terça-feira, 3 de outubro de 2017

Por ocasião do meu Mestrado (um poeminha)

Eu poderia falar esta semana sobre a greve das servidoras e servidores da Educação no Rio Grande do Sul, que já está chegando à marca de 30 dias. Afinal, sou educador e esse é um problema que me atinge frontalmente.

Eu poderia falar sobre a volta da ameaça de redução da maioridade penal. Afinal, esse é um evidente ataque à dignidade da juventude empobrecida. E o que atinge a juventude empobrecida me atinge frontalmente.

Eu poderia falar de Francisco de Assis ou de Justiça Socioambiental (aquela coisa de “Irmão Sol, Irmã Lua”, etc. e tal...). Afinal, sou ecumênico de carteirinha e franciscano de berço, e o dia do Poverello está aí. Além disso, o temporal que assolou o Rio Grande do Sul no último domingo é um sinal de que o que estamos fazendo com o planeta nos atinge frontalmente.

Enfim, eu poderia estar matando (como em Las Vegas), eu poderia estar roubando (como o nosso Congresso), mas eu estou apenas refletindo... e, refletindo, resolvi trocar todas as preocupações expostas acima por uma, que foi o foco da minha dissertação (de mestrado, obviamente), defendida e aprovada com nota máxima em 29/09 (sexta-feira passada – motivo de eu romper com a promessa de postar mais frequentemente por aqui). Afinal, poucos foram os momentos tão felizes quanto este em minha vida. E o mais importante: é um trabalho que versa sobre o jogo dramático como estratégia de emancipação de jovens estudantes de escola pública. Não precisaria repetir, mas a vulnerabilidade e a invisibilidade que esse público sofre me (nos) atinge frontalmente.

Desse modo, como tempos difíceis pedem saídas alternativas, tá aí algo que é raro eu fazer, mas que, mesmo centrado em minha dissertação, de alguma forma contempla todas as questões acima, que nos atingem frontalmente: um poeminha...


Eu dedico estas linhas...

À juventude estudantil empobrecida,
latino-americana, silenciada,
embrutecida,
que, da periferia do capitalismo,
ensaia um grito
enfurecido, doído,
oprimido;
e sonha com o dia de sua alforria
de um sistema que devia
garantir-lhe pão, paz e alegria,
mas somente dá a ilusão
de que tudo falta, inclusive a educação,
e que a única solução
é entregar-se à bonomia
de quem, jurando abnegação
anuncia a sua missão:
vim substituir sua autonomia.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

