a juventude. Nesse ponto, o CONJUVE tem sido um ótimo exercício de protagonismo juvenil. Mas os avanços são muito tímidos. Não há, por exemplo, um Estatuto próprio para as/os jovens, enquanto crianças e adolescentes já são amparados pelo ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) desde longa data. Embora tenha sido aprovado pela Câmara Federal este ano, o projeto de lei que o institui continua tramitando no Senado. Enquanto não for aprovado, as/os jovens continuarão sem o amparo de leis e direitos específicos para sua faixa etária, que indiscutivelmente merece atenção diferenciada, inclusive na área da saúde.
A religião contribui para alguns entraves quanto à aprovação do Estatuto. Em especial, a questão da homossexualidade, tema sempre polêmico. Segundo nota no site do Senado[4], o impasse está entre a bancada evangélica e o movimento GLBT. Isto se deve ao fato das alas mais conservadoras das Igrejas – e podemos incluir boa parte da ICAR – tratarem a orientação homoafetiva como pecado ou doença.
Aliás, a sexualidade é uma questão que sempre gera embate entre as religiões e as juventudes. Segundo o Ministério da Saúde:
A primeira relação sexual está acontecendo cada vez mais cedo. É muito importante que adolescentes e jovens estejam informados sobre sexo seguro, incentivando-se o uso da camisinha masculina ou feminina em todas as relações sexuais. Os serviços de saúde devem garantir atendimento aos(às) adolescentes e aos(às) jovens, antes mesmo do início de sua atividade sexual e reprodutiva, para ajudá-los a lidarem com a sua sexualidade de forma positiva e responsável, incentivando comportamentos de prevenção e de autocuidado.[5]
Por afirmações como essa, algumas denominações e/ou lideranças religiosas acusam o Estado de incentivar a promiscuidade. “Ignora-se” o fato de que as/os jovens estão se relacionando cada vez mais cedo. O Estado oferece os métodos contraceptivos, as Igrejas (ou lideranças religiosas) discordam e condenam, o ideal de castidade não atrai as/os jovens... O que fazer? Não é de se admirar que uma juventude como a atual seja tão religiosa e, ao mesmo tempo, tão adepta a espiritualidades alternativas. Como dialogar com quem, em vez de acolher, libertar e reintegrar, usa sua autoridade para declarar culpados (isto é, pecadores)?
Falando nisso, há quem recorra à Bíblia para afirmar que a doença é consequência do pecado (2Cr 26,16-20; 1Sm 5,6; Jo 9,2). Jesus, porém, parece discordar. Em Jo 9,3.6-7, Ele não só nega que o pecado seja a causa da cegueira de um rapaz como restaura-lhe a visão. Se o mal fosse castigo pelo pecado, ao curar o rapaz, não estaria o Cristo desautorizando seu pai, Javé? Devemos, então, compreender que o entendimento sobre doenças era limitado naquela época. Aliás, as deficiências invisíveis aos olhos, como a mudez, a surdez e a epilepsia, eram consideradas possessões demoníacas. Em nossos dias, alguém ainda acredita nisso? Devemos, então, confiar na Bíblia quando o assunto é saúde? Voltaremos a este assunto adiante.
Enquanto aguardam o próprio Estatuto, as/os jovens ainda sofrem em outro aspecto, o sócio-econômico. Vejamos o caso de Gabriel Paulino dos Santos Sales, 21 anos. A morte deste rapaz, ocorrida recentemente, chocou o Brasil. Os jornais noticiaram que, após cair de uma laje, o jovem precisou percorrer 90 km, passando por 6 hospitais públicos do Rio de Janeiro, para ser atendido. Em nota[6], a Secretaria Estadual de Saúde, embora negando falta de atendimento, deixa entrever ao menos a falta de estrutura adequada para prestar socorro em tempo hábil e em qualquer casa de saúde. Pouco antes de sua morte, seu pai desabafou:
Se fosse o filho de um deputado, já tinha saído boletim médico logo pela manhã, mas ele é filho de um operário. É muito ruim ver meu filho dentro de uma ambulância, em coma, e andar esse tempo e não ser atendido. Quando é para futebol, Copa do Mundo, o governo libera dinheiro, mas cadê para saúde? Como vou para minha casa tranquilo, se estou vendo meu filho praticamente morto?[7]
Ainda que o comentário sobre a Copa seja, na verdade, o eco da barulheira que tem feito a oposição política ao atual governo, não se podem ignorar as palavras desse homem. O ocorrido, se não é fruto de negligência do corpo médico, deve-se ao menos à morosidade e ao descaso em relação à saúde pública. O sentimento de inferioridade traduz como os pobres são tratados, não só no Brasil, mas em todo o mundo. Ainda hoje o “sábado”, isto é, intricadas questões burocráticas e de interesses elitistas colocam as leis acima da vida do povo.