TESSALÔNICA, A REFORMA E A ALA DOS ORFANADOS

A primeira carta aos tessalonicenses bem se podia chamar o manifesto de carinho da grande família. A mesma comunidade missionária (Paulo, Silvano e Timóteo) que chama seus destinatários de irmãos logo no começo (1Ts 1,4), coloca-se como mãe (v. 7b) e pai (v. 11) deles no capítulo 2. Como autênticas filhas e filhos, é aquela gente chamada de “nossa glória e nossa alegria” (1Ts 2,20). Quem os “elegeu” como família foi um Deus que é Pai (1Ts 1,1.3; 3,11.13), tornando-os irmãos e irmãs em seu Filho, Jesus (1Ts 1,10).
Essa linda história lembra um filme, Francesco, em que o santo de Assis apresentava a cada novo membro da ordem seus novos irmãos, irmãs, pais, mães, filhos e filhas, aos quais o noviço deveria se recomendar e cuidar como a uma família. Por outro lado, lembra também um lar para crianças, muito comum nas guerras, mas também presente em nossos dias: o orfanato. Aqueles jovens e crianças não têm mais ninguém na terra, a não ser uns aos outros. Ele próprio, Francisco, tornou-se órfão de pai vivo quando renunciou a tudo, inclusive às vestes do próprio corpo. Quem o seguia também era um orfanado (ou depois, com as clarissas, orfanada), renunciando a tudo para abraçar sua nova parentela.
Mas o que histórias tão tristes têm a ver com o manifesto de amor aos tessalonicenses? Curioso, primeiramente, notar que, em 1Ts 2,17, a comunidade paulina diz assim: “Ora, nós, irmãos, orfanados por breve tempo de vossa presença…” Algumas traduções podem trazer “separados”, “privados”, mas o termo grego é aporphanizu, “tornado órfão”. O sentimento, portanto, é de separação brusca do seio familiar. Em Lc 12,51-53, Jesus diz assim: “Pensais que vim estabelecer paz na terra? Não, eu vos digo; antes, divisão. Porque, daqui em diante, estarão cinco divididos numa casa: três contra dois, e dois contra três. Estarão divididos: pai contra filho, filho contra pai; mãe contra filha, filha contra mãe; sogra contra nora, e nora contra sogra.” E adiante, em Lc 14,26: “Se alguém vem a mim e não odeia a seu pai, mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e ainda a sua própria vida, não pode ser meu discípulo.” Palavras difíceis, que pouco parecem combinar com a imagem de um Deus afável que os evangelhos tentam transmitir. Ou estamos diante de um Jesus em seu dia de fúria, ou – o mais provável – isso era o que estava acontecendo nas comunidades.
O evangelho de Lucas é escrito por volta de 85 a 90 d.C., praticamente 40 anos depois da carta comunitária aos tessalonicenses. O texto tem paralelo somente no Evangelho de Mateus (10,34-37). O que eles têm em comum? São escritos praticamente na mesma época e na diáspora, isto é, em cidades do mundo greco-romano, fora de Israel. O templo e a cidade sagrada, Jerusalém, já tinham sido destruídos há quase vinte anos. Os cristãos e cristãs, considerados os verdadeiros culpados pela catástrofe, foram expulsos das sinagogas. Seus parentes “não-convertidos”, porém, continuavam frequentando as comunidades judaicas. Quem tem um tio ou uma prima neo-convertidos em casa deve saber como ficam os ânimos nestes casos. Só que lá a situação foi potencializada, devido ao desfecho trágico dos acontecimentos.
A destruição de Jerusalém, entretanto, não explica, por si só, essas animosidades. Ainda que os evangelhos fossem já uma releitura das palavras e gestos de Jesus (imagine-se contando uma história vivida por sua avó, antes mesmo de sua mãe ou seu pai terem nascido), é possível que, já em vida, Ele e sua comunidade (seguidoras e seguidores) tenham sido perseguidos por familiares consanguíneos. Como explicar, por exemplo, que o Cristo tenha evitado seus parentes quando soube que estes o procuravam? “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 8,21). Podemos aceitar que isso não tenha acontecido de verdade, que, embora o texto se encontre também em Mateus (12,49-50) e Marcos (3,34-35), trata-se de mais uma fábula para tranquilizar a quem, por aderir à “Seita do Nazareno”, se indispôs com a própria mãe. Mas, e a carta aos tessalonicenses, escrita por volta do ano 50 da E.C. (Era Comum)?
Mais fácil sabermos o que aconteceu da virada do milênio para cá do que nos porões da ditadura, não é verdade!? E não é só pela facilidade de informações que temos hoje. Feridas de 20 anos ainda estão recentes e são mais facilmente identificáveis que as de 60 anos. Nesse sentido, o afastamento de Paulo e seus companheiros de um ambiente que transbordava amor é o melhor comprovante de que esse rompimento histórico se deu já nas origens. A carta, escrita 20 anos antes da destruição do templo, conta como, naquela época, já havia grupos judaizantes que perseguiam os cristãos: “[os judeus] não somente mataram o Senhor Jesus e os profetas, como também nos perseguiram, e não agradam a Deus, e são adversários de toda gente, a ponto de nos impedirem de falar aos gentios…” (1Ts 2,15-16). Tal relato atesta, inclusive, os acontecimentos da segunda viagem paulina narrados em At 16-18.
Discute-se o tom antissemítico da carta. Parece que seria uma glosa, por destoar de outros textos paulinos. Não nos esqueçamos, porém, que ela foi escrita no calor do momento. Paulo e sua equipe acabavam de ser expulsos, consecutivamente e pelo mesmo grupo, de Tessalônica (At 17,10) e Bereia (At 17,13). Nesta, a bem da verdade, foram encontrados judeus (e mulheres – v. 12) mais nobres, assim como em Corinto (At 18,1-2 – os missionários são acolhidos por um casal judeu). Mas a raiva com os de Tessalônica devia ser tão grande que Paulo os chamou de Satanás (1Ts 2,18) e Tentador (1Ts 3,5).
Perfeitamente compreensível. Ainda hoje, após 500 anos da revolução causada pelas 59 teses de Martinho Lutero, os luteranos continuam sendo chamados, por alguns grupos até bem intencionados (tanto quanto eram os judeus tessalonicenses), de separados. O próprio termo “protestante” coloca-os em contraposição a uma religião “oficial”. Felizmente, a visita do papa Francisco à Suécia, ano passado, já é sinal de que os ventos estão mudando. Pela primeira vez, em tom de respeito e diálogo, prepara-se uma celebração conjunta por um dos centenários – o quinto, no caso – da Reforma. Lá o papa disse que a culpa da divisão entre luteranos e católicos é dos poderosos, que essa não é a vontade do povo fiel[1]. Na Igreja Luterana de Roma, este ano, foi mais específico[2]: “Por detrás dos muros humanos existe uma fantasia: [...] se tornar como Deus! Para mim, [...] a narração da Torre de Babel, é precisamente a atitude do homem e da mulher que levantam muros, porque erguer um muro é dizer: ‘Nós somos os poderosos; vós, fora!’. [Nisto] estão a soberba do poder e a atitude proposta nas primeiras páginas do Gênesis: ‘Sereis como Deus’ (cf. Gn 3, 5). Erigem-se muros para excluir; caminha-se neste rumo.” A comunidade católica mais nobre acolhe e vibra com essa boa nova. Já o grupo de Satanás (literalmente, “adversário, opositor”)...
Os pobres, de fato, parecem não se importar muito com essas divisões. A considerar o que diz 1Ts 4,11 sobre o povo trabalhar com as próprias mãos, podemos dizer que se tratava de uma comunidade de gente simples. Como simples foi o motivo que levou a equipe missionária a escrever a carta. Por intermédio de Timóteo, aquela comunidade humilde manifestou uma preocupação bem existencial: quando e como se dará a Parusia? Isto é, o que vai acontecer com nossos mortos quando o Messias voltar? E aqueles que nem conheceram a mensagem do Evangelho? Terão lugar garantido na nova Terra? E quem não se converteu? Vou voltar a ver minha avozinha? Aliás, quando Ele vai voltar? Já faz 20 anos que se foi... Cadê? A resposta mostra como o texto é antigo, talvez o mais antigo do Segundo Testamento. Aqui temos um Paulo que ainda acredita numa volta mágica e majestosa de Jesus. Ele diz algo do tipo: aguentem mais um pouquinho! Ele já deve estar chegando! Quando chegar, chamará os mortos primeiro! Mas depois seremos nós... Bem diferente da visão de Atos 1,9-11 – “Ele já voltou!” – e de 1Cor 11 – “Isto é o meu corpo... Isto é o meu sangue... Fazei isto em memória de mim!
Mas o importante, apesar da visão ingênua em 1Ts, é o que Paulo diz a seguir (5,12): “Agora vos rogamos, irmãos, que tenhais apreço por aqueles que se afadigam no meio de vós.” Muito bonito estar preocupado com a vó, que já se foi. Mas lutemos, agora, pelas pessoas que ainda vivem, oprimidas por um sistema injusto que nos divide, independente de sermos católicos, espíritas, candomblecistas, xamanistas, budistas ou ateus, em exploradores e explorados. A denúncia do papa Francisco se estende a todas as divisões, ou melhor, às desigualdades, que são causadas sempre pela mesma elite, em todos os campos da sociedade (dos quais o religioso é só mais um), motivada pela sede de poder. Desmascaremos esse modelo econômico, político e social e celebremos, a exemplo do que agora fazem católicos e luteranos, a oikoumene, isto é, a casa comum, casa de todas e de todos, independente de credo, cor, sexo, idade, localização geográfica. Amém, Axé, Awere, Aleluia!




[1] Cf. https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/homilies/2016/documents/papa-francesco_20161031_omelia-svezia-lund.html. Acesso em: 14/09/2017.
[2] Disponível em: https://w2.vatican.va/content/francesco/pt/speeches/2015/november/documents/papa-francesco_20151115_chiesa-evangelica-luterana.html. Acesso em: 14/09/2017.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

AS LIÇÕES DE UM FORASTEIRO E DE D. IRMA

Foi no caminho que ele nos encontrou. Éramos umas trinta e poucas pessoas – homens e mulheres – seguindo viagem, tristes, cansados e com medo. Descíamos de Jerusalém para Emaús, enquanto ele vinha subindo, subindo...
Vendo-nos passar (a)batidos, ele perguntou: “Por que vocês caminham com esse olhar perdido no horizonte?” – Nada de especial; só a neblina. Estamos indo participar de uma escola bíblica. Quer vir conosco, forasteiro? – “Vão indo, que eu já alcanço vocês!” E ele continuou subindo, subindo...
Juntamo-nos ao som do violão e ao calor do chimarrão. Começamos a conversa falando sobre migrantes. Na hora, não nos lembramos do forasteiro. Nem depois, quando o assessor abriu a Bíblia e leu o início do livro que narra os Atos de alguns Apóstolos: “Depois de reunir os Onze, Jesus anunciou a vinda do Espírito Santo, que os tornaria testemunhas do Reino, espalhando a Boa Nova, desde Jerusalém até os extremos da terra. Dito isso, ele foi subindo, subindo...”
Os Apóstolos ficaram olhando para o céu. Nós também estávamos olhando para o céu. Para onde mais devemos conduzir o nosso olhar num curso bíblico? Jesus prometeu que ia voltar. Os Apóstolos ficaram lá esperando. Nós estamos esperando até hoje. Quanta injustiça, quanta roubalheira nesse Congresso, quanta gente necessitada... Quando Jesus voltará? E ele ia subindo, subindo...
Antes mesmo de começar o curso, alguém relatava: viemos do acampamento dos sem-terra, lá nas terras da União. Eles têm ordem de desocupar o local dentro de dez dias. O juiz alega que aquela área é de mata nativa, mas “diz-que” na região só tem pinus. Um lamento daqui, uma palavra de indignação dali, e ele ia subindo, subindo...
Falamos, então, do nascimento de Jesus. Comparamos os anúncios feitos a Maria e a Zacarias. Este, levita. Aquela, embora prometida a um homem (José), ainda solteira. O primeiro em Jerusalém, servindo no Templo. Ela em Nazaré da Galileia, entretida com a lida da casa. Ambos recebem a visita do anjo Gabriel e duvidam da mensagem. Um fica mudo, a outra recebe uma palavra que a acalma. É que o Templo, quando o Evangelho de Lucas foi escrito, já estava destruído. Por isso, não tinha mais o que falar. Maria, por outro lado, estava em casa, num vilarejo nos cafundós da Galileia. Poderia vir algo bom de lá? (Jo 1,46) Porém, é no ventre de uma mulher extremamente pobre (como a maioria em Nazaré) que Jesus se encarna e instaura um novo espaço de culto a Deus: a casa. Conforme ouvíamos essas coisas, uns se empolgavam, outras nem tanto. E ele? Continuava subindo, subindo...
E aconteceu que, quando estavam à mesa, tomando ele o pão, abençoou-o e, tendo-o partido, deu a eles; então, se lhes abriram os olhos, e o reconheceram.” (Lc 24,30-31b) Estávamos terminando de ler o texto de Emaús quando dois homens de branco bateram à porta: “Por que vocês estão olhando pra cima?” – É que vimos Jesus subindo, subindo... – “Mas vocês estão olhando para o lado errado. Venham conosco!” – De repente, eis que estávamos no acampamento. Olhamos para o lado e vimos o forasteiro. Com ele estavam vários estrangeiros, isto é, gente que falava todas as línguas possíveis e imagináveis. Ele nos viu e sorriu. Apontou para uma mulher, D. Irma. Ela estava falando: “Minh’alma glorifica o Senhor porque olhou para nós, os pequenos. Ele eleva os humildes e despacha os ricos de mãos vazias. Mas, para isso, é preciso olhar para Moisés e Elias. Um lembra o Êxodo e a sua Teologia da Libertação. Ele conduziu seu povo para a reforma agrária. O outro é um profeta e, por isso, ensina a Teologia da Resistência. Ocupar e resistir é nossa maneira de lutar, de fazer o governo perceber nossa existência, é o modo como denunciamos a injustiça de um sistema onde uns poucos têm muita terra enquanto muitos não têm nenhuma”. A língua dessa mulher parecia de fogo. Ela falava lá do jeito dela, mas todo mundo entendia. Nossos corações ardiam. Então percebemos quem era o forasteiro, mas ele havia sumido. Naquele momento, os forasteiros éramos nós.
Ao voltarmos, encontramos novamente o forasteiro. Ele disse-nos: “Fui eu quem enviei aqueles homens. Eles levaram vocês a Betânia, que significa Casa dos Pobres. Foi lá que eu nasci. Foi de lá que eu vim parar em Jerusalém. Eu os levei até Betânia para que a transformem em Belém, Bet Lehem, Casa do Pão, uma grande casa comum, onde toda a criação terá o suficiente para viver. Mas atenção! Aprendam da experiência do maná do deserto e do casal Ananias e Safira nas primeiras comunidades que o acúmulo e a ganância criam somente vermes e podridão, isto é, um sistema de morte. Divulguem por aí que a Boa Nova é a partilha. Não ignorem as coisas antigas, mas deem a elas um novo significado, centrado no amor e na justiça. Sem essa novidade, o antigo ficará mudo como Zacarias e estéril como Isabel.”