3.      A Vida acima da Lei
O sábado é um tema bíblico delicado. Inicialmente, era um dia de descanso (Ex 31,15) e de celebrar a vida. Depois, estendeu-se a um período maior. Surgiram os anos sabáticos: tempo de libertação (Dt 5,15), solidariedade (Dt 15,9-11) e perdão de dívidas (Dt 15,1). Era o tempo de sonhar uma sociedade sem pobreza (Dt 15,4). Tudo ia bem, mas... Aos poucos, a promoção da vida foi sendo substituída pela preocupação com o puro e o impuro (Nm 6,9), e tornou-se mais importante cumprir a lei do que entendê-la. Pesados castigos foram impostos a quem não observasse o dia de descanso (Ex 35,2). Por isso, tornaram-se muito significativas as curas de Jesus aos sábados.
Não por acaso, logo após discutir a lei com os fariseus (Mt 12,1-8), encontraremos Jesus numa sinagoga, em pleno sábado, curando um homem com paralisia numa das mãos (Mt 12,9-14). Ele não pergunta se o rapaz tem convênio, ou é atendido pelo SUS. Ele não quer saber se a pessoa está em dia com o plano de saúde. Ele não pergunta se o moço toma seus remédios regularmente. Ele sequer diz: “volte amanhã que hoje estamos fechados”. Ele simplesmente cura.  Os fariseus, que antes já haviam discutindo sobre os discípulos colherem as espigas de trigo no dia santo, agora decidem matar aquele que restabelece a verdade dos fatos: “o sábado foi feito para a humanidade, e não o contrário” (Mc 2,27).
É função das cristãs e cristãos de hoje perguntar: por que não quereis curar esta jovem, este jovem em dia de sábado? Isto é, que lógica absurda é essa que leva uma pessoa a ter que andar 90 km de ambulância implorando socorro, passando por 6 hospitais, antes de ser atendida? Que sistema é esse que gera tanta violência, a ponto de impedir um enfermo de ser atendido porque os médicos de plantão estão atendendo uma emergência? Que leis são essas que não asseguram, de fato, o direito à saúde? Lembrando-nos que saúde e salvação possuem o mesmo radical etimológico, cumpre, por fim, perguntar: quem vai salvar nossas/os jovens?
No meio católico romano, a saúde será o tema da Campanha da Fraternidade de 2012. Seu lema será: “Que a saúde se difunda sobre a terra” (Eclo 38,8). É dever dos grupos de jovens discutir quais são, de fato, os seus direitos nessa área. Como fazer para que sejam respeitados, ou (em sua ausência) conquistá-los? O Estatuto da Juventude é uma alternativa? E o CONJUVE? E as pastorais ou movimentos religiosos de juventude? Caso o grupo desconheça alguma dessas nomenclaturas ou iniciativas, deve-se buscar informações para enriquecer o debate. O que os grupos não podem é deixar passar esse momento de oração, reflexão e ação.
A mão paralisada é a impotência de controlar a própria vida. Ao restituir os movimentos, a força, a saúde à mão do moço da sinagoga, Jesus o impele a ser novamente o protagonista de sua história. O que paralisa nossas mãos, isto é, o que nos impede de decidirmos os rumos da saúde-salvação-paz das/os jovens? De que forma podemos combater esse poder que nos oprime?
Sem dúvida, é fundamental continuar a discutir a cura do câncer, da AIDS, do ebola etc. As DSTs devem continuar sendo uma preocupação. Não podemos ignorar os males do século (estresse, ansiedade, depressão...). Mas parece que já existem especialistas empenhados em resolver essas questões. Então o que fazer? Que tal respondermos às seguintes perguntas: o que mais priva as/os jovens de manter a saúde-salvação-paz? O que as/os impede de ter qualidade de vida, de ter vida plena? Quais as causas de seus males? É possível combatê-las? Juntos ou sozinhos? De qualquer jeito ou de forma sistematizada? Através das instituições ou longe delas? Que ações concretas já existem ou poderão ser organizadas? Quais as parceiras e parceiros que poderão ajudar?
Ainda que pouco possamos fazer, se conseguirmos ao menos colocar a saúde na pauta dos centros de decisão, já teremos dado nossa contribuição para o debate. Porém, não descansemos nunca, ousemos sempre mais. Melhor será o dia em que o poder realmente emanar das mãos (curadas, libertas) do povo, garantindo saúde-salvação-paz-vida plena para nossas/os jovens.