Ele disse, ainda, outras coisas. Falou com cada um e cada uma em particular. Quando decidimos pular o muro do nosso medo e da incerteza e saltar para o infinito desconhecido, ele sumiu de novo diante dos nossos olhos. Mas, de repente, já não estávamos sós...




quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

DO QUE AS/OS JOVENS NECESSITAM ou DOS FRUTOS DA LEITURA BÍBLICA

“Senhor, é bom estarmos aqui!” Assim meditava um jovem enquanto na comunidade se fazia a leitura do Evangelho. É bom estar na Igreja. Eu sou um jovem de sorte, um jovem abençoado, pois conheço os caminhos do Senhor. Poderia estar na rua, me drogando, mas estou aqui, aqui onde quero sempre estar. Não é o que diz o texto? Vamos fincar nossas tendas neste monte santo, que é – só pode ser – a Igreja.

Depois da leitura, o estudo da Palavra. O padre explicava com sua voz suave, cheia de pausas dramáticas: são três tendas, uma para Jesus, outra para a lei (Moisés) e outra para os profetas (Elias). Como o padre explica bem! Se não fosse essa história de celibato, eu queria ser padre. Mas Jesus desceu com eles e foi para o meio da multidão. Como assim? Descer pra quê? Se tava tão bom lá... O jovem divagando e o padre explicando: “Precisamos descer da montanha do nosso egoísmo e levar a Palavra a todos os homens, especialmente aqueles que estão afastados da Igreja”. Sim, sim, sim! Era essa a sua missão. Como o padre era sábio...

Vinha para casa cantarolando: “Leva-me onde os homens necessitem...” Então fez algo que não estava acostumado a fazer: prestou atenção na letra da música. Onde os homens? Por que as mulheres não? Melhor ainda... No seu grupo de base, cantavam: “Leva-me onde os jovens necessitem”. Hum, onde os jovens necessitam? Falavam em suas reuniões de jovens perdidos, largados pelas ruas, sem Deus no coração... Todo fim de semana cantavam essa música. Deus finalmente estava levando-o até onde os jovens necessitam. Esses pobres desafortunados finalmente iriam conhecer a Palavra.

No outro dia, a coragem e a empolgação já não eram as mesmas. Mas não podia falhar com Deus. Convidou sua prima, que também participava do grupo. Ela fez um charminho, mas topou ir junto. Primeira parada, um jovem na calçada. Oi, você mora onde? Aqui mesmo! Não tá vendo? Ah, tá! Desculpa! É que... Gaguejou. A prima o socorreu: “Você acredita em Deus?” Acredito... Vocês têm um trocado aí? Não, meu irmão, não temos nada, mas o que temos... Vocês têm um cigarro? Não! Não... A gente não fuma! É que... Ei, vocês podiam me pagar um pastel? Não! Nós queremos te trazer a Palavra... Palavra não enche barriga nem dá barato. Se vocês não têm o que me oferecer, saiam daqui que eu tô trabalhando. O começo não foi nada bom, mas é assim mesmo: nem todos estão preparados para ouvir a Boa Nova.

Então, os primos seguiram adiante e encontraram uma jovem parada na esquina. A confiança já não era a mesma, ainda mais depois do revés inicial. Ele tinha vergonha do que pensaria o pessoal da Igreja se o visse conversando com uma... uma... Ai, deixa que eu vou! A prima novamente o socorria. Oi, você tem um tempinho? Gostaríamos de falar contigo! Hum, casal é mais divertido! Onde está o carro de vocês? Não, não... Estamos a pé! Hum, casal é mais caro, querida! Ei, espera! Nós não... E, sem graça, ela saiu. Vendo a expressão no seu rosto, o primo não disse nada. Apenas caminharam calados até em casa.

Tristes em volta da mesa, na cozinha da casa dela, lamentavam o acontecido. Mas não podemos nos dar por vencidos! Nosso primo Victor. Ele só fica em casa, jogando videogame. Talvez possamos começar por ele. Mas já o convidamos tantas vezes! Além disso, a mãe disse que já cansou de chegar lá, quando a tia não tá, e sentir cheiro de maconha. Temos que tentar. Se não conseguirmos com ele, com os da rua vai ser pior ainda. E lá se foram...

Ô Victor! Entra aí, seus manés! Tô aqui, só de boa! Querem jogar um game novinho que eu comprei? Não, nós... É que... Ih, lá vêm vocês de novo com esse papo de Igreja? É que nós queríamos te mostrar como é legal no nosso grupo. E hoje, sabe... Hoje tem estudo bíblico. O padre faz uma leitura bem diferente. A gente não fica só lendo a Bíblia. A gente vê como ela pode ser útil na nossa vida. Hum... Já que é assim, deixa eu perguntar uma coisa: Vocês gostam mesmo de ler a Bíblia? Sim, gostamos! Então guardem isso pra vocês! Eu gosto é de zuera!

Eles não tinham se dado conta disso. Ele não tinha se dado conta. As outras pessoas também têm seus interesses, suas vontades, uma identidade própria. Ele nunca se perguntou o que as pessoas ao seu lado querem. Nunca entendeu como elas não poderiam querer o mesmo que ele. Elas não conhecem Jesus. Só pode! E agora ele se dava conta de que as pessoas nunca fariam o que ele quer, mas só o que elas quisessem. De repente, virou-se para sua prima e perguntou: o que você quer? Ela não entendeu muito bem: “Só quero ir pra casa! Meus pés estão me matando!” Não, o que você quer da vida? Sei lá eu! Tô muito mau humorada para falar nisso agora! Sem perceber, ele estava fazendo de novo. Iria iniciar uma discussão filosófica sem perguntar se era isso que sua prima queria naquele momento. Ok, vamos pra casa!

Sozinho em seu quarto, o jovem folheava a Bíblia. De fato, Jesus não curou ninguém lendo as Escrituras. Ele fazia gestos, recomendava boas ações, ensinava a questionar/enfrentar o sistema político e religioso de sua época, mas nunca disse: “Estude a Palavra e depois conversamos!” Então por que ele, o jovem, fazia isso? Porque ele gostava! Jesus ouvia as necessidades das pessoas e as atendia, sem exigir conversão, sacrifícios ou um ato de fé. Jesus dava às pessoas o que elas necessitavam, não o que Ele achava importante para elas. Leva-me onde os jovens necessitem... Jesus sabia o que elas necessitavam porque as ouvia. Faltava ao jovem o ato de ouvir. Sair de si mesmo e se colocar no lugar da outra, do outro. Por que o morador de rua foi tão rude? E a jovem na esquina? Aliás, por que eles chegaram àquele estado? Por que o primo Victor era tão rebelde? Talvez porque, até hoje, ninguém tenha se importado com a vida deles, seus anseios, sua história. Então o jovem finalmente entendeu: Não há como levar a Palavra até os mais necessitados sem se importar com a sua realidade.

A Palavra se fez carne! Levar a Palavra – o jovem passou a compreender assim – não é abrir a Bíblia, no meio da rua, e começar a ler para o mendigo. Folheando as Escrituras, ele encontrou: “Tal ocorre com a palavra que sai da minha boca: ela não volta a mim sem efeito; sem ter cumprido o que eu quis, realizado o objetivo de sua missão” (Is 55,11). Estudar os escritos de nada serve se isso não se traduz em ação, em mudança de vida. Lembrou-se, então, de uma frase muito repetida em seus cursinhos de Igreja: “Quando dou pão aos pobres, me chamam de santo; quando pergunto por que eles não têm pão, me chamam de subversivo”. Compreendeu, enfim, que seu compromisso não era fazer a diferença apenas na vida das pessoas, de uma pessoa. A Bíblia só se torna Palavra de Deus quando ajuda a construir a identidade de um povo – uma comunidade – e a se comprometer com a mudança de uma sociedade, onde todas e todos, inclusive sua amada juventude, tenham respeitado o direito de bem-viver. Isso é espalhar a Boa Nova. Nisso (na ação) reconhecerão os outros de quem somos discípulas e discípulos. Isso é Palavra de Deus.