[1] Utilizamos o dicionário online Michaelis por considerá-lo, quanto a este verbete, o mais completo. Ver: http://michaelis.uol.com.br/moderno/portugues/index.php?lingua=portugues-portugues&palavra=sa%FAde
[2] MESTERS, Carlos; Os Profetas e a Saúde do Povo – Série “A Palavra na Vida”, pág. 8 a 9. CEBI, São Leopoldo, Brasil, 2008.
[3] WAISELFISZ, Julio Jacobo: Mapa da Violência 2011 – Os Jovens do Brasil, pág. 75, Instituto Sangari, São Paulo, 2011.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Pedagogia de Jesus e a Campanha contra a Violência

Durante o Seminário Estadual da Campanha contra a violência e extermínio de jovens, ocorrido nos dias 03 e 04 de dezembro de 2011, fui convidado a fazer a oração do domingo de manhã. O texto escolhido foi Mc 5,1-20. A seguir, um resumo da reflexão.

Esta passagem fala da cura do geraseno endemoninhado. Diferente dos outros, seu caso de possessão chama a atenção pela quantidade de demônios: uma Legião. A força dela é tão grande que nenhuma corrente pode segurar o possesso.

Numa leitura superficial, podemos comparar essa situação ao sentimento de impotência do grupo diante das dificuldades e incertezas que surgiram após o primeiro impulso da campanha. Vamos continuar apenas conscientizando as pessoas de que afirmar o extermínio de jovens não é exagero, é fato, ou podemos ir além? Que passos podemos dar? Queremos mudar o mundo? Podemos mudá-lo? Parecemos acorrentados, mas Jesus mostra que há uma solução...

E que solução é essa? Bom, talvez seja hora de aprofundar o texto. E aí partimos para uma segunda interpretação, mais contextualizada.

Legião era o nome do exército romano. É como se, hoje, numa proporção global, aquele coletivo de demônios se chamasse Pentágono (centro de inteligência do exército estadunidense). Ou, então, trazendo mais para perto de nossas jovens, nossos jovens e da campanha, poderíamos denominá-lo Forças “Pacificadoras” do Estado (a saber: Polícia/Brigada Militar). Expulsando-os, não acabamos com o problema. Precisamos saber que essas forças estão a serviço de alguém. Logo, combatê-las é, na verdade, lutar contra todo um sistema opressor. E isso é possível? Continuemos olhando para o texto...