O jovem, hoje, é professor em escola pública e está sempre atento aos anseios de seus educandos e educandas. Há pouco tempo, incentivou-os a montar um grêmio estudantil. A escola nunca mais foi a mesma depois disso. A prima seguiu outra carreira. Ela se tornou advogada. Presta assessoria gratuita aos pobres, uma vez por semana, mas abandonou os tempos de igrejeira. Afinal, ela também é uma pessoa com vontades próprias.

domingo, 28 de junho de 2015

DOS 18 AOS 16: A CHAVE DO NEGÓCIO

Às vésperas de sua votação na Câmara Federal, urge saber se já foi feita a pergunta-chave da questão: a quem serve a redução da maioridade penal? Os defensores querem nos fazer acreditar que estão preocupados com a segurança da população, ou melhor, dos homens (e mulheres?) de bem da nossa sociedade. Mas, diante do histórico de nossa classe política, acreditem: deve haver outra explicação.
Partindo da suspeita de que os políticos sempre defendem seus próprios interesses e os de quem os patrocina, você já parou para se perguntar quem são os doadores de campanha dos apoiadores da redução? Conhece o ramo de atividade de empresas como a Umanizzare Gestão Prisional? Sabe dizer quem lucraria, caso o sistema prisional brasileiro fosse totalmente privatizado, com o aumento da população carcerária?
O Brasil já é uma fábrica de presidiários há algum tempo. Não por acaso, temos a 4ª maior população carcerária do planeta. Se adotarmos a redução, então... Baita negócio (para quem vê isso como um negócio, business), não é mesmo!? Curiosamente, o líder mundial já adota o mínimo de 16 anos em algumas de suas federações, mas estuda aumentar a maioridade penal. Estou falando dos EUA. Os estudos lá apontam que, entre os adolescentes, os tratamentos de reabilitação são mais eficazes do que a punição. Oh, descobriram a América!
As razões para a redução são evidentes. Mas quem liga para razões? Estamos em 33 d.C. A farsa, digo, o tribunal está em sessão. O suspeito é um galileu. Após ouvir as acusações, Pilatos, o juiz, pergunta ao réu: “Sendo tu um zé-ninguém, é verdade que queres ser rei, isto é, um líder independente de Roma?” O sujeito à sua frente, já sabendo qual o veredicto, decide não pactuar com a armação e recusa-se a representar o seu papel, finge esquecer sua fala. Seu silêncio é constrangedor. O tribuno lança uma nova deixa: “O que tens a dizer?” O outro nada responde. A plateia já ameaça umas vaias. Então o roteirista introduz um novo quadro: você decide! Chamam uma nova personagem, um black block. O rapaz foi às ruas manifestar sua indignação, houve um confronto com a guarda romana, alguém disse que ele e seus comparsas estavam bêbados, ninguém soube muito bem como começou a briga, um policial foi mortalmente ferido. E então? Quem vocês querem que eu solte? O baderneiro ali, ou esse outro que quer viver livre do poder romano? A escolha é fácil, pois acusação mesmo só há contra um dos candidatos. Mas quem patrocinou o espetáculo quer ver a execução do outro, o que é contrário ao financiamento das campanhas imperiais. E tudo por quê? Porque o cidadão resolveu denunciar a corrupção e os verdadeiros interesses da bancada sacerdotal. Vai daí que se inicia no meio dos presentes – gente de bem, gente muito séria, mas muito favorável ao status quo – um burburinho. “O fulano é de Nazaré. Diz aí: de lá pode sair coisa boa? Não sei muito bem o que ele fez, mas... e se fosse com o seu filho? Fosse com o meu filho o quê? Sei lá! Mas, e se fosse?” Bastou que um começasse para todos gritarem: “Solte Barrabás!” E o cabeludo? “Crucifique-o!”

Os jovens que hoje estão aí, em vias de serem presos, são também uma denúncia: a constatação de que o Estado falhou. O que resta fazer com quem não tem respeitado o direito à vida? Com quem não tem moradia digna, nem alimentação saudável e balanceada, nem incentivos para o lazer e a prática do esporte, não tem acesso ao espaço público, muito menos educação de qualidade? Melhor encarcerá-los do que mantê-los à vista da gente de bem. Afinal, a consciência só dói quando o problema está à nossa frente. Eles são, enfim, a denúncia de que há pobres em nosso meio. Ora, se eles estão aí é porque há também os que acumulam riqueza. Para estes, não interessa se é razoável a máxima de que o tratamento é melhor do que a punição. Afinal, para que desperdiçar os insumos de um grande negócio à vista?

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Por um Natal além de Ritos e Ofícios

Adoração dos Pastores - Pintura de Bartolomé Esteban Murillo
E o povo foi à missa. Uns poucos, é verdade. Tímidos, mas muito devotos. Largaram momentaneamente família, amigos, vizinhos, afazeres, telefonemas, o churrasco... e lá se foram. Noite de Natal, sabe como é! Tem presépio, uma equipe animada de cantos, luzes, flores, o sermão do padre... tudo conforme manda o figurino, ou melhor, a tradição!
O Evangelho falava do recenseamento que levou Maria e José a Belém e do glorioso anúncio aos pastores (Lc 2,1-14). Após a leitura, muito respeitosa, feita pelo diácono, levantou-se o padre e solenemente tomou posse do que por direito era seu, isto é, o microfone. Vá lá que o texto fosse pra lá de manjado, ultraconhecido, mas, a julgar pelo silêncio da plateia, digo, dos fiéis, parecia que algo maravilhoso estava prestes a ser anunciado. Embevecido pela atenção geral, o presidente começou sua pregação.
De cara, a primeira alfinetada: “Quantas pessoas hoje estão comendo, bebendo, fazendo festa e não tiveram tempo de vir a esta celebração; elas se esqueceram de Jesus!” Pensei que o público acusaria o golpe, não por si, mas pelos familiares que preferiram ficar em casa... nada! Então a artilharia continuou: “Quantos pobres hoje não têm o que comer (ôpa! – pensei: tá esquentando...), mas são felizes com o que possuem (ihhh...)!” Resumo da ópera: um festival de senso comum. Natal não é tempo de ficar trocando presentes, mas de ir à Igreja e dar glória a Deus. Se os pobres são capazes de ser felizes com o que possuem, quanto mais nós que temos a honra de comungar Jesus todo domingo. Só pode se dizer cristão quem segue os preceitos da Santa Igreja. Pensar qualquer coisa além disso cheira a heresia...
Curioso que o herege é, por definição, quem vai contra os dogmas da Igreja e os ensinamentos bíblicos. Pois bem, então vamos ao texto! Jesus foi concebido, criado e se tornou o Messias na Galileia. Belém foi palco apenas de seu nascimento. Assim, Lucas apresentava Jesus como o Filho de Davi, o menino de que falava a 1ª leitura (Is 9,1-6). Segundo Isaías, uma grande luz brilhou porque o Príncipe da Paz veio para quebrar o jugo que oprimia o povo e restabelecer a Justiça. A Luz, portanto, era a liberdade para os que viviam nas trevas, isto é, os oprimidos. O Salmo 95 e a carta a Tito – Tt 2,11-14, também textos do dia, falavam do restabelecimento da Justiça como sinal de salvação. Agora, não sei se vocês tiveram a mesma impressão, mas algo me diz que Justiça parece ser uma palavra-chave para entendermos o texto de Lucas, não!?
Os textos também são unânimes em dizer que Jesus veio para todas e para todos. Entretanto – e aí o padre tem razão –, nem todos o acolheram. O v.7 diz que Jesus foi colocado numa manjedoura porque não havia lugar para ele (e sua família) em hospedarias. Seria José o único descendente vivo de Davi? Ele não tinha irmãos, primos, parentes que o pudessem acolher? O Evangelho de João disse que Jesus veio para os seus, mas estes não o receberam (Jo 1,11). Talvez por isso, tempos depois, Ele tenha dito: “Os sãos não precisam de médico” (Mc 2,17a). Uma ironia, certamente, já que os judeus (especialmente fariseus e doutores da Lei) se consideravam os únicos dignos de pertencer ao povo escolhido. Na cidade imperava a lógica do Templo, atrelado aos ritos de purificação. Riqueza era sinal de bênção divina. Assim, os pobres eram considerados impuros por sua própria condição. E como os puros deveriam viver separados dos impuros, estes eram impelidos para fora das cidades. Ora, Jesus nasce em Belém, mas fora da cidade. E quem é convidado a ir vê-lo? Algum citadino?
O anjo apareceu aos pastores, cuja experiência com o sagrado era de opressão. Viviam no campo, expostos a inúmeras situações que os tornavam impuros. Não admira que tivessem medo. Sempre que iam ao Templo, era para negociar o rebanho ou purificar-se. O anjo, porém, disse-lhes que se alegrassem. O momento era de glorificar a Deus. Um novo tempo, uma nova relação deveria se estabelecer entre Deus e a humanidade, especialmente os pequeninos, até então considerados amaldiçoados. Notem que o Templo fica de fora dessa. Logo, essa história de que os salvos são aqueles que vão à missa todo domingo não se sustenta pela Bíblia. O que determina a pertença ao povo de Deus é a vida em comunidade, não a frequência às celebrações. Embora não tenha sido a primeira a ser convidada, a comunidade dos pastores é a primeira a aceitar o convite e fazer a experiência do Deus Menino.
Olhem que bela oportunidade! Hoje, as igrejas históricas estão se esvaziando. O povo não aceita mais ameaças, nem que sejam referentes ao fogo eterno. Duas fórmulas o atraem: 1) A mágica das curas e exorcismos; 2) Algo que toque seu coração e dialogue com sua realidade. A primeira arrasta multidões, mas seus efeitos logo passam. A segunda atrai menos, mas os efeitos são mais duradouros porque transformam, de fato, a vida das pessoas. Em vez de “aproveitar” a casa cheia para reclamar de quem só aparece em ocasiões especiais, por que não dizer que a porta está sempre aberta? Por que não ir ao encontro dos mais necessitados, celebrar com eles, na casa ou nas acomodações deles? Se o objetivo é puxar a orelha, por que não questionar o motivo de, dois mil e quatorze anos depois de serem acolhidos por Jesus, os pobres ainda serem marginalizados e explorados? De qualquer forma, por que não anunciar que é um tempo de alegria? Porque é isso que o Natal significa. Deus veio habitar entre nós e, logo de cara, fez questão de mostrar que sua casa tem lugar para todas e para todos, mesmo os que não seguem os preceitos religiosos tão à risca. Em suma: Natal é tempo de anunciar que Deus veio ser um de nós para que toda a humanidade se una a Ele.

Confesso que voltei pra casa irritado. O padre ficava reclamando da quantidade de participantes na celebração, sem perceber que seu discurso metia mais medo que amor e esperança no coração daquela gente. Se tivesse copiado o exemplo do anjo, pelo menos: este percebeu que deveria tranquilizar seus ouvintes antes de dar-lhes a Boa Nova. Ou se tivesse observado como Deus se fez pequeno para acolher os mais pobres... Mas enfim, quando estava quase chegando ao meu destino, antes de abrir o portão, pensei: “Ô Zé, deixa de ser besta! Você parece até que tá querendo ensinar a missa ao vigário!”