Interessante observar que Gerasa é “do outro lado do mar”, isto é, um povo vizinho (mais especificamente, ao norte da Galileia). Contrariando o que nos ensina a Tradição, a palavra “hebreus” não indica raça, mas condição social. Para os egípcios, hebreus ou hapirus eram aquela gentinha do outro lado do mar... Ser hapiru significava não ter pátria, não ter parada, viver à margem da sociedade. Alguns séculos se passaram, e os judeus, forjando o mito da raça pura, esqueceram suas origens. Como resultado interno, criaram um monte de leis de pureza e impureza. Externamente, consideraram os “do outro lado do mar” um povinho, gente desqualificada, idólatras, nações que não seguem o verdadeiro Deus Javé. Indo ao encontro dos gerasenos, os “da outra margem”, Jesus “refresca”, em Israel, a memória de que, antes de ser o “povo eleito”, este teria sido, lá nas origens, também um grupo marginalizado. Diante de uma ameaça comum (isto é, Roma), essa lembrança tinha o intuito de levar os judeus a esquecerem suas regras de pureza e se unirem aos povos vizinhos.

Aqui, um parêntese! Estávamos pensando quais passos poderiam dar as PJs em sua campanha contra a violência e extermínio de jovens. Ora, por não se cansarem de afirmar que a juventude (no singular, mas indicando todos os grupos juvenis) quer viver, parece óbvio que elas precisam unir-se a outras denominações, outros segmentos. Afinal, outras juventudes também estão sendo exterminadas e, provavelmente, não querem morrer. No Rio Grande do Sul, foram acolhidos os movimentos Juventude LibRe e Levante Popular da Juventude. Entretanto, podemos galgar outros espaços. Recentemente, houve um curso sobre juventudes e ecumenismo, onde poderíamos contribuir a partir das reflexões da campanha. Participamos? E para este Seminário? O movimento ecumênico é muito forte no Estado. Será que outras entidades, religiosas e civis, foram suficientemente sensibilizadas a estarem presentes? O convite ao CEBI, neste sentido, foi um importante passo. Mas será que ainda podemos fazer mais?

Voltemos à libertação do Geraseno. O medo aparentemente vence. Mesmo vendo o que foi feito pelo possesso, o povo da região expulsa Jesus. Conheciam, de antemão, do que era capaz a Legião. Tropas mais poderosas viriam manter a “paz”. Enquanto os pequenos vivessem isolados, em seus mundinhos particulares, Roma triunfaria. E foi o que aconteceu por séculos a fio, pois nem os judeus nem seus vizinhos estavam dispostos a unir forças.

Entretanto, a aparente derrota não foi o fim da resistência. Ao rapaz liberto, que queria subir na barca de Jesus (isto é, refugiar-se na contemplação pura e simples do sagrado), a ordem foi clara. Fica em tua terra, caminha com teu povo e conta aí o que te aconteceu. Espalha a notícia de que, pela união dos pequenos, é possível vencer as forças que oprimem o povo. No fim das contas, a incursão do Nazareno não havia sido um fracasso total porque um “filho da terra” havia compreendido sua missão e abraçado a causa. Era necessário, “apenas”, que ele espalhasse a “Boa Nova”. O Cristo sabia que as coisas só mudam, de fato, quando povo evangeliza povo, jovem evangeliza jovem.

Concluído o raciocínio, seguimos para a sala de reuniões cantando uma música que não lembro agora. Mas bem que poderia ter sido: “Se caminhar é preciso, caminharemos unidos...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Aproveitando o 10º ENPJ


Tenho recebido muitos pedidos para estar em “sintonia” com as/os jovens do 10º ENPJ (estar em oração, na verdade, com tudo o que significa o ato de orar, mas “sintonia” deve ser um nome menos “surrado”). Devo dizer que isso se faz mesmo necessário, pois um encontro nacional requer mesmo muita sintonia (uso o termo agora como sinônimo de unidade).

PARÊNTESE: Pra você, que está chegando agora, não importa de que denominação seja, o ENPJ é o Encontro Nacional da Pastoral da Juventude da ICAR (Igreja Católica Apostólica Romana). Fique atenta/o! De alguma forma, isto servirá pra você também!

Recentemente, presenciei uma discussão entre pejoteiras e pejoteiros. Os do norte e nordeste acusando os do sul e sudeste de se sentirem superiores, e estes acusando aqueles de se fazerem de vítimas (ou, para utilizar um termo atual: de “coitadismo”).

PARÊNTESE II: É importante dizer isso agora porque o clima é de festa, e essas desavenças tendem a ser temporariamente esquecidas. Mas, em algum momento, a discussão vai aparecer de novo, e pode ser que alguém se lembre de ter lido sobre isso em algum lugar.

Além disso, vejo muita resistência de alguns grupos ao que não tem a logo da PJ. Obviamente, não é em todos os lugares. Há que se destacar, por exemplo, a participação ativa na REJU (nos lugares onde ela tem funcionado). Mas sinto que falta o espírito ecumênico, principalmente em espaços onde a PJ não é maioria, ou não teve a iniciativa da proposta. E não estou falando só do Setor Juventude. Temos proposto, aqui no sul, várias atividades ecumênicas no campo da Leitura Popular da Bíblia. Entretanto, as pejoteiras e pejoteiros sempre estão envolvidos em campanhas, atividades e eventos internos. O curioso é que o projeto “Bíblia e Juventudes” poderia abrir espaço para fazer ideias como a da campanha contra a violência e extermínio de jovens ganharem eco em outras denominações e, quem sabe, atingirem as ruas. Mas talvez as lideranças da PJ ainda não tenham percebido a questão por esse viés...

Mas enfim... Falando sobre o ENPJ, sua abertura oficial deu-se com a missa do último domingo (08/01/2012). Na ocasião, a ICAR celebrou a liturgia dos “Reis” Magos, popularmente chamada “Folia de Reis”. Herança folclórica dos portugueses, essa festa mexe com todo o povo (inclusive eu: veja). Culturalmente, é uma manifestação muito rica. Porém, como as Escrituras nem sempre foram acessíveis à maior parte do povo, este acabou contando a história à sua maneira, de forma que ficou muito difícil separar o enredo original da lenda.

A bem da verdade, o texto bíblico facilita esses “acréscimos”, pois também é uma ficção. Presente apenas em Mateus, a história toda é um midraxe (ou “midrash”, como queiram), isto é, uma releitura da tradição judaica, mais especificamente da narrativa do Êxodo. É o que se percebe pela semelhança entre cenas como a sentença de Herodes (Mt 2,16-18) e a do Faraó (Ex 1,15-22). Além disso, o Êxodo fala em um Deus que “desce” para socorrer o seu povo (Ex 3,7-8). O Cristo faz o mesmo, tornando-se um de nós. Por este recurso literário, Mateus nos convida a entender o messianismo de Jesus na ótica do Javé que ouve o clamor dos pobres.

A figura dos Magos é emblemática. Denominados “Reis” pela tradição (título não encontrado na Bíblia), esses homens estão mais para sábios. De fato, estão mais para astrólogos, pois conseguem identificar num astro (a Estrela do Oriente, que representa a Estrela de Davi) o sinal de que havia nascido o “rei dos judeus” (Mt 2,2). Muito do que se diz sobre eles, inclusive suas idades e nomes, é fruto da tradição. O texto faz questão apenas de dizer que esses eram Magos do Oriente (Mt 2,1).