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

LANÇAR AS REDES (SOCIAIS) EM ÁGUAS MAIS PROFUNDAS

Então o meu tio, pescador, resolveu fazer um perfil no facebook. Como ele não manjava muito dessas tecnologias, pediu minha ajuda. Enquanto eu lhe apresentava o mundo virtual, ele me dizia, entre maravilhado e temeroso, o que entendia por “navegar”, “rede” e outros termos tão comuns ao seu universo.
– Fiio, navegar só é bom quando a gente conhece bem os perigos do mar. E rede é legal, mas só para o pescador, não para os peixes.
Eu, metido a biblista, falei pra ele de um episódio onde Jesus manda Pedro lançar as redes em águas mais profundas. Ele, curioso que só, pediu para eu contar a história. Depois que terminei, ele me olhou bem sério e disse:
– Brabo de acreditar...
– Por que, tio?
– Esse Pedro sai à noite, que é mais fácil de enxergar os peixes, e não acha nada. Aí, de dia, que é quando os bichinhos ficam escondidos, eles enchem as redes. E ainda por cima em alto mar? Truco!
Confesso que nunca tinha visto a questão pelos olhos de um pescador. Sempre imaginei a cena toda de forma simbólica. Ou seja, o barco como sendo a Igreja; a noite e o mar representando os perigos do mundo; Pedro como um chefe religioso; a rede, o Evangelho; os peixes, novos adeptos da religião nascente... Mas o tio me deixou intrigado. Como os ouvintes de Jesus, muitos deles pescadores de profissão, encararam esse “deslize”? Bom, o relato é de Lucas. Talvez o seu público não tenha percebido... Mas alguém tão cuidadoso em compilar os textos não iria cometer um erro tão grosseiro. Iria? E se foi de propósito? E se houvesse um sentido mais profundo?
Talvez o autor fizesse mesmo questão de contar o sucedido de maneira “fantástica” para que as pessoas se antenassem e olhassem para além das aparências.  Ora, se Jesus é a Luz, faz todo sentido pescar durante o dia. Ir para águas mais profundas, ou para o mar aberto (“fazer-se ao largo”, dizem algumas traduções), significaria ter uma visão mais ampla e mais crítica da realidade e do mundo que nos cercam. Logo, a rede, usada à noite para capturar peixes, teria um novo sentido à luz do Sol: libertar as pessoas.
Então me lembrei que estava iniciando meu tio no mundo das redes virtuais. Fiquei impressionado com a sua perspicácia. Ele nem começou a usar o perfil e já estava intuindo a existência de armadilhas. De fato, se tem uma coisa que acaba, com o ingresso nas mídias sociais, é a privacidade. Na era dos reality shows, ansiamos por expor todos os nossos passos na internet. Atentos a isso, os patrocinadores injetam dinheiro pesado nos sites de relacionamento em troca de informações privilegiadas sobre nossos dados pessoais e tendências de consumo. Isso pra não falar nos problemas de roubo de senhas (inclusive do internet banking) e até de espionagem. Olhando por esse lado, as redes virtuais são muito perigosas.
Já ia dando razão ao meu tio quando minha esposa veio avisar que havia voltado da academia. Então pensei no outro lado da moeda: eu a conheci num site de relacionamento, e estamos juntos há dez anos. Mantenho uma lista extensa de amizades virtuais com quem debato os mais variados assuntos. As propostas de estudos, como os de hermenêutica juvenil, têm circulação inalcançável pelos métodos tradicionais de divulgação. Numa dessas listas de debates surgiu a ideia do curso bíblico virtual, que tem rendido ótimas reflexões. Escrevo para meus blogs, auxilio em outros e me divirto e aprendo muito com as postagens de outras pessoas. É liberdade total de expressão e acesso a informação: algo inimaginável nas mídias impressas e outros meios de telecomunicação. Seria isso o mesmo que lançar as redes à luz do dia?
Indo para águas mais profundas, para o mar aberto: as redes, em si, não são boas nem más; elas são uma ferramenta. E que baita ferramenta! Há pouco mais de um ano, graças a uma mobilização que se iniciou nas redes sociais, manifestantes invadiram as ruas em busca do que imaginavam ser um Brasil melhor. Se o resultado foi um sucesso ou um fracasso, deveu-se à falta de uma pauta de reivindicações comum, à falta de costume de manifestações desse porte, a uma série de fatores, enfim, que dependeram de pessoas, não do meio de comunicação. O mesmo vale para as objeções de alguns colegas sobre cursos populares EaD. Dizem que “popular” e “virtual” são antônimos, que a internet torna as relações frias, monótonas etc. e tal. Isso lembra o Concílio de Jerusalém (At 15), que discutiu a necessidade da circuncisão para os não-judeus. Lá como cá, a questão me parece ser de costumes, portanto, não-fundamental para a fé. Pessoas circuncidadas e relações presenciais podem ser tão boas ou tão más quanto pessoas incircuncisas e relações virtuais.
Em suma, redes sociais são um meio, com suas qualidades e suas
peculiaridades. Se, por um lado, há os riscos, há também os benefícios. Tudo depende do modo como as utilizamos. Ontem, por exemplo, esqueci meu twitter aberto no micro do meu tio. Faz uns dez minutos, ele me mandou uma mensagem pelo skype:
– Fiio, acho que alguém te trollei, não sei quem fui. Dá uma olhada lá! #fikadica