Mateus fala para judeus convertidos ao cristianismo. Por isso, defende a “descendência de Davi”, tentando demonstrar como o seu “herdeiro” vem, não exatamente para restaurar o seu reino, mas inaugurar um novo, celestial. Nesse novo Reino há espaço para todos, inclusive os árabes (região de onde provavelmente vieram os magos, a julgar pelos presentes: ouro, incenso e mirra). Estes são, segundo a Bíblia, herdeiros de Ismael, filho de Abraão (Gn 16). Portanto, têm a mesma origem de Israel. Entretanto, são inimigos mortais. A visita dos sábios-astrólogos é promessa de um mundo sem guerras nem divisões, onde todos são irmãs e irmãos: uma verdadeira Terra sem males.

Reforça este pensamento o fato de que os detentores do projeto de morte, Herodes e o Império romano, não participaram da festa. Herodes, quando soube do nascimento, quis matar o menino (Mt 2,16). E Roma não mandou nenhum representante. Sequer os soldados que vigiavam a região perceberam o que estava acontecendo. Porém, os magos (também pertencentes a povos dominados pelo Império) e os pastores (Lc 2,8-20), isto é, os pobres da terra souberam interpretar os sinais e acolher a Boa Nova.

Por isso faz todo sentido estar em sintonia com as/os jovens do 10º ENPJ. Por outro lado, tomara que, neste encontro, a PJ reforce o compromisso de se unir a outros grupos que lutam por uma causa comum: a Vida. Devemos nos preparar para o momento em que todas/os seremos um (Jo 17,11). Nesse tempo, não importará se somos do sul ou do norte, Ocidente ou Oriente, católicas ou evangélicos, cristãs, budistas, muçulmanos ou ateus... Nenhum grupo ou religião poderá se denominar porta-voz exclusivo da divindade. Antes, o macroecumenismo (diálogo entre os povos, independente de religião) é que será a verdadeira antecipação do Reino. A Bíblia não diz que os magos se converteram ao cristianismo. Aliás, nem Jesus morreu cristão. Portanto, não confundamos unidade com uniformidade.

E você? Calma, não precisa se justificar... Apenas pare e pense: Qual foi o último evento ecumênico do qual participou? Lembrou??? E viva a diversidade!!!

O Poder da Notícia II

Mais uma do jornal de São Leopoldo/RS...
(e na mesma semana)


E aí? Você concorda?

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

O Poder da Notícia

Sou só eu, ou mais alguém vai ficar indignado com isso?

Veja a seguinte matéria, veiculada esta semana num jornal de São Leopoldo/RS:


O que ela te diz?

(Obs.: Os números apontam que as vítimas têm entre 18 e 35 anos; ou seja, estamos falando de violência juvenil.)

sábado, 7 de janeiro de 2012

Vocação: Juventude


Este post também poderia se chamar: "Recordar é Viver". Segue o primeiro dos textos sobre Bíblia e Juventudes que pretendo migrar do "osperegrinos" pra cá.

VOCAÇÃO: JUVENTUDE

Creio que, ao sermos perguntados sobre o que é vocação, alguém dirá que é uma palavra proveniente do latim “vocare” e significa “chamado”. Bom... Isso é o básico que aprendemos na catequese e/ou nas escolinhas dominicais, não é!?! Mas, se nos perguntarem: “chamadas/os a quê?”; aí vai embolar o meio-de-campo.

O mais provável é alguém dizer que somos chamados a ser engenheiros, médicas, psicólogas, arquitetos... Claro, empregos bons de preferência, porque em teste vocacional de faculdade nunca aparece balconista, servente de pedreiro, ou gari.

Mas vocação está mesmo atrelada a sucesso profissional? Viver a vocação é uma realização pessoal? Não é de um chamado que estamos falando? Quando alguém nos chama, é para que seja satisfeita a nossa necessidade, ou a de outrem?

Folheando a Bíblia, temos várias vocações. Vamos olhar uma mais de perto: a vocação de Moisés. Ela está em Ex 2,23-4,17, mas não precisamos ler tudo de início. Para começar, basta irmos até o cap. 3v. 10. O Deus que aí encontramos vê a miséria de um povo, ouve o seu clamor, desce, age... Ele está presente, de forma atuante, junto desse povo. Mas de que forma Ele atua? Deus diz que vai libertar o povo, mas manda Moisés ir ao Faraó. Ora, quem vai libertar o povo? É Deus ou Moisés?

O modo de Deus atender o clamor do povo é acionando Moisés. A vocação, o chamado de Moisés é ir ao centro da opressão (Egito) e dizer ao opressor (Faraó) que deixe o povo partir. Tarefa fácil??? Sabemos que não... Mas o que convém destacar aqui é que...

A vocação de Moisés é a resposta de Deus ao clamor de um povo.

Ah... E Moisés se vê realizado profissionalmente com isso??? Conte quantas vezes ele nega a missão, lendo de onde paramos até o cap. 4v. 17. Cinco vezes? Pois é... e pelos motivos mais covardes e mesquinhos possíveis.

Moisés sabia a situação do povo. Ele já havia fugido do Egito porque não suportava ver o povo naquela situação e sabia que, se ficasse ali, acabaria se envolvendo (Ex 2,11-15). Javé não fala de uma situação que Moisés não conhece. Moisés só queria fazer de conta que não existia... Mas, em vez de se consumir, a sarça ardia cada vez mais em seu peito.

Olhando para hoje, a realidade juvenil... Quais são os clamores das/os jovens? Quem são o Egito e o Faraó da juventude? E o nosso Moisés? Será ele um justiceiro solitário?

Olhando Ex 3,16; 4,13, veremos Javé orientando Moisés a procurar Aarão e os anciãos. Javé ordenou que Moisés procurasse ajuda, não fosse sozinho. Moisés formou um grupo, formou comunidade.

Ser Juventude, no fim das contas, é isso: Viver em comunidades (as “tribos”), de forma consciente, responsável, articulada, organizada (Moisés fará isso, Aarão aquilo...). E tudo isso para atender ao clamor de um povo. Aliás, povo do qual, a princípio, essa mesma juventude faz parte.

sábado, 24 de dezembro de 2011

BOAS FESTAS!!!

Bom, pessoal...

Eu não tenho a menor inspiração para escrever algo sobre o Natal e o Reveillon. Não é que eu não goste de comemorar as festas de fim de ano... Mas o que muda efetivamente?

É tempo de repensar a vida? Rever conceitos? Fazer memória do nascimento de Jesus? Mas essa não deve ser uma atitude constante? Ou o resto do ano é tempo de sermos alienadas e alienados?

O que há de nobre em ser generosa, generoso nesta época? Só porque assim "exige" o espírito natalino?

Pra que fazer tantos planos que são engavetados assim que entra o dia 02 de janeiro? Por que esperar que as pessoas pratiquem valores cultivados somente em uma semana do ano?

Digo a vocês o que penso dessas datas! Em um mundo ideal, elas seriam tempo de comemorar o amor universal, a paz mundial, a erradicação da miséria e da fome, dia de comemorar a vida, a saúde e a felicidade.

Mas como não vivemos em um mundo ideal, Natal e Ano Novo deveriam ser dias de (re)afirmar a luta por um mundo melhor, esta sim uma exigência do Evangelho.

Nunca é demais lembrar que Jesus veio ao mundo para trazer-nos de volta ao Plano Divino, citado em Jo 10,10: "Que todas/os tenham vida, e vida em abundância".

A ideia geral é festejar, alegrar-se, esquecer-se dos problemas, isto é, da vida real. Mas deveria ser ao contrário. Deveria ser dia de rezar pelas/os que sofrem e comprometer-se com a causa delas/es.

Que neste Natal e Ano Novo, em vez de revisitar o passado, meramente a contemplá-lo, possamos olhar para as conquistas do presente e para as possibilidades do futuro. E, em vez de simplesmente comemorar o nascimento de Jesus, perguntemo-nos: "Pra que Jesus nasceu?" Este sim é o sentido do Natal.

É com esta reflexão em mente que desejo a todas/os: BOAS FESTAS!!!